Crônica por Márcio Sampa
28 de abril de 2003

Rua Manoel de Freitas, número 71. O ano é 1982. A casa é a do Fernando “português”. Sempre íamos lá para brincar de autorama, jogar botão e algumas vezes brincar de Forte Apache. Mas aquele dia seria diferente. Estávamos lá para ver minha primeira Copa do Mundo.
Na verdade era a quarta, mas das outras me lembrava vagamente ou de absolutamente nada. Segundo minha mãe, comecei a andar em 70 graças ao susto que levei com o grito de gol que meu pai deu, no jogo Brasil e Uruguai. De 74, lembrava-me vagamente de dias frios e de um tal de Zagalo, chamado pejorativamente por meu avô de Zé Galo. Parece que o culpado por aquela sensação de tristeza lá em casa era ele. De 78, me lembrava de mais detalhes, daqueles incompreensíveis gramados argentinos sujos e da festa que eles fizeram no meio daqueles milhares de pedaços de papel, que pareciam brotar do chão. Aliás, fiquei com a impressão de que a Holanda perdera porque não soube jogar naquele gramado imundo…
Em 82 a coisa era diferente. Eu tinha 13 anos e sempre voltava correndo da escola pra casa pra ver os jogos da tarde. Fora o do Brasil, o grupo que mais me interessava era o da Itália. Era um grupo embolado e todos os jogos terminavam empatados. A poderosa Itália quase perdeu a vaga para Camarões, mas por um desses incompreensíveis milagres do futebol acabaria se classificando.

Esta mesma Itália era o adversário do Brasil naquele dia 05 de julho. Ia ser barbada. Nosso time já tinha eliminado a Argentina de um tal de Maradona, que nem viu a cor da bola. Era só ganhar da Itália e estaríamos a dois passos de ver o Brasil campeão. Seria o tetra. Seríamos tetras, mesmo gritando campeão pela primeira vez.
O pai do Fernando, seu Francisco, corria diligente entre a cozinha e a garagem, que havia virado um pequeno estádio improvisado. Ele trazia as pipocas, que devorávamos sofregamente, à espera do jogo.
Hora do hino. Lá estava o time brasileiro: Waldir Peres, Oscar, Luisinho, Júnior, Leandro, Toninho Cerezo, Falcão, Zico, Sócrates, Serginho e Éder. O técnico era o Telê. O jogo começa e continuamos a devorar as pipocas, regadas por um gostoso guaraná. De repente um tal de Paolo Rossi pega a bola e… gol, gol da Itália. O ambiente fica tenso, alguma coisa não ia bem. O Zico mostra a camisa rasgada pro juiz, que nem liga. Os italianos estão marcando muito. O Brasil não está jogando aquele futebol. O tal do Serginho nem encostou na bola, mas o Brasil empatou. Gol, gol, gol! Empatamos! Agora vai ser diferente. Mas, não, a Itália fez outro gol. Definitivamente tem alguma coisa errada no ar. Depois do intervalo vamos mostrar quem é que manda aqui.

Seu Francisco traz mais pipocas. “Calma que o Brasil vai virar”, tranqüiliza. É, vai virar, mas as pipocas já não descem no mesmo clima de festa. Parece que o Telê deveria ter vindo com outra formação pro jogo, dizem os comentaristas. Mas o time é bom e tem todas as condições de virar, vai virar…
Segundo tempo, conseguimos empatar. Mas tem alguma coisa estranha no ar. As pipocas são pegas já sem tanta paixão. O jogo está esquisito. Este empate já nos coloca nas semi-finais. Mas cuidado com o Paolo Rossi, cuidado com o Paolo Rossi! Ele recebeu a bola na frente. Se livrou da marcação. Chutou pro gol. Sumiu no meio de tantos jogadores de camisa azul que o abraçam. A vontade é de chorar. O que é que tá acontecendo? Vai Brasil, só um golzinho. O Zoffi pegou uma bola incrível! Não dá tempo pra mais nada. Não acredito no que vejo. Tudo parece muito sem sentido. Meu, quem é esse Paolo Rossi?! Ele acabou com a nossa festa! Aquele mundo de pipoca vai ficar ali, esfriando. Acho que saí da casa do Fernando sem dizer tchau. Acho que nem terminei o guaraná. O depois sumiu da memória. Só me lembro de uma inexplicável sensação de tristeza coletiva. Minha primeira Copa do Mundo terminou com uma terrível e indescritível sensação de fracasso…
Titulo: Minha primeira Copa do Mundo
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Crônica
Data de publicação: 28 de abril de 2003
Resumo: Existem dias em nossas vidas que são inesquecíveis. Para milhões de brasileiros, o dia 05 de julho de 1982 é um destes.
Muito, muito bom! Mesmo sendo muito, muito muleque pra lembrar alguma coisa de 82, ler seu texto revigora uma velha nostalgia verde-amarela, ainda que as lembranças sejam poucas ou tristes…Texto sincero, singelo, belíssimo!
Porra, Sampa… quase chorei no final do texto. Triste fim da seleçao canarinho. Fracasso romântico, doído. Ontem mesmo eu vi o VT da defesa do Zoffi, que catou aquela cabeçada inacreditável do Sócrates (foi ele mesmo?). Dá pena de ver o desespero dos canarinhos querendo comemorar, mas não, a bola não entrou! A minha primeira Copa foi a de 86 (outra tristeza…), mas toda vez que eu vejo os lances de 82 sinto aquele nó na garganta que fui poupado na época por causa da minha pouca idade, mas que todos os brasileiros sentiram e sentem até hoje. Ótima crônica!
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Lembro bem daquela tarde de 1978 (somos um pouco mais velhos que os demais da lista, não?) em que brincávamos no jardim de fora de sua casa e a Argentina ganhava o título mundial na sala. Seu irmão não perdia um lance, entre puto e invejoso, como todos nós (nós dois só algum tempo depois, na verdade). Em 82 houve algo como um choque de realidade: não ganharemos sempre, mesmo quando todos dizem que isso acontecerá. Foi, sem dúvida, uma lição de vida…Forte abraço.