Crônica por Thiago Mom
7 de fevereiro de 2006
158 pessoas. A vista ia de uma ponta à outra da ilha, da praia do Santinho à de Naufragados. A cidade e o céu noturno refletiam no Atlântico. A ponte Hercílio Luz também. O canto da sala improvisado como palco, a cozinha como coffe shop holandês e os arbustos do terreno como avenida moteleira. E foi nessa festa que Paula ? vamos chamar de Paula ? estava na janela de um quarto procurando o quarto dela entre as luzes brancas e amarelas. Convidei pro mezanino, aceitou. Não achamos a chave. Cogitamos uma barricada com uma máquina de supino, mas 60 quilos de anilhas dificultavam a coisa. Deixamos pra lá. Subimos.
No ensaio “Metafísica do amor”, publicado em 1844, Schopenhauer combate as distinções entre o que convencionamos chamar de amor e de sexo. Usando sempre o termo “amor sexual”, o filósofo sustenta que todo ato de se apaixonar “enraíza-se unicamente no impulso sexual”, sendo apenas “um impulso sexual mais determinado, mais bem especializado e mais bem individualizado”. Agimos impelidos por uma “vontade da espécie” em ser melhorada, e nos apaixonamos pelas pessoas que, aparentemente, nos darão os melhores filhos. Ele diz isso porque não estava naquele mezanino em Florianópolis, em 1996.
Amor e sexo eram coisas completamente diferentes, opostas até. Disso eu tive certeza porque Mariana ? vamos chamar de Mariana ? entrou no quarto com o namorado e começou a dispensar o cara. Isso no andar de baixo, no escuro. Eu gostava dela e torcia pelo fim daquele namoro há mais de um ano, só que foi a coisa mais antiafrodisíaca que já ouvi. Eu a poucas combinações de destravar um cofre e extravasar os tais impulsos sexuais lá em cima e Mariana ali embaixo… Não dava: a pessoa que você ama insone e insanamente ficando solteira no mesmo quarto em que você está deitado com a melhor amiga dela é uma experiência dificilmente contornável aos 16 anos.
Segunda-feira ela apareceu na aula solteira e eu rotulado como “o cara que levou a melhor amiga pro mezanino”. O tempo mitigou esse perrengue e nos meses seguintes até ficamos algumas vezes, duas delas candidatas a um possível ranking de 100 melhores momentos. Mas depois ela não quis mais e namorou um primo e um amigo meu, sendo que com o amigo ela se revelou uma Silvia Saint da pornografia privada. E semana retrasada Mariana ? com certeza, vamos continuar chamando de Mariana ? deu em cima de um conhecido, no caso porque os dois moram em Barcelona e ele tem um visto permanente. Mais uma notícia candidata a um possível ranking de 100 piores epílogos.
Titulo: Metafísica de mezanino
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 7 de fevereiro de 2006
Resumo: Da série ?chapuletadas femininas? (2)
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Como citaste meu mentor, mancebo, esbofeteio-te com meu poema-pilhéria-verdade: “Temos a arte para que a verdade não nos destrua.”