O casamento do meu pai

Crônica por Paulo Henrique
29 de abril de 2003

Não é todo dia que seu pai se casa. O meu, por exemplo, só se casou uma vez - até esta semana.

A primeira união do meu pai foi com a minha mãe, em 1976. Deve ter sido uma festa bonita, lá no interior de MG. Amigos, pais, juventude, fusca e liberdade. Bênçãos.

Aí o tempo passou e eu, que até então era um sonho, me tornei real e deu no que deu. Anos depois, outra realidade se confirma: meu irmão caçula veio para me fazer companhia.

Foi esta plena realidade familiar que floresceu com aquela união. Mas, como todas as realidades, esta também foi difícil.

O primeiro casamento do meu pai se rompeu com a morte abrupta da minha mãe, coisa que eu não quero e não vou falar aqui. Aliás, nem sei se um dia terei coragem para desenvolver este assunto. Mas o que o padre falou lá no altar foi confirmado: "até que a morte vos separe".

Passaram-se 8 anos desta triste separação e estamos aqui, agora, diante do segundo casamento do meu pai.

Voltamos ao ponto inicial do texto: não é todo dia que um pai se casa, mas o meu vai se casar nesta semana. É claro que, como filho, eu estou visivelmente perturbado. Talvez transtornado. Não, não exageremos. Apenas passado.

Não é tristeza, nem desaprovação. É simplesmente a perplexidade diante das veredas pelas quais Deus encaminha nossas vidas.

Me lembro que meu pai tinha uma resposta forte, quando as pessoas começaram a questioná-lo acerca de um novo casamento: "só vou casar quando meus filhos estiverem na faculdade".

Isto foi há quase uma década, quando meu irmão tinha apenas 9 anos… promessa no mínimo ousada. Agora meu irmão já entrou na faculdade e eu, que já sou veteraníssimo, estou prá lá do diploma.

Ou seja, além de cuidar muito bem da gente, meu pai cumpriu sua palavra. Esperou que a gente ficasse grande para depois cuidar de seus assuntos. Nos criou com as mesmas diretrizes maternas, manteve os valores familiares intactos, preservou nossa integridade. Hoje estamos aqui, felizes, fortes e realizados. Agora chegou a vez dele.

Mesmo perplexo, estou satisfeito com tudo isto. Sei que ele será bem cuidado, num lugar calmo, inaugurando uma nova fase de tranqüilidade na sua vida. É claro que eu nunca me envolvi nestes assuntos de pai viúvo, mas agora não tem volta. Já estou literalmente envolvido até o pescoço - comprei uma gravata nova para a cerimônia.

Já que estou aqui, então só tenho que celebrar e deixar toda esta confusão apenas para meus pensamentos e, sendo muito ousado, para este texto.

Agora, para meu pai, eu desejo toda a paz, felicidade, segurança, saúde e cuidados que ele sempre nos proporcionou. E todas as bênçãos que o Pai reserva para este precioso homem, a quem chamo de pai.


Titulo: O casamento do meu pai

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de abril de 2003

Resumo:

Não é todo dia que um pai se casa. O meu vai se casar nesta semana.

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19 Comentários

  1. Tia Ana Nilza disse:

    Como estou lidando (agora) com o mundo da internet, hoje me deparei com os seus generos, estou maravilhada lendo a cronica “o casamento de meu pai” senti no meu coraçâo oque estava se passando no seu em abril do ano passado

  2. Geraldo Magela Matias disse:

    Ainda bem que você não tem um pai como o que Kafka teve. Senão teríamos que suportar um Kakfa tropical, se enveredando em textos que judiam do leitor. O roteiro que pode ser extraído da história do seu pai talvez não dê nem um bom curta, mas é gratificante. Hoje em dia ninguém fica mais alegre por sentir o cheirinho da vovó, do vovô; ninguém sabe mais a sensação estranha que sentimos ao adentrar no quarto de nossos pais. Quase ninguém sabe que família é algo sagrado. Aliás, como canta o Milton Nascimento, “tudo que move é sagrado”.

  3. Anonimo disse:

    Ola PH tudo bem?Gostei deste sua crônica, mas tenho algumas perguntas, me desculpe a ousadia, Muitas pessoas evangélicas que conheco são contra um segundo casamento o que vc acha ao respeito? outra coisa, é vc nao ter corajem de de falar sobre a morte da sua mãe, cara eu sei que vc e seu irmão passaram por uma “barra” muito grande num foi fácil, muito menos pro seu pai, mas passou, isso ja faz 8 anos, devo estar errado, sim, estou errado em te pedir isso, mas eu gostaria que vc escrevesse dando seu ponto de vista do que aconteceu, do que vc pensou nos dias após, cara, me desculpe por pedir isso!!

