Crônica por Eduardo Socha
16 de fevereiro de 2004
Que o ato criativo, seja ele de qualquer natureza, decorre de um grande complexo de influências, é coisa evidente. Ou, pelo menos, deveria. Alguns julgam tirar quase tudo da própria cartola de idéias e apostam em originalidade absoluta. Iludem-se (saqueando, inconscientes, a cartola do outro) ou tiram só poeiras (caindo em vazias pretensões). Tudo se constrói sobre o anterior. Existem trechos de “O Som e a Fúria” de Faulkner que, segundo Ernesto Sábato, parecem um claro arremedo de “Ulisses” de Joyce. Não há pecado nisso. Apoteose da literatura alemã, Goethe sempre declarava “eu vivo de empréstimos”, e não se referia à conta no boteco.
Mas fiquemos na música. Em específico, na brasileira. Mesmo a potente verve criadora de Villa-Lobos, cânone indiscutível da nossa música, foi lá e colou descaradamente do vizinho. A frase musical trabalhada no Prelúdio das “Bachianas no. 4” é idêntica (nota por nota, incluindo valor rítmico) à da “Oferenda Musical” de Bach, e o resultado não soa pastiche. Pode-se dizer que a genialidade criativa de um Villa-Lobos repousa na justa dosagem de largas influências, que neste caso iam de Bach ao canto da araponga, passando pelo choro carioca e pelo maxixe “esquenta-muié”. Criar é saber sintetizar influências.
Uma curiosa pesquisa do Departamento de Física Teórica da UFRN investigou recentemente o emaranhado de influências na música brasileira, sob o prisma conceitual dos “networks” e “complex systems”, palavrões da física estatística. Publicada no início do mês, a pesquisa utilizou uma base de mais de 5000 compositores nacionais e verificou que o nível de conectividade entre eles raramente ultrapassa 2 graus de separação. O que, em tupi, significa uma forte proximidade e mistura de estilos em nosso meio musical. Assim, Villa-Lobos e o compositor Nelson Ned estariam distantes apenas por 2 “graus”, atráves de intérpretes que os gravaram - Agnaldo Timóteo gravou músicas de Nelson Ned e Antônio Marcos; Maria Bethânia gravou Villa-Lobos e também Antônio Marcos, que foi portanto a “ponte” entre Ned e Villa.
Se a análise tem sua graça científica, deve-se naturalmente questionar sua validade estética. Afinal, a frieza estatística costuma encobrir inúmeros aspectos da complexidade humana. Seguindo o critério da pesquisa, seria fácil, por exemplo, ligar Chiquinha Gonzaga ao Grupo Akhbad(!), do Turkmenistão(!!), através de apenas um salto ? os dois aparecem num mesmo disco da Orquestra Popular de Câmara. Entretanto, bem se sabe que o mundo musical é rocambolesco demais para ser enquadrado em saltos.
De todo modo, o estudo revela um dado interessante sobre os compositores mais “conectados”. No topo, paira o maestro Tom Jobim, um desses felizes assombros que a humanidade acolhe vez por outra, canalizador de influências criando sobre métodos de Debussy e lamentos de Noel Rosa. Na linguagem estatística das “networks”, Tom Jobim é considerado um ponto de “ligação preferencial” - mais e mais intépretes desejam gravá-lo. Na linguagem dos homens, não houve quem pudesse dar definição - os empréstimos da sua cartola são incalculáveis.
Titulo: Influências
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 16 de fevereiro de 2004
Resumo: Pesquisa justifica o emaranhado musical brasileiro
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Texto que soa bem aos ouvidos, Socha, da constatação final que degela as estatísticas ao engraçado fiado de Goethe no boteco. Bacana.