Guggenheim e seres terrestres

Crônica por Eduardo Socha
23 de maio de 2003

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Guggenheim-Atlântida no Rio de Janeiro (Reuters)

Em meio a celeumas e gritarias da intelligentsia artística brasileira, o prefeito César Maia assinou, há pouco tempo em Nova York, um acordo que prevê construção de um complexo cultural na zona portuária do Rio de Janeiro, sob responsabilidade da Fundação Solomon Guggenheim. Os termos (no mínimo obscuros) do contrato representam uma facada orçamentária de 190 milhões de dólares nos cofres públicos, referentes a elaboração e implantação do projeto. Além, estima-se financiamento anual de 9 milhões destinados a sua manutenção. Cifras inquietantes, assustadoras, sobretudo para uma cidade onde a escalada da desordem social parece confirmar a insolvência do poder público.

Obviamente, não se deve incorrer naquele discurso pragmático e proselitista do “estabelecimento de prioridades sociais”, já que a definição de uma agenda cultural é tarefa do Estado, tão importante aliás como políticas de cunho social. É preciso distinguir as coisas. Agenda cultural não se reduz a regulamentações burocráticas, discussões empoladas em círculos de bacharéis e intelectuais. Ela determina diretamente a concepção identitária nacional. Por isso, não se questiona os mais de 190 milhões de dólares para a revitalização cultural do Rio - estes custos, diga-se, foram estabelecidos em dólar, moeda que, até ontem pelo menos, não era a oficial. A querela, na verdade, diz respeito ao emprego de tais recursos. Surge então a primeira controvérsia: para que construir um novo museu faraônico se o estado da museologia brasileira é agonizante? Não seria melhor reinvestir naquilo que já existe?

Defende a prefeitura que o projeto envolve reurbanização de uma zona decadente do Rio, o que em tese renovaria a atividade econômica da cidade e ampliaria o fluxo turístico. Faz sentido. Agora resta saber se o argumento não envereda pela tradicional linha política de factóides, do jogo de marketing político. A julgar pela escolha do responsável de execução, o Guggenheim sediado em Nova York, parece que sim. O Rio abrigaria o sexto “muséu-satélite” (como a própria instituição define) da griffe Guggenheim, com desenho do arquiteto francês Jean Nouvel. Estaríamos importando um “nome forte, internacionalmente respeitado”, uma griffe da museologia internacional. Tudo muito chique. E aí viria o segundo ponto da questão: a chegada do Guggenheim não revela uma atitude de periferia intelectual, ou ainda, para utilizar a expressão de Antonio Risério, de “capachismo cultural” ? Afinal, o país dispõe ou não de uma linguagem arquitetônica própria que, embora influenciada pela estética européia, se faça valer ?

Nesse aspecto, a brasileirada coça a cabeça. “Do ponto de vista urbano […], não vejo nenhuma contribuição. Não conheço o projeto de Jean Nouvel em detalhes, só sei que é uma obra submarina, o que, convenhamos, não é a melhor paisagem para nós, seres terrestres”, brinca o arquiteto Pedro Paulo Saraiva. O traçado lembra de fato uma ilha, evocando o mito de Atlântida. Uma Atlântida no Rio!? Não seria melhor então fazer um aquário bacana em vez de museu?

Dado o imenso volume de recursos e sua consequente relevância numa nação pobre, o projeto mereceria maior debate. Foi oferecido como pacote fechado, praticamente imposto pela instituição estrangeira. Sem resvalar em nacionalismo bobo e delirante de rejeitar aquilo que vem de fora, supõe-se que o país tenha massa crítica para discutir. Alguns enxergam a importância do Guggenheim carioca como resultado de um processo inexorável de globalização. Provavelmente são os mesmos que vêem expansão de McDonald?s como sinal de desenvolvimento.

Outro fato preocupante é que a Fundação Guggenheim está imersa em dívidas. Se deu certo em Bilbao, fechou recentemente sua “unidade” em Las Vegas o que leva, portanto, à especulação de que a construção da filial Rio implica também oportunismo financeiro. A choldra, como diria Elio Gaspari, pagaria a conta.

Bom, há quem diga que esse negócio de Guggenheim já era, manobra de marketing furada do “Mr. Maia”. Na última terça, um juiz da Fazenda Pública suspendeu o pagamento da primeira parcela à Fundação, alegando irregularidades no contrato. Quem sabe a oportunidade seja boa para realizar uma proposta transparente de reurbanização e revitalização cultural no Rio, livres de factóides e se possível integradas às urgentes demandas socias que a cidade necessita. Os seres terrestres desta Atlântida agradeceriam.


Titulo: Guggenheim e seres terrestres

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 23 de maio de 2003

Resumo:

A polêmica em torno do Guggenheim-Rio

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3 Comentários

  1. Sabrina Fontenele disse:

    O texto expõe uma questão urbana que virou problema nacional. Como arquiteta, fico feliz de vê-lo divulgado além dos periódicos técnicos de maneira elucidativa e interessante.

  2. Mário disse:

    Eu já havia lido comentários de Jabor e Ferreira Gullar sobre o Guggenheim do Rio. Como eles, você trouxe à tona a discussão sobre os projetos culturais financiados pelo Pai-Estado. Sem cair em explicações fáceis e argumentos rasteiros, usou bem a noção de relatividade para abordar o tema. Gostei!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Os seres virtuais desta Patada agradecem” - muito bom, Socha!

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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