  4. Célia disse:

    P.H.Embora eu já tivesse ouvido esta história, contada por vc a emoção ainda se torna maior ao lê-la. Parabéns p/ seu pai e p/ vc.

  5. Giannelli, Marco disse:

    pungente e muito autêntico, no sentido que os primitivos cristâos davam ao anúncio da Boa Nova e que veio a se constituir no querigma dessa religião que ainda hoje você professa. Só não concordo (mas perdôo a miopia…) com sua frase dizendo que “agora chegou a vez dele” referindo-se a seu pai, pois tenho certeza que para ele todos os anos de dedicação exclusiva aos filhos foram anos de felicidade, alegria e muito orgulho dos rebentos entregues aos seus gentis cuidados…Abraços

  6. Cibele Vieira disse:

    O despreendimento em lidar com essas emoções inconfessáveis normalmente causa surpresa. Mas vc sempre nos surpreende com esse jeito simples e afetivo de falar das dificuldades humanas. A sua forma de encarar esse casamento mostra que vc teve um bom pai, que os criou com valores e liberdade. Ele merece uma companheira para que possam envelhecer juntos, em paz com a vida e com os filhos, que também já constroem suas vidas de maneira independente. Fez bem em comprar uma gravata nova! Boa festa, aproveitem e felicidades aos noivos!

  7. Cássia Dutra disse:

    A crônica é bárbara! Reflete um sentimento que somente os filhos que já passaram por essa situação conseguem entender. Queremos que nossos pais reconstruam suas vidas, mas… a situação é inusitada e nos deixa perplexos.P.H., seu pai mostrou ter grande maturidade e compromisso com a família (eu gostaria que o meu tivesse agido assim). Agora é hora que retribuir!!!

  8. Fernando disse:

    Muito bom P.H. Sincero, franco e honesto. Sempre admirei seu modo de encarar a vida. Na época de faculdade quando algo não estava bem, quando surjiam dúvidas em relação a profissão e o caminho quehaviamos tomado, sempre me confortou lembrar que eu tinha você como amigo. É um grande alívio para a alma saber que podemos contar com alguém até o resto de nossas vidas. E você tenha certeza que poderá se apoiar em mim sempre que precisar ou simplesmente quando quiser.Um grande abraço.

  9. Márcio Sampa disse:

    PH, definitivamente este texto é o campeão de comentários de APTADA. E deverá sê-lo por muito tempo. Também pudera. O título me remeteu de volta ao restaurante da ECA, ontem à tarde, quando de posse de sua bandeja, vc. se virou pra mim e disse: “sexta-feira vou ao casamento do meu pai”. Você não tem idéia como isto me soou surreal naquele momento, naquela situação. Sei que nem tudo está dito neste texto, há muito mais nas entrelinhas…, mas sei também q. seu pai é um grande homem, pois os filhos, de uma maneira ou de outra, seguem a trilha de seus pais.Digo isto pq. normalmente eu sempre me reservei o direito de escolher as pessoas de quem me aproximaria para travar amizades. Com vc. foi diferente, vc. se aproximou de mim, me escolheu como amigo, e isto tem se provado ao longo do tempo um fator de orgulho pra mim, pois vc., a exemplo do seu pai, é uma grande pessoa!

  10. Bel disse:

    É fácil perceber quando as palavras saem do coração. Admiro a sua coragem de expor sentimentos tão profundos.Deseje a seu pai felicidades!

  11. Márcia Heuser disse:

    Sinceridade pura e coragem ao confessar a amigos, o que o aflige. Seja questões familiares, ou de indignação por esse mundo hipócrita, sob máscaras. Diferente de vc, existem pessoas que acreditam que tudo está sob seu próprio controle, e acabam deixando de ser elas próprias…

  12. Gustavo disse:

    PH, meu irmão: Admiro muito o conceito de família e de responsabilidade diante de Deus que seu Pai tem passado a vocês nestes últimos anos, ao ponto de prepará-los para que vocês (você e seu irmão) seguissem seus caminhos e ele pudesse seguir o dele, mas sempre unidos! É muito fácil perceber isto no seu texto, que belo! Um texto puramente autêntico, sem “retoques”, direto. Parabéns a seu Pai, um homem que tenho certeza saber bem o sentido de “dever cumprido”. Você mostra bem isto na parte do “meu pai cumpriu a sua palavra”. Parabéns a você por olhar para as situações que Deus coloca à sua frente de maneira tão pura e proveitosa aos olhos Dele. E por saber olhar as surpresas da vida de maneira tão madura e tão segura! Felicidades a todos!

