O cão suicida

Crônica por Marco Giannelli
26 de março de 2003

Não era mais o rafeiro corredor. Seus passos trôpegos maceravam o esterco que o chão acumulara e que seria, em parcos milhões de anos, poeira da civilização presente e fértil combustível para as guerras pestilentas que o ouro negro por certo desencadearia. Causava espécie a moléstia que se abatera sobre o espírito canídeo, se é cabível atribuir-lhes espírito, o que aos olhos da ciência, parece dubitoso que se atribua tão disputada iguaria entre os pares de Prometeu, aos irmãos menores da humanidade, sempre relegados ao questionável papel de melhores amigos do homem…

Se nome tivera, agora era joio em seu evangelho. Seu corpo bragado todavia abrigava as impenitentes pulgas que a espécie tão bem acolhera havia séculos e com quem compartia o deleite e o ardimento de uma boa coçadela. Campeava o fim do mundo, como se ao cachorro fosse dado encontrá-lo. Quisera o homem pudesse dispô-lo e já bem teríamos arrivado naquelas paragens, mas cedo aprendemos que o mundo não tem fim, e que se algum fim existe, ainda não foi de todo aventado pelo homem, podemos tampouco dizer que nós é que somos finitos e se ao homem já era sabido que tínhamos então um começo, meio e fim, ao cão se cortinava até o momento, tal ciência. E habituado à infinitude de suas pegadas, sempre pressagiando as do homem, o cão descobrira talvez que os dedos de suas patas, sujas e puídas, não poderiam ser gravados mais que por uma geração.

O rebentar da pequenez e a descoberta da finitude são momentos difíceis porquanto áridos: o cão estremunhara e soubera que seu fim sem aviso prévio poderia se instaurar naquele momento mesmo, sem aviso prévio nem procrastinações típicas das vicissitudes humanas. Ao morrer se morre e a morte não tem bolsa amniótica nem membrana fetal: é morte sem um segundo de vida. Sem perdão possível, que aos cães nunca foi reconhecida a misericórdia nem o sacramento que aos homens mondava os pecados e toldava suas faltas. Sem cerimônias, que de cães não conhecemos etiqueta nem mesuras, maneirismos tão frequentes entre os primatas que até de manuais nos informamos a respeito.

O cão balsava mas não como de costume. Seu bramado taciturno expunha notas dolentes. Seus olhos complacentes sideravam os transeuntes, enquanto estes, ignaros do mal-estar que o animal experimentava, ainda lhe afagavam os pêlos, inscientes como já se disse, da turbação do mamífero errante. E as populações caminhavam e as pessoas acorriam e os indivíduos, tresloucados, passejavam indiferentes à angústia do vertebrado.

O cão parecia o mesmo a quem, desatento, o olhasse, mas seus pêlos já não tão hirtos nem tão hirsutos, aproveitando que não há palavras sinônimas e se elas existissem, poderíamos dizer que o cão era morto, ou morrebundo, melhor moribundo, morrente, morrediço, socornado e pronto! E os caninos que infestavam a boca do cachorro não detinham mais a mesma compostura. Antes ávidos para lacerar a carne e vituperar a comida que se lhe dava, agora mórbidos e lassos de uma vida devotada a um objetivo incompossível. E valha-nos Deus, que entre homens é permitida a credulidade, mas entre os cães, o que fazer? Este cão bem que merecia as delícias do paraíso mas não há notícias de quadrúpedes no reino celeste, exceto quando pensamos no lobo e cordeiro que pastarão juntos, mas não há menção a cães, justo eles, tão cautos e seráficos, tão atentos e despegados, tão delicados que quantas vezes não foram os preceptores do homem nas artes eróticas. Puxa, que falta farão se o céu resolver existir!

