Crônica por Eduardo Socha
5 de julho de 2004

Duke Ellington costumava dizer que havia apenas dois tipos de música no mundo; a boa e a do outro tipo. De fato, todas as classificações em gêneros tendem a omitir a verdade estritamente musical.
Rótulos originam guetos, delimitações dentro das quais se formam comunidades que chegam a rejeitar outras, não por antipatia estética, mas por antipatia ideológica e comportamental. Os que gostam de rock detestam pagode mais pelos pagodeiros do que pela composição. Há críticos sérios que abominam a música de Tom Jobim por associá-la à expressão pequeno-burguesa e alienada da classe média carioca, às vezes ignorando por completo o fato musical da obra. Bem verdade que toda peça artística possui um núcleo sócio-histórico, até mesmo, digamos, a do Tiririca e da Kelly Key. Mas nem por isso a totalidade da riqueza dos sons deve submissão a ideologias.
Quanto à boa música, a coisa complica ainda mais naquela questionável divisão entre música popular e “clássica” (ou “não-popular”, ou “erudita” ? esta palavra pegajosa). A crítica tem viva necessidade de enquadrar um determinado compositor em categorias e, quando falha, o compositor acaba pagando o pato da incompreensão. Dois casos ilustram essa miopia ocasional da crítica: Nino Rota e o próprio Tom Jobim.
Nino Rota foi quem deu a identidade melódica e realizou o design sonoro dos filmes de Fellini. Criaram juntos um complexo audiovisual delirante e inovador, único na história do cinema. Rota também escreveu trilhas sonoras para outros filmes da indústria, incluindo O Poderoso Chefão. Difícil não imaginar a figura de Dom Marlon Brando Corleone ou mesmo as sequências de Amarcord sem aquele fio condutor melódico escrito por Rota. No início, produzia trilhas para driblar problemas financeiros. Mas essa glorificação das trilhas acabou prejudicando suas peças ditas “sérias” (peças sinfônicas ou de câmara, independentes de filmes), ignoradas pela crítica especializada que o achava um compositor simples e antiquado. Como se quisessem, afinal, dar um castigo pelo seu êxito nos filmes.
Com Jobim, basta substituir “trilhas” por “bossa-nova” e o caso é parecido. Músico de sólida formação clássica, Jobim enveredou para a música popular por questões de mercado (buraco no bolso) e porque não se animou com a vanguarda da música “erudita” (bhhrrrrr). Ainda assim, seus cadernos pessoais revelam que sempre pensava musicalmente em termos clássicos, nas harmonias de Debussy, Villa-Lobos e Radamés Gnatalli. O CD/DVD Jobim Sinfônico, lançado no ano passado, reafirma sua preocupação orquestral, tão ou mais importante do que a fase bossa-nova. Apesar disso, o rótulo de criador da Garota de Ipanema continua a obscurecer, também em função da indiferença crítica, parte importante da sua produção.
Em música, gênero é sempre problemático, seja em relação ao compositor ou à composição. Pois como catalogar um CD de Astor Piazzola, ou de Egberto Gismonti? Nem jazz, nem clássico. Quanto à composição, há realmente bossa-nova, por exemplo, na variação que se chama “Bossa Nova” do grande compositor catarinense Edino Krieger? Sim e não. Enfim, gênero por gênero, aquela distinção da música entre a boa e a do outro tipo ainda permanece a mais acertada.
Titulo: Música boa e a do outro tipo
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 5 de julho de 2004
Resumo: Há apenas dois tipos de música no mundo
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Mais uma vez, bela abordagem… e num tom muito adequado. Tem andado com os dedos bens afinados.