Crônica por Eduardo Socha
12 de julho de 2004
Você chega antes, compra o ingresso, entra na sala de cinema ainda vazia e escolhe a poltrona do meio, meio isolada nos fundos. Você aguardava ansiosamente a projeção daquele último Rohmer, Almodóvar, Godard, Tarantino, Didi, Xuxa, ou Shrek, tanto faz. Você acompanhou detalhes de produção do filme. A sala começa a encher, e você espera que todos os espectadores ali presentes partilhem da mesma expectativa e guardem um profundo silêncio, em sinal de reverência ao espetáculo prometido. O público até o momento parece bem comportado, tudo vai bem. Você fecha os olhos. O lanterninha fecha a cortina, o projetor irradia as primeiras luzes na tela. Felicidade.
O lanterninha reabre a cortina lá na frente, e você vê um casal entrando aos atropelos no escuro da sala, vindo na sua direção. Você começa a se contorcer na poltrona, diante da iminência de uma catástrofe. Duas poltronas vazias a seu lado. Um frio corre sua espinha, a respiração torna-se esbaforida, logo depois de você observar que cada um deles carrega um saco de pipoca king-size com extra-butter e refrigerante de 900 ml, que daria para alimentar o cinema inteiro durante três sessões. Eles continuam vindo para sua direção, nos fundos.
Você passa então a acreditar na divina providência e reza para que o destemido e atrasado casal encontre duas poltronas mais adiante. Ofegante e de olhos novamente fechados, apela a Tupã, Xangô, Buda, Alá, Fellini e Antonioni, num sincretismo religioso desesperado e original. Enquanto abre devagar os olhos para ver se a reza deu sorte, sente o olor irresistível da pipoca amanteigada e ouve o casal pedindo licença. Você grita “não, não pode ser, pelos deuses, tende piedade, ó samaritanos!”. “Como?! Ah, desculpa, esses lugares estão ocupados!?”, pergunta o rapaz meio retraído. O filme começa. Você tem ganas de responder “sim, facínora de pipocas”, mas uma falta de molejo naquela situação condiciona apenas um “não, não, fiquem à vontade…”
É o fim. Seu desespero colide com uma pesada resignação. Sua expectativa pela película é despachada subitamente pela pipoca alheia. Quinze minutos de filme, e o crec-crec somado ao ruído do saco de papel ainda detonam sua atenção, que fora cultivada durante dias para a ocasião. Godard no vídeo, pipocas no áudio e no olfato. Já era.
Pipoca e cinema não costumam dar certo em alguns filmes. Pipoca é assunto sério, tanto quanto cinema, mas essa combinação tende a produzir um grande terror para o cinéfilo. Pior são aqueles que devoram de boca escancarada, nhac-nhac, amplificando o crec-crec para toda sala em sistema dolby-surround. Nem adianta fazer cara de reprovação, pois aquele deflorador de pipocas não está nem aí para o cinema.
Bom, às vezes também ocorre de você ser o rapaz do casal, cujo propósito naquele momento não é exatamente o cinema e daí, pipocas. Por isso, você respeita o direito à pipoca no cinema, devido às recaídas. Mas você, pelo menos, come de boca fechada e, quando sente o olhar reprovador de algum cinéfilo, imobiliza no ato sua mandíbula, com indisfarçável vergonha. Só continua após alguns segundos, articulando bastante e planejando cada dentada. A isso, os cinéfilos chamam solidariedade de classe. Mas se você virar o tonel de refrigerante em goles de batráquio, e fizer barulhinho com o canudo no final, sua vida corre sério risco. A isso, os cinéfilos chamam legítima defesa.
Titulo: Legítima defesa no cinema
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 12 de julho de 2004
Resumo: Os cinéfilos e os defloradores de pipoca
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Hahaha. Excelente.