O crash e o texto 700

Crônica por Alexandre Piccolo
18 de julho de 2004

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Beldade em destaque no UOL Esporte

Informação crucial ao entendimento desta crônica: este é o texto de número 700 daPatada. Ou o setingentésimo* texto do acervo, usando o desusado numeral ordinal de grandes montas. Frivolidades à parte, um aviso de antemão: o assunto aqui é dos frívolos ? irrisório para muitos, e um desabafo ininteligível do operário dos bits que agora e outrora lhe importuna. Os bits e as emoções da teia frente à tela não esquentam nem dão coceira à grande maioria dos brasileiros (evidente, aqui não há panfletagem da desigualdade social: gringo que sabe português e lê essa bagaça tá em falta por aqui?). Portanto, mesmo na frente do micro, não espere grande coisa do vulgo espaço virtual ? pra ir já esquentando.

Neste último final de semana, fiquei cabreiro com APATADA. O servidor em que este serviço (?!?) está instalado ? em outras palavras, o curral que hospeda este pangaré e outros alazões ? se incendiou e quase queimou todo o haras. Felizmente a fazenda tem bons caseiros e, em alguns dias, controlou-se o incêndio e reconstruíram o celeiro, o paiol e as demais dependências deste nobre espaço. Passado o susto, sobrou a ruminante pasmaceira da reflexão pós-susto - e sem capim queimado pra mascar.

Uma pulga ficou atrás da orelha. Por muito pouco, pouco mesmo - um pouco imensurável (nestas horas a probabilidade desaparece entre os zeros) - todo meu desprezível esforço e a valiosa produção dos colaboradores deste sítio não foi para o espaço. Para o espaço não, para o nada. Para o nada também não, porque o trabalho em si já é uma espécie de nada, vigorosa-vã-ventania de se passar o tempo, e se tomarmos os bits ao pé da letra tudo se esvai realmente em nada: há ou não há uma tal corrente elétrica, um ou zero ou um e, entre zero e um e zero, estamos nós nos apoiando entre o nada e o lugar nenhum desta "tola" abstração. Sacro-santo-besteirol, tudo isso porque o tal do becápi (antes fosse o istépi !?!) estava na mesma máquina ? eu, tolinho… Resumindo, por bem pouco o nada vai ao Hades, passando pelo diabo que o carreguava virando na curva em que Judas perdeu as botas. Numa visão menos sincrética, do nada quase ao nada retornamos - como haveremos de retornar um dia. Porém ainda não tão cedo.

Aí se deu todo o questionamento da tal existência virtual, que já não existe mesmo. Essa coceira, de tanto coçar, acabou por fazer ferida. Já-já passa, mas ainda arde: um grande tempo perdido, isso sim. O sol doira lá fora (não exatamente nestes dias de chuva, mas quando passarem as nuvens e o tempo melhorar…) e a gente aqui, enfurnado numa sala com ar condicionado, em frente ao computador. Rato rodando na gaiola: lê alguma porcaria no UOL (com uma nota de alguma beldade em fantasiosa foto minúscula), divaga pelo Google, abre o editor de texto, digita bobeira, passa às vezes pelo internet banking pra movimentar uns numerinhos vermelhos, lê uns recados e bilhetinhos eletrônicos, às vezes escreve uma mensagem dita instantânea, em outras escuta alguma música eletrônica que ensurdece de tanto repetir a mesma batida, volta ao vazio lugar de início e, por fim, se sente produtivo e vivo por ter feito nada. Ou, na melhor das hipóteses, se justifica (sem sombra de equívoco ou perplexidade) com a produção de documentos deveras importantes ou com a transferência dos arquivos vitais para a continuidade plena da existência da humanidade sob o Sol. E pior, acha tudo isso bom enquanto o Sol doira lá fora, as ondas fazem o mesmo barulhinho bom há séculos ao quebrar na areia e a brisa do mar tem um cheiro de encher os olhos d'água e o pulmão de pura vontade de viver. Uma grande perda de tempo esses tais zeros-e-uns, isso sim. Para no fim do dia sentar em casa, na poltrona vazia, fugindo do frio, e “zapear” o tempo perdido ante a deusa de luzes azuis. Antes a imaginação de Proust… Ah, perda de tempo!

Talvez seja a tal da macaca atacada, o calafrio da meteorologia, o susto deste último final de semana ou a força oculta e cabalística do texto de número 700 que me importuna - desculpe o desabafo e a exclamação. Confesso que por alguns segundos tive medo de enviar um comunicado pesaroso a todos estimados colaboradores deste sítio, a amigos, escritores, fotógrafos e ilustradores que contribuíram, de algum modo, para fazer do zero-e-um algo além do bit: "caro amigo ou amiga, nosso (ou melhor, seu) trabalho voltou ao zero de onde veio. Tudo se perdeu no nada". Felizmente, este email catastrófico foi evitado; o desastre, corrigido ? e, se bem prevenido, num futuro próximo, contornado. Ainda assim, por muito pouco, bem pouco mesmo, o texto de número 700 não se transformou em texto de número 1 ? ou zero, tanto faz. Eterno recomeço, para não deixar a ilusão se perder, e continuarmos achando essa aventura uma não-perda-de-tempo.



* setingentésimo (do latim septingentesimu), ordinal e fracionário correspondente a setecentos.


Titulo: O crash e o texto 700

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 18 de julho de 2004

Resumo:

Entre beldades e a não-perda-de-tempo…

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2 Comentários

  1. eu disse:

    egocêntrico, muito eu

  2. PH disse:

    Fala Alex. Angústia divertida esta sua. Quem dera que todos os desabafos fossem desta natureza, ruminando sobre a quase-perda do quase-nada… Ainda bem que foi só susto!

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