Crônica por Thiago Mom
12 de abril de 2005
O chope é a união entre os povos. Já se pede há muito tempo que os chefes de Estado abandonem suas conferências sofisticadas e inúteis em salões redondos e, reunidos em torno de uma mesa bamba de boteco, tirem o paletó, afrouxem o humor, dobrem a manga da camisa e deixem amassar um pouco seus discursos bem passados.
Lá pelo oitavo caneco, por exemplo, naqueles segundos de alívio emocionado diante do mictório, eles poderiam pensar que um outro mundo é quase possível. Ou pelo menos foi esse o sopro de idealismo que eu tive. Na mesa estavam um cineasta, um cronista-filósofo, um cronista-sociólogo de balada, um engenheiro e dois administradores. Já era quase uma da manhã e ninguém tinha socado ninguém ? e nenhum Gol cheio de policiais carniceiros tinha azeitonado o barzinho.
À exceção do cronista-sociólogo de balada, em quem cada dia aposto menos as minhas fichas, eram todos profissionais em ascensão: o cineasta estava pra lançar seu primeiro longa-metragem, o cronista-filósofo pra começar um mestrado, um dos administradores pra começar um MBA nos Estados Unidos, outro pra lançar novas tecnologias epidêmicas e o engenheiro, bem, estava pra continuar no emprego, o que pode ser considerado uma ascensão.
Várias das discussões idealismo vs. monetarismo que sobraram nessa virada de milênio foram levantadas: deixar ou não naufragar de vez as responsabilidades do Estado, hipotecar ou não a alma ao mercado etc. Imaginem vocês que o último filme do cineasta é, entre outras coisas, sobre o atropelo de um tipo idílico de pessoa, produção e paisagem pelo trator indiferente da tecnocracia - em suma, sobre um mundo romântico que não rola mais. Agora imaginem que um dos administradores foi responsável pelo lançamento de um celular que tira fotos e se conecta a blogs. Quando vi que os dois usavam os guardanapos pra desenhar e sustentar seus pontos de vista, e não pra jogarem um no olho do outro, imaginei o Bush e o Chávez tomando cerveja na mesma latinha.
É verdade que uma hora esse último administrador desenhou um saco com um cifrão, daqueles do Tio Patinhas, e começou a repetir “amigo, amigo” pro cineasta, a partir do que tivemos que reforçar os canecos. Outro desenho, esse o mais polêmico da noite (desse mesmo cara), foi sobre o ciclo de vendas de produtos bem-sucedidos. No começo, o consumo é baixo porque o preço é alto. À medida que o preço cai, o consumo dispara, fazendo uma curva equivalente à subida de um escorregador. Depois do auge comercial da coisa, as vendas desabam em linha reta, como se descessem a escada.
Até aí tudo bem, tudo muito bem ilustrado mas nada muito inusitado. As orelhas da mãe do desenhista esquentaram foi quando ele incluiu “qualquer produto cultural” nessa feijoada mercadológica. Que a cultura está tão sujeita aos humores do mercado quanto os sucrilhos e os sucos de caixinha, isso já se diz há 50 anos. O que não conseguíamos aceitar era o fato de o cara não admitir exceções. Afinal, uma coisa é um filme como “O clã das adagas voadoras”, cuja estratégia de lançamento é feita na base da adaga, mesmo. E outra é um filme sem grandes picos de público porém de vida longa nas locadoras e em festivais. Mas antes que o pau comesse, todos foram pra casa, prevalecendo não só aquele mote do Machado de Assis de que “quem troca pães fica com um pão, quem troca idéias fica com as duas”, como também a sensação de que certas idéias só podem ser trocadas nunca antes da quinta, mas também não depois da décima-oitava tulipa.
Titulo: Lá pela décima tulipa
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 12 de abril de 2005
Resumo: Dia desses, num boteco da Vila Madalena, uma discussão idealismo vs. monetarismo, se é que isso ainda faz algum sentido.
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legal, Thiago, parecem até figurinhas conhcidas… “o Bush e o Chávez tomando gelada na mesma latinha” ficou ótimo.