Nos bastidores do esporte

Crônica por Mário Neto
9 de março de 2005

O mundo do esporte é um mundo de muito glamour e fama. Campeões, medalhas, acirradas disputas, louros ? aquelas folhinhas ridículas que colocam na cabeça ?, treinos, dedicação, sangue, suor e lágrimas, "o importante é competir", torcedores ? alguns muito fanáticos ?, etc. Mesmo quando praticado em regiões inóspitas e por pessoas completamente desconhecidas, ainda mantém seu charme e apelo. Quem, com uma bola na mão ou no pé, com a raquete na mão, com o corpo n?água, não fantasiou (pelo menos uma vez na vida) ser um grande campeão, carregado e aclamado pela massa, mesmo em um emocionante campeonato de xadrez? Há muitos candidatos a heróis nacionais no esporte, e a concorrência é bem acirrada.

Porém, para quem vive e pratica o esporte, principalmente aqueles nobres atletas de fim de semana, é fácil perceber que o glamour e a fama são um pouco diferentes do que a imaginação constrói. Veja o que um atleta tem que enfrentar e suportar para chegar ao topo, ser carregado, afamado, ganhar uma capa de revista, casar com uma mulher deliciosa em um castelo de nome besta e falar besteira para todo mundo bater palma. Ser atleta não é fácil.

O tapinha na bunda

Quem é atleta sabe como é: ou já experimentou, ou já deu, ou já viu. É um profundo mistério, mas é a pura verdade. Apesar de não ser algo que acontece a todo momento, como uma tradição, ele existe sim. E um atleta de verdade tem que estar preparado para isso.

O tapinha pode acontecer em várias situações, mas tem em comum, como regra geral, um esforço do atleta em realizar certa proeza. Uma bola vai sair pela lateral, o atleta corre, puxa a bola ? com pé ou mão, no futebol ou no basquete ?, mas ela sai. Oras, valeu o esforço e… lá vem o tapinha do companheiro, ligeiro, de baixo pra cima. A velocista se esmera para quebrar seu recorde, mas não consegue. Aí vem o técnico e… lá vem o tapinha, incentivador. Últimos minutos de jogo, o armador bate bola, vira… dois, um… ele arremessa e faz a cesta. Todos correm na direção dele, pulam, e lá no meio, escondido… vem o tapinha, até meio violento, alegre, vibrante. O tapinha é a sensação dos esportes coletivos, e ai de quem dizer o contrário. Você que é atleta não tenha vergonha: assuma.

A cueca ou a calcinha no rego

Talvez este seja um problema mais freqüente para atletas masculinos, mas também há mulheres que não suportam. Você está lá, no meio do jogo, e aí a cueca (ou a calcinha, para as ladies) começa a incomodar. Ela está no rego e, para piorar, bem presa, já que o elástico tem que ser firme para que a prática esportiva seja segura. Não adianta mexer a perna ou fazer rápidos e bruscos movimentos com o quadril. Ela simplesmente insiste em ficar ali. Não há outra saída que não usar a própria mão.

Se não houver torcida, sem problemas. O atleta solitário pode facilmente usar as mãos não só para retirar o incômodo do rego, como também ajeitar o resto numa boa. Já o atleta coletivo e cobiçado tem que ser sutil. Pode haver namorada, mãe, primos, cunhados, vizinhos, professores, chefes, técnicos, etc. Para as mulheres, então, tirar a calcinha do rego é risco de capa de revista ou motivo de e-mails na Internet. Os fotógrafos esportivos são treinados especificamente para capturarem cenas desse tipo e parecem ter desenvolvido um sexto sentido para detectar o momento exato em que isso vai acontecer. Afinal, é um movimento deveras sensual: o dedo desce, acompanha a perna, depois a popa, puxa o elástico, solta, e fim do incômodo. Mas vai ver há também quem goste.

Vestiários com cheiro de jaula

Parte fundamental da formação de qualquer atleta campeão é desenvolver a capacidade de se preparar para um evento esportivo dentro de um vestiário com cheiro de jaula ? e olha que há jaulas de alguns bichos que são mais cheirosas. 99% dos vestiários têm cheiro desse tipo ou similar. Claro que em qualquer esporte há uma intensa liberação de fluídos, mas os vestiários têm tudo menos cheiro de suor. E não há discriminação, pois o cheiro é praticamente o mesmo em clubes elegantes e ginásios poli-esportivos populares.

Não sei se há explicações. Talvez a prática esportiva intensifique os odores de certos fluídos. Talvez os atletas tenham algum problema renal. Talvez os desinfetantes para esse tipo de local tenham cheiros esquisitos. É mais outro mistério.

Você que é atleta sabe bem e deve ter concordado com a cabeça.

Competir o tempo todo

Parece contraditório, mas esse é um dos aspectos chatos que o atleta tem que enfrentar sempre, que é competir. Ficar o tempo todo se comparando ao adversário: quem é o mais veloz, o mais ágil, o mais forte, o mais técnico, o mais inteligente, o mais esperto, o mais malandro, o mais cínico, o mais plástico, o mais bonito, o mais violento, etc. Até nas caminhadas de fim de semana há quem faça competições secretas com os outros caminhantes para ver quem vai, volta e chega primeiro ali no poste da frente.

Em esportes coletivos, então, a comparação é entre equipes e aí há aqueles que competem com os próprios colegas do time. Sem contar os que dizem competir consigo mesmos, tentando ultrapassar "os próprios limites": estourar o tendão, arrebentar as costas, destroçar o punho, tudo isso sozinho e apenas para mostrar a si mesmo que pode fazer algo, depois algo e mais um pouco, depois algo com muito mais do que pouco, etc. Parece mesmo muito romântico testar os próprios limites sem ninguém ficar sabendo. Alguém conhece? Vai ver há atletas que se escondem muito bem.

Esporte não é só competição. O jogo de frescobol que o diga. Felizmente há o esporte profissional, o amador e o… hum, sei lá, o popular. Fico com o último.

Mário de Souza Neto é zagueiro cabeceador, basqueteiro rebotista, enxadrista defensivo, voleiro levantador de meia-tigela e ciclista nato. Como já disse outra vez, faz cem metros rasos em menos de vinte segundos e não se gaba disso.


Titulo: Nos bastidores do esporte

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 9 de março de 2005

Resumo:

O mundo do esporte é cheio de glamour e fama. Mas o verdadeiro atleta sabe bem o que tem que enfrentar.

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1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    ótimo, Mário, prosa fácil e leve, engraçada e bem sacada, seus textos estavam fazendo falta por aqui.

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Quem é Mário Neto?

Um (eterno) aprendiz.

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