  13. Márcia Heuser disse:

    Esse é o trecho final de um filme do Woddy Allen chamado “A PODEROSA AFRODITE”, que é cantado em coro.A VIDA NÃO É IRÔNICA?A VIDA NÃO É INACREDITÁVEL?MILAGROSA, TRISTE, MARAVILHOSA?Quando você sorri…Quando você sorri…O mundo todo também sorriO sol continua a luzir Mas quando você choraAtrai a chuva para semprePor isso pare de suspirarSeja feliz novamenteContinue a sorrirPorque quando você sorri O mundo inteiro sorri com você…Se existe alguém que anseia por um sorriso seu, este alguém sou eu!

  14. Mário disse:

    Não quero ser redundante. Nos dois primeiros parágrafos fiquei em dúvida se a personagem era o PH ou um alguém criado por ele. Devagarzinho fui descobrindo e enxergando a beleza e a coragem de abrir os pensamentos íntimos para um público qualquer. O que chamaram de infantilidade num sentido negativo eu dou no sentido positivo. Quem ao falar dos pais não quer se sentir criança? Quem ao falar do segundo casamento do pai - o meu casou duas, é divorciado - sabe o que significa uma mudança nas questões familiares. Simples, como sempre gostei, e terno. Parabéns!

  15. Francis Newton disse:

    Além do jornalista há o homem, em seus 24 anos (da biografia acima), confessadamente “perturbado”, “transtornado”, “passado” com mais uma nova situação familiar. No entanto seguro e calcado em fortes raízes mineiras e cristãs (também da biografia). Simples e sincero.

  16. Adriana Cerqueira disse:

    Pra um texto jornalístico, está um pouco infantil, existe alguns pontos que são supérfulos, seria interessante, apenas relatar os principasi fatos.

  17. Elizabeth Leite Zimon Mazarin disse:

    Como o pai é importante para os filhos, eu digo o pai, porque não são todos que correspondem a essa responsabilidade de fazerem a sua família feliz e honrar com todos os compromissos.No seu caso Paulo, além de pai ele foi uma mãe para vocês, parabéns!O casamento tem um sentido completo para Deus, portanto é muito importante respeitá-lo.Abraços

  18. Alexandre Piccolo disse:

    Singelo, sincero, verdadeiro - excelente! E cumprimentos e felicidades a seu pai nesta nova fase da vida!

  19. Ronaldo Magalhães Lima disse:

    Cheguei aqui no Sub, e fui ligando o micro logo abriu em minha tela o maravilhoso site azul… tanta coisa barata, era o site da maior e melhor loja virtual do Brasil e de toda P. Iberica… é demais acordar e ver tanta beleza… não resisti e comprei o DVD dos Friends para dar de presente de aniversário a uma amiga… Foi quando lembrei que de quarta-feira o PH escreve e tenho gostado muito de seus textos e recomendado a amigos. Quando acessei o site A Patada, vi o Título o casamento do meu pai… comecei a entrar na história… tive momentos de risos ao ler o comentário autêntico do PH se referindo a sua própria pessoa dizendo que era um sonho que se tornou realidade… que cara humilde meu… Passando por esse momento engraçado a história se tornou emocionante exatamente por ser real, a frase do Pai do PH “só vou casar quando meus filhos estiverem na faculdade”. é dotada de compromissos, quem me dera meu pai tivesse sido assim… seria fantastico… admiro seu Pai Paulo, pois foi um homem compromissado com o amor, só alguém que ama verdadeiramente seus filhos pode suportar tanto tempo sozinho para cuidar dos mesmos, e agora é o momento de festa em familia, pois ninguém jamais substituirá sua mãe pois ela tem seu espaço nesta história toda, para ter sido amada por alguém especial como o autor da frase acima, deveria ter várias qualidades que nem o tempo ou a distância apagarão, mas está nova “mãe” que entrará na familia terá também seu espaço e com certeza Deus a preparou para somar as alegrias que ainda estão por vir… dê meus parabéns a seu pai. Afinal com certeza é o casamento do seu melhor amigo. Alias quem tiver interesse em acessar o site azul… lá se vende o cd do filme “o casamento do meu melhor amigo”…

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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