Longa sétima arte

Crônica por Eduardo Socha
29 de dezembro de 2003

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Minha Noite com Ela (1969)

Na tradução latina do primeiro aforismo de Hipócrates, ”ars longa vita brevis”. Na ordem pragmática do capital-hedonismo da propaganda de refrigerante, “a vida é curta; curta!” Aqueles que optaram pela curtição da sétima arte na vida breve deste ano, encontraram obras expressivas, realmente dignas de longevidade. Como último e sofrível texto do ano, resolvi penalizar o raro leitor com uma escolha de três filmes marcantes, surgidos na grande tela em 2003. Avesso que sou a doces de abóbora e listas de ranqueamento, não pretendo aqui ser taxativo; a escolha decorre apenas de um leviano momento em que me dispus a lembrar de películas que quebraram os olhos, talvez com o mesmo vigor do primeiro Meliès. De todo modo, ela não reflete nenhuma inspeção estética apurada, e deste peso me livro desde já ? “ainda bem”, dirão aliviados o leitor e eu.

Começo com a reestréia de Minha Noite com Ela (1969), de Eric Rohmer. Certo, reestréia não deveria contar, mas a cópia restaurada e a beleza supratemporal de Françoise Fabian enganam bem. Só o título meio pornô não deveria enganar o cinéfilo. Jean-Louis é um engenheiro católico, cuja crença se baseia no argumento da “aposta” de Pascal ? que não prova a existência divina, mas ao contrário parte exatamente da hipótese de que nunca se poderá saber se Deus existe ou não. Ancorado nesta noção probabilística (em que a pequena aposta num resultado improvável torna-se a melhor opção se o retorno for significativo), Jean-Louis constrói racionalmente seu edifício moral. Por exemplo, acredita com veemência que sua esposa será uma bela estudante que ele observou na missa, mesmo sem nunca ter se aproximado dela. Encontra um velho amigo, um professor de filosofia marxista que lhe convida para uma soirée na casa da médica liberal Maud (Françoise Fabian), e lá os três discutem afrancesadamente filosofia e religião. O professor deixa o apartamento, enquanto Jean-Louis e Maud permanecem discutindo, a neve caindo lá fora. A partir daí, a coisa esquenta. Maud, cada vez mais à vontade, vai demonstrando um viço de beleza que cristão nenhum resistiria. Jean-Louis chega a deitar na cama, de roupa, mas resiste pois para ele rejeitar o prazer fugaz de hoje trará um resultado mais prazeroso amanhã - mesmo sem conhecer a estudante da missa, ele já se sente comprometido e por isso não pode capitular. Penso que ali, ao lado da arquejante e nua Maud, Jean-Louis estaria praticando o maior ato de fé da humanidade. As cenas transmitem uma sensualidade quase irrespirável ? daí o título levemente pornô, quem sabe ? e paradoxalmente sutil. Rohmer, um dos mentores do cinema de autor e da Nouvelle Vague, descreve aqui um Don Juan às avessas e rompe com o convencionalismo das historietas de amor. Como resultado, o filme, fazendo parte da série “seis contos morais”, causa no espectador uma forte dependência de Rohmer. Até hoje, sem cura.

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Invasões Bárbaras (2003)

Minha segunda escolha é Nelson Freire (2003), de João Moreira Salles, documentário originalmente primoroso em sua estrutura, abordando uma temática obscura no cinema ? a persona do grande concertista, vista sob uma perspectiva não idealizada e ao mesmo tempo não invasora. Não me detenho mais sobre o filme, já que rabisquei anteriormente alguns comentários nesta patada. O que vale dizer é que se 2003 trouxe um desconforto nacional no plano político, no campo dos documentários pelo menos confirmou um admirável amadurecimento ? ver recentes Edifício Master, Ônibus 174, Paulinho da Viola, Janela da Alma, entre outros.

Encerro com Invasões Bárbaras (2003), do canadense Denys Arcand. Se o estimado leitor já viu este filme, interrompa a leitura. Pois não há nada mais frustrante do que ler uma resenha, parágrafo, comentário sobre as Invasões. Afinal, por mais eficiente que seja o resenhista, vai extrair apenas uma pálida impressão, um recorte modesto de toda a potencialidade do filme, o que pode remetê-lo à vala comum. Li algumas críticas, todas elogiosas, e sinto que nenhuma captura o autêntico fascínio para o qual este marco do cinema na década nos lança. Talvez minha opinião tenha sido distorcida por esperar pouco da narrativa, que na verdade é o apanágio mais insinuante da obra. Pegou de jeito. Não há preocupação com inovações formais, pirotecnias estéticas, orientações ideológicas, etc. Arcand deseja apenas dar seu testemunho da nossa época, usando os meios que estão aí, incitando a reflexão através de um código narrativo já conhecido, numa precisa dose de comédia (ótimas piadas) e de intensidade dramática. O ocaso das utopias, de todos os ?ismos e a prevalência da força avassaladora do capital são expostos num ambiente familiar: de um lado, o pai professor de história rabugento, ideologicamente falido e próximo da morte, e de outro o filho yuppie, operador do mercado financeiro internacional, plenamente adaptado à dinâmica das relações do novo mundo, mas emocionalmente falido. Arcand evita recados ideológicos, o único recado é que não há lado certo e errado. Deste conflito surge exatamente um retrato notável da ordem pós-moderna, em que o 11 setembro cria um ponto de elisão entre realidade e catarse ficcional. Filme singularmente belo, Invasões Bárbaras é uma destas surpresas que intercalam nosso sinuoso caminho.

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Nelson Freire (2003)

Pronto, completei minha lista (sempre parcial pois devia incluir também Adeus, Lênin; mas já tem muito caracter nesse texto) e concluí a última bagatela do ano. Agradeço todas as contribuições e críticas sempre valiosas aos meus rabiscos do ano, no site e fora dele. Faço uma pausa de 3 semanas, que é para recarregar a tinta e lembrar que a vida é curta. Um abraço e até breve!


Titulo: Longa sétima arte

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de dezembro de 2003

Resumo:

Comentários sobre três filmes do ano

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1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Retrospectiva bacana, gostei da lembrança (e das palavras) de “Invasões Bárbaras”.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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