Meu dedão já foi estrela

Crônica por Mário Neto
29 de outubro de 2003

Deitado na cama, aguardando que o sono viesse me levar, eu olhava para o dedão do meu pé direito. Ao invés de esperar o sono com os olhos fechados, como fazem pessoas normais, meus olhos estavam fixos no dedão, observando-o mexer de um lado para o outro, cruzando com o dedo vizinho, produzindo leves estalos e sentindo leves cócegas.

Isso me fez lembrar de um bebê, que brinca com seus sentidos e com as ações que realiza, atento às mudanças e ao seu redor, na tentativa de compreender seu ambiente. Naquela noite eu parecia um bebê, pois tentava compreender como aquele dedo fora parar ali, tentando compreender como aquele dedo fora surgir do ambiente que hoje eu conheço um pouco mais do que quando criança.

Imaginei se naquele dedo, formado por conglomerados de células*, não haveria átomos de carbono que um dia foram de tiranossauros, elefantes ou de uma banana. Talvez meu dedo também tenha átomos que tenham sido de Napoleão, Moisés ou até Cristo, por que não? (parte da minha família vem lá do Oriente Médio…)

Seguindo o fluxo da história, fiquei imaginando como é que um átomo de carbono, que constituiu de algum forma um desses seres e que hoje está comigo, ali no dedão do meu pé, foi um dia surgir aqui no nosso planeta Terra. Diz uma das teorias que algumas condições foram propícias para o surgimento das primeiras células, ainda muito primitivas, a partir do carbono e de outros átomos já existentes aqui na Terra.

Como é então que o átomo de carbono foi aparecer por aqui, neste planeta tão pequeno? Não consegui a resposta naquela noite, pois o sono me levou para bem longe. Além disso, também não era muito simples…

Mas enfim ela apareceu. Saiu no jornal a explicação de um físico dizendo que os elementos (átomos) que constituem hoje os planetas e astros celestes foram originados por explosões de estrelas, explosões resultantes de altíssimas concentrações de energia presentes em pouquíssimo espaço. Essas explosões espalhavam (e espalham, pois estrelas continuam a explodir) átomos para todas as direções, enriquecendo o Universo com os mais diferentes elementos. E ele concluiu dizendo: somos poeira das estrelas.

Tá aí. Meu dedão já foi uma estrela… e eu sabia desde o início.

* As células, a grosso modo, nada mais são do que conjuntos organizados de móleculas orgânicas. Para quem não lembra, todas as móleculas orgânicas possuem em sua constituição átomos de carbono.

Mário de Souza Neto não diz que é uma estrela pois não quer ser confundido com os tais astros do cinema e da TV. Mas, como eles, já teve partes de seu corpo viajando no espaço.


Titulo: Meu dedão já foi estrela

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de outubro de 2003

Resumo:

Divagações para uma noite de pouco sono.

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3 Comentários

  1. Mafalda disse:

    Vc viaja!!!!Parabéns!!!Feliz daquele que consegue viajar às estrelas a partir do próprio dedão!

  2. PH disse:

    Pôxa, Mário. Já tinha lido este texto. Demais! Lúdico, exato, completo! Parabéns!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Bacana publicar este texto por aqui, Mário. Divagação “das fortes” no melhor dos estilos, muito bom.

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