Crônica por Emerson Penha
17 de fevereiro de 2004
Fevereiro começou atípico. Nuvens cinzas, dias escuros, úmidos. Nada de verão. Quando, quinze dias depois do mês iniciado, o sol lavou-me pela primeira vez as vistas, pude ver com precisão que algo ? ou alguém ? faltava.
Ela saiu sorrateira, quase sem dizer nada, planos de existência em lugares distantes. Ainda olho para aquele canto em que ela usava sentar-se, e quase a procuro, de forma inconsciente. Terríveis males esses, os da contemplação só pela lembrança, o gelo seco do passado.
Aliás, o que me deixa um buraco no espírito é a memória da mulher que não tive. Quando cheguei aqui, era menina ela. Eu ficava reparando seu jeito rápido de dizer as coisas, sem querer levantar atenções, como se isso fosse possível, como se ela já não o fizesse por existir no meio daqueles mortais. Mas eu criei o hábito de reparar nos santos que ela trazia contíguos ao computador, no jeito de pousar os pés sob a mesa, no olhar e no sorriso.
Lembro-me de como reparei em seus tons cor-de-rosa. Da vez única em que me sentei por um período considerável perto dela, tive calma suficiente para deliciar-me ao ouvi-la falar, entre risadas, das mazelas da vida. Reparar e desejar os movimentos da boca. Ou do dia de pequena tragédia, articulações feridas em uma queda no trabalho, pude tocar a tatuagem no dorso do pé, fonte que não se exaure de meus desejos. Quantas e quantas noites vi e revi na mente as formas da tal tatuagem e da mulher que a carrega. Quantas vezes, meu Deus, perdi a conta.
Sim, era mulher já, quando se foi. Bicho de corpo, foi buscar os calores que só o Nordeste ensolarado, febril, oferece. As mulheres que nos fazem mais falta são as que não nos pertenceram nem por um só momento. As que não nos desejaram. Fica a fé: um dia, os amores que eu não tive hão de enviar buquês de rosas. Será? Só sei que o olhar cor-de-rosa dela me faz muita falta, muito mais do que eu poderia imaginar.
Titulo: Fevereiro
Autor: Emerson Penha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 17 de fevereiro de 2004
Resumo: Crônica de um flash do dia, quando, ao modo de uma fotografia, o autor se pega pensando em alguém.
…”Ah, que mau costume ele inaugurou então/ Ao cobrir de louvor arrebatado/ O que havia apenas visto e não provado!/ Desde que versejou a uma simples visão/ Tudo de aparência bela e casta, a qualquer ensejo/ Cruzando uma praça, tornou-se objeto de desejo.” (sobre os poemas de Dante a Beatriz)
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Penha, legal esta ambientação e a descrição desta sua musa inalcansável. Misturou o romantismo antigo com pitadas modernas como computador e tatuagem. Apareça mais por aqui!