Crônica por Eduardo Socha
20 de março de 2003

17 de março é feriado irlandês. Comemora-se o dia de Saint Patrick, padroeiro responsável pela disseminação do cristianismo na Irlanda durante o século V. O caráter histórico-religioso da efeméride obviamente esvaziou-se no tempo. Restaram as festas de saudação ufanista da cultura irlandesa, cuja envergadura aliás trouxe à humanidade os textos de Wilde, Joyce, Yeats, Beckett, além é claro do olor inconfundível da cerveja Guiness. A rigor, o evento é um bom pretexto para encher a cara e depois lembrar do santo. Bebe-se muito, contam-se histórias, ouvem-se canções típicas nas gaitas de fole. Este é o dia nacional irlandês; uma data comemorativa apenas (também festejada em países de imigração irlandesa). Mas não passa disso. Há uma pausa de um dia na rotina do país e só. Para os irlandeses, o ano não começa depois de Saint Patrick.
O mesmo, evidentemente, não acontece nestes trópicos. De início, o carnaval, feriado nacional por excelência, inaugura o ano brasileiro na prática. É rotundo o clichê segundo o qual as coisas só acontecem depois do carnaval. Decisões importantes raramente são tomadas em janeiro ou fevereiro. O motivo para esta “oficialização” pós-carnavalesca em nosso calendário é simples: ao contrário da festa de Saint Patrick, o carnaval corresponde a um elemento decisivo na organização social do país, a um verdadeiro princípio na lógica de nossas relações.
Nas festas populares, a carnavalização é um processo visível, inevitável. A festa junina em Campina Grande, o bumba-meu-boi em São Luís - preservadas as diferenças de culturas regionais ? ocorrem de tal modo que o rol carnavalesco esteja sempre presente: extravagância no comportamento, proximidade física, excesso nos gestos, apelo a sensualidade, coloração exótica. Mesmo as festas recentes de grande concentração popular, como a Oktoberfest em Blumenau, também se orientam pela tropicalização carnavalesca. Sem dúvida, as pândegas blumenauenses de outubro hoje pouco lembram a Oktoberfest ou a Frülingfest de Munique. Esta última, por exemplo, consiste em dispor uma série de mesas comunitárias simetricamente alinhadas dentro de um pavilhão friamente decorado, onde as bandas hum-pá hum-pá, desesperadas com a apatia do público, partem para escatologias da seguinte ordem: um dos integrantes tira a bota, coloca chopp dentro, bebe metade do conteúdo, finge algumas caretas e recalça o coturno, fazendo jorrar o resto do chopp pelo palco. A cena é chocante. É terrível. O embriagado público ainda ensaia algumas poucas risadas, tímidas. Mas a vontade mesmo é de mandar prender a banda inteira.
Festividades a parte, o carnaval mantém sua institucionalidade até nas relações de convívio, quer se goste ou não da festa. O “jeitinho” (empregado para além do bem e do mal), a opção pela intimidade e informalidade, a mestiçagem, toda a tipificação social sofreu certamente a influência carnavalesca. Pode ser um esteriótipo fácil, mas tem lá sua razão de sê-lo. Claro, a questão da formação distintiva do corpo social brasileiro enverada por caminhos bem mais complexos que a simples presença de uma festa. Não se pode generalizar. Entretanto percebe-se sem grande esforço que o feriado traz consigo um atributo constitutivo fundamental.
E não se trata aqui de apologia, mas de constatação. A irracionalidade da violência, a discrepância econômica, a corrupção despreocupada nas inúmeras esferas (paremos aí) de alguma maneira também estão vinculadas à carnavalização, ao “jeitinho”. O carnaval abafa a urgência das mudanças, embora estas ocorram de um modo ou de outro. Se Lula (e o que ele representa) tardou 500 anos para chegar lá, dificilmente modificará a realidade em 4. A pressa não está do nosso lado. Afinal, no Brasil tudo acaba em samba.
Gilberto Freyre definiu com precisão o impacto social desta característica: “numa sociedade como a patriarcal brasileira, cheia de repressões, abafos, opressões, o carnaval agiu, como, em plano superior, agiu a confissão: como meio de se livrarem homens, mulheres, meninos, escravos, negros, indígenas, de opressões que, doutro modo, a muitos teria sobrecarregado de recalques, de ressentimentos e fobias”. Irlandeses são reconhecidos por serem irreverentes e paradoxalmente ranzinzas. Alguém dirá que talvez lhes falte um pouco de carnaval no dia de Saint Patrick. Quem sabe. Cerveja boa, pelo menos, já não falta.
Titulo: O dia em que Saint Patrick encontrar o carnaval
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 20 de março de 2003
Resumo: Festividades próximas no calendário, diferentes na importância.
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esses textos deviam falar,como e quais países comemoram