Crônica por Eduardo Socha
25 de abril de 2005
Que me perdoem o lugar-comum vergonhoso, mas é impressionante como a gente permanece anestesiado e indiferente ao que se passa a nossa volta. Dia desses, hospedei uma amiga estrangeira, que muito pouco sabia do Brasil, a não ser que era a terra do ? maestro Zezinho, uma nota ? carnaval e futebol. Fomos dar um passeio pelo centro de São Paulo, e, pelas perguntas insistentes, percebi que ficou realmente interessada naquele tracejado urbano meio caótico, naquele feixe de prédios, avenidas e calçadas babélicas, coisas que chamariam a atenção de qualquer estrangeiro e que achamos normais.
Mas a curiosidade dela parecia bem maior quando me perguntava sobre aquelas figuras sociais do centro, figuras exóticas como o camelô, o animador de semáforo e o menino de rua. A alteridade ali me despertava do sono cotidiano e exigia esclarecimentos, e confesso que não consegui explicar como um camelô perto da praça do Patriarca aceitava cartão de crédito.
- Mas camelô não é comércio ilegal, como você mesmo disse?, ela me perguntava.
- É, mas o cara deu um jeito com alguém, conseguiu um esquema para aumentar a clientela, deu um quick fix, um way around, entende?
- Não.
- Well.
- E aquele moço ali do cartaz pendurado no corpo, gritando alto, o que está vendendo?
- Well, ele vende receita médica, para quem quiser arranjar uma dispensa no trabalho.
- Como assim? Isso não é ilegal?
- Que tal aquele café agora?
Outros vendedores desesperados a seu lado berravam “ótica, ótica!”, e eu explicava “he?s just shouting: optics, optics!”, na certeza de que ela compreenderia. Sinceramente, é um mundo muito estranho, e eu não me dava conta.
O problema é que a estrangeira não parava de perguntar coisas, desconfio até que por deboche. Ela dizia não entender, por exemplo, a presença de uma lombada perto do semáforo, nem de vendedores de alho ao lado da lanchonete. Mas nem depois dessa perdemos a amizade. Hoje em dia, até trocamos e-mail.
***
Difícil mesmo foi tentar explicar a figura social da criança de rua. Como se já fizesse parte do cenário urbano, às vezes perdemos a capacidade de nos espantar com tamanha atrocidade, protegidos que estamos talvez pelo consolidado cinismo de classe média.
Estudo da prefeitura de São Paulo verificou que uma criança na rua pedindo esmola ganha em média R$500 por mês, mais do que muito professor e muito cronista por aí (não que este último, ao contrário do primeiro, seja importante para o país). O resto já é bem conhecido: na “indústria da esmola”, as crianças são exploradas por familiares e agenciadas por grupos que tomam posse de um território (um semáforo, por exemplo), passando então a cobrar pedágios. Lembro que, ano passado, vi numa cidade catarinense um projeto interessante para acabar com o esquema, mas não sei se de fato foi implantado ou se era apenas bravata política.
Como o poder público permitiu a formação dessa escravização infantil quase declarada, transformando-a em lugar-comum nas grandes cidades, é uma coisa difícil de se compreender. De indiferenças e lugares-comuns vergonhosos, parece mesmo que estamos cheios.
Titulo: Lugar-comum
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 25 de abril de 2005
Resumo: Cenas estranhas para uma estrangeira
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