E o cão caminha com sua tez merencória e lívida, que uma vez ao menos ele teve a decência de evitar os espetáculos da micção em público e nem por isso foi tido mais em conta por aqueles que o sobrestavam. O cão caminha mas parece que não tem sob suas patas, mais que fendas que se abrem e o engolem para o infinito telúrico que nem nós nem outras espécies desafiaram abrir. E enquanto caminha indene, tresmalha aqueles que o abalroam. São homens, na maioria, à exceção de outros cães, que incultos e sem saber que futuro os aguarda, ainda se prestam a parolagens e encenações que muito agradam aos tutores e mais ainda aos sórdidos. Por ele passa um zangaralhão, uma prostituta, um homem que é apenas homem e de quem jamais teremos notícias, senão a de que infestou esse planeta terra com o sêmen que aspergia, mas sem copular nem tampouco fecundar. Passam negros e alguns pretos e o cão já não lhes tem paciência, mesmo se a adulação sempre foi um valhacouto para os espécimes caninos. Agora os tempos são outros e o cão sabe porque a porta do inferno era guardada por Cérbero e os canídeos nunca puderam alçar-se sobre duas patas, que talvez se convertessem a seguir, em pernas e quiçá em próteses.

E o cão que antes pagava o imposto da submissão, agora está em ardimento com o que lhe invade o peito e nem os afagos do patrão, que mesmo chamado dono sempre foi mais afeito ao patronato que ao donadio, poderá suavizar a situação. É tarde e mesmo sem o poder da vedoria, os homens ainda a mantém secreta e críptica, o cão sabe que não tem mais rédea nem coleira que o controle. Se há uma senda, ela se pronunciou tarde demais e o cão se sente como um manumisso e no reino animal a alforria nunca caiu bem, que animais foram feitos para a escravidão perpétua ou para a extinção gênica, sinto muito. Caminha mas não dá um passo além. Olha mas não vê nada. Mastiga e é pura força do hábito, nem tem mais restos de comida na cavidade que lhe serviu de boca mas nunca de fala.

Dizer que é exagero, é f'ácil, cá estamos nós, qual nume numa das histórias que a humanidade celebrizou, a medir a extensão do medo e do receio sem levar em conta o que um cão sabe de medo e de receio. Podemos dizer à surriada tantas e quantas palavras boas sobre a vida dos cães e dos ínferos porque passam, afinal os animais nem alma têm, e o sofrimento é um presente divino, daquele deus que nos premiou com o pensamento que é azorrague e a alma que é açoite e o sentimento que é um tagante com pontas de ferro, mas isso que é bom no ser humano parece não sê-lo para o cachorro.

O cão nem escuta, faz ouvidos moucos, tem facilidade nisso desde quando copulava com os berros das crianças ao derredor e nem por isso justificava uma falta de ereção, ao revés, sempre com bastos humores e renitentes fluxos sanguíneos, com o penhor do priapismo e a lembrança dos bestiários. E o cão então anda, faz sinal de que quer parar e pára. Tem preguiça de coçar o peito, que isso exigirá por demais contorcionismo, e sente que já fraquejam as duas pernas da frente, que as de trás levam mais tempo para perceber o perigo. Arrebita o cenho e faz morrer as orelhas. Arqueia a mandíbula. Dá ao ventre uma contração infrene. Súcubo, e sem temer o demônio, descobre quão saborosas eram as tetas da mãe cachorra, que ninguém se dá ao respeito de tê-la por cadela, não será na morte que iremos deixar de tuteá-la. Não faz por maldade, nem por desídia. Queria apenas ter o direito de ser cão por mais um dia sem o dissabor de ser ciente. Como é dorida a sabedoria. E ele fareja, se amoita, se arruma e cancela sua vida.


Titulo: O cão suicida

Autor: Marco Giannelli

Gênero: Crônica

Data de publicação: 26 de março de 2003

Resumo:

Desventura do cão que faz o trajeto da vida à morte com a consciência de um homem

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1 Comentário

  1. Leo Pataca disse:

    Palavras díficeis, texto longo que pede mais clareza. Não terminei de ler…

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Quem é Marco Giannelli?

Brasileiro de cosmorama, celibatário mas com os pulmões cheios de desejo, latitudinário e sem qualquer razão para ser franco. Mente mas procura ser verdadeiro.

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