História de uma tarde com cana-de-açúcar

Crônica por Eduardo Socha
26 de outubro de 2003

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Apenas uma cerca de arame frágil dividia o pequeno canavial e os fundos da casa abandonada. Por volta de duas da tarde, entramos os cinco no terreno e paramos bem diante do cercado, indecisos. Contávamos, então, a tenra idade dos 13 ou 14 anos. Durante o recreio daquela manhã, o Guido tinha avisado que não haveria problemas, que o dono do canavial mal dava as caras por lá e certamente não perceberia a falta de uns poucos caniços. O Guido, sujeito finório, morava próximo ao terreno. Sempre botávamos a maior fé no que ele falava, e dessa vez não ia ser diferente. Mas na hora, bateu uma indecisão.

Arranjaram (acho que foi o Ricardo) um facão para a tarefa. Nas mãos do Alex, mais parecia o gládio sanguinário de um vingador medieval e aquilo assustou meio mundo. Discutimos quem seria o primeiro a entrar no terreno. Conversamos não sem muita hesitação, porque a vontade geral era mesmo desistir de tudo. Mas quem seria o covarde ali para falar em desistência? Chegamos ao consentimento de que seria melhor ir em duplas. Três ficariam no quintal da casa e aguardariam, sorvendo a garapa da cana recém-cortada, seus respectivos turnos. Quando se acumulava um monte de canas sobre o gramado, dávamos um tempo, sentávamos os cinco em roda e dizíamos piadas, confidências, verdades inocentes de um mundo finalmente compreendido pela doçura daquele caldo. Sem razão aparente, ríamos, embriagados de tanta cana in natura, estirados no gramado e com as mãos recostadas à cabeça, um riso persistente e sem disfarce. “Decepar a cana, recolher a garapa da cana, tirar da cana a doçura do mel, se lambuzar de mel”, saudaria o poeta anos mais tarde. Hoje, não me sobem à memória, esfumaçada pelo tempo, instantes tão radiosos quanto aqueles.

Devia ser umas cinco horas, pois a noite invernosa queria cair rápido. Ninguém agüentava mais, é verdade, estávamos todos visivelmente enojados, mas dali não se arredava pé. Guido e Ricardo tinham partido para mais uma leva. Estranhei quando ouvi os passos dos dois voltarem mais secos, rápidos, ofegantes. Ainda longe da cerca, Guido gritou alardeado “corre que o cara tá vindo!”. Uma lufada de desespero bateu os três ali no quintal. Desorientados, como formigas que têm seu trabalho interrompido, saímos correndo. Por instinto, segui o Cleiton, talvez porque me parecia a única referência para uma fuga segura dali: tinha mobilete. Num pulo manjado pelo hábito, sentou de chofre na motocicleta; quando olhou para trás, deve ter visto o imenso flagelo do meu rosto pois berrou “vai rápido, sobe aí!”.

Disparamos com o ruído esganiçado da mobilete, costurando as ruas já escurecidas. Descemos na frente da casa do Cleiton, que depois deixou a mobilete na garagem. Durante um bom tempo, alternávamos entre o riso compulsivo e a séria preocupação pelos colegas que tinham ficado. O medo recrudescido, porém, impediu-nos o retorno ao canavial (depois descobriríamos que não tinha cara nenhum, pura galhofa do Guido). Já era tarde e o Cleiton então me indicou o ônibus para casa. Por que voltei tão exultante para casa? Qual a origem do - talvez malicioso ? contentamento?

No livro 4 das Confissões, Santo Agostinho relata a famosa história pessoal do “roubo”, incidente parecido ao descrito acima. Em vez de cana, o santo ia no vizinho gatunar umas peras. Não para saboreá-las, mas para jogá-las aos porcos simplesmente. Santa e infinita maldade. Na minha época de mancebo, santo usava auréola e túnica chinfrim, fazia cara de piedade e, obviamente, não saía por aí roubando peras. Pois as percepções e os ventos mudam. O pior é que Agostinho cometeu este sacrilégio durante várias noites de sua adolescência, enquanto minha condenável investida foi única - logo, possuo credenciais mais do que suficientes para requerer meu estatuto de santidade.

Agostinho utiliza o relato como apoio para análise da origem do pecado. A digressão é longa e não cabe nesta maledicente e perdida crônica, mas adianto que a solução fornecida não esmorece a alegria daquela garapa com os colegas, não responde às perguntas de dois parágrafos anteriores. Suponho que ler o trecho com atenção redobrada auxiliaria meu entendimento da tal tese agostiniana. Mas melhor que isso, seria mesmo ir atrás dos antigos colegas, propor-lhes surrupiar algumas peras e buscar, depois de tanto tempo, compreender o mundo novamente.


Titulo: História de uma tarde com cana-de-açúcar

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 26 de outubro de 2003

Resumo:

Se até Santo Agostinho já foi um terror das pereiras, temos todos salvação

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3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Brilhante, Socha!Recordações dão sempre um ótimo ‘caldo’ pra um conto. Ainda mais quanto cabe análise ‘agostiniana’.Foi uma excelente leitura! Obrigado!

  2. Mário disse:

    Ótima crônica. Lembra da cana, que é tão nossa, das travessuras e do contentamento dessas travessuras, dos amigos de infância e adolescência, do uso brincalhão do tempo… Leve saudosismo, não cai na tentação de demonizar o hoje nem de dizer que “antigamente era melhor”. Parabéns!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Saudoso texto, Socha, belíssima conclusão. Uma hipótese para o relato de Agostinho é a oficialização literária da travessura de muleque - o arrependimento é outra conversa. Bacana é que seu texto dialoga neste mesmo princípio, tentando mostrar como é vivo e forte o “contentamento malicioso” das investidas de tão pouca idade. Curti.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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