Crônica por Paulo Henrique
4 de fevereiro de 2004
Sempre tive a desconfiança de que os relógios conspiram contra mim. Qualquer tipo de relógio: de pulso, de igrejas, despertadores, principalmente os despertadores. A última evidência desta conspiração é o sumiço de meu relógio de pulso. Desapareceu. Ou melhor, escondeu-se. Na verdade, eu ouço seu apito em algum canto do apartamento, dentro de alguma gaveta, ou de algum armário. Todos os dias, no mesmo horário, o safado apita. Mas nunca dá tempo de identificar de onde vem esta provocação. O malandro sempre se cala, antes de eu sacar de onde vem o barulho.
Os óculos também não vão com a minha cara (sem trocadilhos). Desaparecem misteriosamente, do nada. E olha que possuo dois pares de óculos: o titular e o suplente. Faz um tempo que tenho usado o suplente, bem demodê, diga-se de passagem. Uma noite dessas, tenho certeza, deixei o modelo titular em cima de uma mesa e, sozinho, ele desapareceu para sempre. Deve ter se escondido junto com o relógio…
Isto também vale para camisetas e sapatos (especialmente o par de chinelos); alguns CDs (certa vez o Magic Mistery Tour ficou escondido por quase um semestre no drive do computador); cintos e gravatas. Muitas vezes desconfio do caráter dos meus objetos, súditos incontroláveis, que desde sempre travam esta luta de classe. Às vezes assumo a culpa, duvido da minha própria capacidade administrativa sobre meu pequeno condado.
Mas talvez a explicação mais convicente já tenha sido dada por Fernando Sabino, que desenvolveu uma teoria sobre o Cabloco Sumidor. Ele diz que este cabloco rouba os objetos domésticos, sem mais, nem menos, apenas por traquinagem. E só devolve quando bem entende. Principalmente os isqueiros, segundo o mestre mineiro. A solução, portanto, é ter uma réplica de cada objeto perdido e aguardar a tão esperada devolução dos mesmos, na medida em que o Cabloco Sumidor queira devolvê-los.
Deve ser por aí. Se Sabino falou, tá falado. Mas por via das dúvidas, caros leitores, se vocês acharem algum relógio, um par de óculos de grau ou uma camiseta regata, por favor, me avisem. Um dia estas coisas vão aparecer, eu sei.
Titulo: Fernando Sabino falou, Fernando Sabino avisou
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Crônica
Data de publicação: 4 de fevereiro de 2004
Resumo: Alguém viu minhas coisas por aí?
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Realmente, vc não é daqueles que não tiram o relógio do pulso nem para dormir… Nem tão organizadinho assim, né? Com essa de “caboclo sumidor”… Mineiro que só! O que não posso negar, de forma nenhuma, é que vc é prático como ninguém! Só usa certas coisas quando estas são urgentes, necessárias, essenciais, ou qd “a foça do ofício te obriga”. O que te importa é o que virá pela frente. E para isso vc faz o melhor como bom caboclo esperto que é.