Crônica por Mário Neto
26 de junho de 2003
Dizem que todo mundo tem uma. Eu seria mais completo nessa frase e diria que "todo mundo tem pelo menos uma". Ah, as manias, quantas não temos, quantas não tentamos esconder, quantas não tentamos amenizar, e quantas não temos que dar explicações.
Gosto, por exemplo, de comer pizza fria pela manhã no dia seguinte. Não tem a menor graça esquentar a pizza. Não tem a menor graça comê-la quentinha. Claro que de noite a história é outra. Uma temperatura mediana, ou no máximo quente, dá pra comer com gosto. Mas pela manhã não. O gostoso é pegar a pizza do jeitinho que foi deixada ? na geladeira, claro ? e meter uma mordida, com ela meio durinha mesmo. Há quem diga que a pizza fria pela manhã não é mais mania individual e já está virando mania coletiva. Mas é uma mania, de qualquer forma.
A temperatura ideal da comida já deu muita discussão em casa. Minha mãe e avó são adeptas da comida em temperaturas que chamo de "pelando". O arroz, o feijão, qualquer coisinha tem que estar pelando. Isso é um assassinato à comida. Isso sim é uma mania esquisita. Vai ver é mania de mulher. Por que mulher tem mania de querer sempre comida quente? Tem alguma coisa a ver com menstruação? Com ter dentes mais fracos? (Já estou até vendo a fúria nessa minha afirmação.)
Mas é fato: a comida pelando me inibe de comer. A língua não foi feita pra comer coisa muito quente. Não é natural. É mania de gente moderna. (Que provocação!) Já perdi a conta de quantas vezes queimei a boca. Dizem que quem tem pressa come cru. É um ditado com certeza inventado por uma mulher. É, na verdade, uma desculpa para legitimar o fato da comida estar pelando, do jeito que elas gostam. Está aí o kibe pra provar o contrário. (Continuo com minha provocação!)
A mania de comer a pizza pela manhã eu não escondo. Até acho algo charmoso, algo meio selvagem. "Sim, minha flor, eu como a pizza geladézima. Viu como tenho dentes fortes? Viu como sou durão?" Mas tenho outra mania que prefiro esconder. Esconder o resultado, não o fato.
Vou confessar: eu como unha. Mulheres, calma, não façam "blargh". A palavra "comer" é mal utilizada, pelo menos no meu caso. Uso os dentes para cortar a unha? Sim. Fico brincando com a unha na boca? Sim ? essa foi mais difícil confessar. Engulo a unha? Não. Portanto, tecnicamente, não como unha. Eu mastigo unha, brinco com minha unha, mas não a engulo.
Sei que não faz a menor diferença. "Ah, já colocou na boca mesmo, cheia de germes, bichinhos, sujeiras, ai!" Eu concordo. Até esteticamente as unhas roídas ? prefiro usar essa palavra "roer", apesar do risco de me chamarem de rato ? atrapalham e podem ter seu lado ruim. Só que é uma mania: prometo que não vou relar nelas, prometo que vão crescer e até coçar gostosamente, mas basta um cochilo e lá se foram elas, raptadas de meus dedos.
Os psicólogos que estão lendo tentarão explicar: ele é ansioso ? sim, sou ?, ele ainda não passou da fase oral ? essa é bem curiosa, mas não vou me meter a falar besteira ?, etc. Seja lá o que for, não deixa de ser uma mania ? alguém tentará dizer "um vício", e provavelmente esta pessoa será uma fumante. Mas pelo menos, assim como a mania da pizza fria, não estou sozinho. Outros milhões são roedores de unha. Outros milhões comem bichinhos saborosos na unha ? eu como bichinhos minúsculos, enquanto todo mundo come bichões que sangram, mugem e cacarejam.
Está bem, nessa eu apelei. Mas quer saber? Aquele que nunca teve uma mania que jogue a primeira pedra ? e se ligue, pois jogar pedra é outra mania, muito mais perigosa que comer uma reles unha.
Titulo: Manias
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 26 de junho de 2003
Resumo: Tenho que confessar: sou um maníaco.
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Adoro comida quente, ams não pode ser “requentada” no microondas… tem que ser do fogão mesmo!Muito legal o texto! Leve e divertido!!!