Crônica por Thiago Mom
2 de junho de 2005
Assim como a MTV, não faz muito tempo, surpreendeu a audiência com a frase "desliga a televisão e vá ler um livro!" escrita durante 15 minutos numa tela preta (pesquisa do Ibope demonstrou que 8% realmente desligaram a TV), o programa "Pânico na TV" teve a originalidade de perder um pico de audiência com a leitura, por seis minutos, do poema "O Guardador de Rebanhos", do Fernando Pessoa.
Por que não qualquer iniciativa parecida aqui? Claro, A Patada já é um site literário, mas cinco minutos edificantes a mais nunca vão mal. Nada de Thiago Momm Pereira e suas bobagens estilizadas. A crônica abaixo, do escritor Italo Calvino (1923-1985; nascido em Cuba, foi pra Itália com menos de um ano de idade), se chama "O Raio" e consta no livro "Um General na Biblioteca", traduzido no Brasil pela Companhia das Letras.
Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Pra mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforo, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu na minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, pra chamar a atenção dos passantes e - Parem um momento!, gritei - tem algo estranho! Está tudo errado. Fazemos coisas absurdas! Esse não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso pra me explicar, torná-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
- E daí - perguntaram as pessoas. - O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência de outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado.
- Desculpem - respondi. - Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão, mas está tudo no lugar. Desculpem - E me afastei entre os seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião pra que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, pra me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante
Titulo: Hoje não tem crônica
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 2 de junho de 2005
Resumo: Um texto de Italo Calvino
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Muito bom! Selecionar um grande texto e introduzi-lo já dá uma excelente crônica.