O jornal do dia

Crônica por Márcio Sampa
10 de fevereiro de 2004

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Jornal

O velho Damião, em suas aulas de Jornalismo Opinativo, legou-me pelo menos duas frases lapidares. A primeira dava conta de que tempo é uma questão de gosto e que, portanto, a falta de tempo não nos serviria como justificativa para deixarmos de fazer o que realmente nos interessa. A segunda, que serve de mote para esta crônica, dizia que aquele que lê um único jornal no dia, não lê nenhum.

Damião referia-se a visão enviesada dos fatos que a leitura de um único tipo de publicação pode nos impor. Infelizmente Damião (que os anjinhos do céu o tenham!), não disponho de tempo, e muito menos de dinheiro para ler duas publicações distintas. Me resta como alternativa variar os títulos quando os adquiro na banca.

Seja como for, reparei que nos últimos tempos desenvolvi um hábito. Começo a leitura, não importando o nome do jornal, pelo caderno de cultura. Penso que esta opção repouse, em grande medida, na relação entre o período do dia (manhã) e a possibilidade de o tal caderno me manter no mundo dos sonhos, do lúdico. E, falando em lúdico, na seqüência procuro as notícias sobre o Palmeiras. Se não as encontro, deixo de lado o caderno de esportes, lamentando não termos uma mídia palestrina, a exemplo dos ingleses do Manchester, que têm até canal de TV só pra eles.

Ao ler o caderno de cidades, porém, percebo que minha cidade nào está realmente refletida ali, é mais fácil saber o que vai pelo mundo. E é o que faço, troco a cidade pelo mundo, afinal mais tarde sairei por aí e eu mesmo vou apurar o que acontece pela comarca.

Na medida em que os neurônios vão deixando o estado dionisíaco para mergulhar no "real", pulo para a política. A mesma ladainha de sempre. Aqueles que são governo montam suas máquinas de moer carne. Inimigos de ontem selam pactos com juras de amor e fidelidade. Aqueles que não quiseram (ou puderam) fazer parte do status quo vão para as páginas 2 e 3 criticar os desatinos do dono da cadeira que eles cobiçam. A lógica é simples. O dono da cadeira tem a chave do cofre e o conteúdo do cofre aproxima os amiguinhos com suas juras, salamaleques e adulações que, convenhamos, muita gente gosta.

Termino a empreitada com a economia, pois como cunharam os marqueteiros de um certo candidato a presidente: "é a economia estúpido!". O dinheiro azeita as rodas do mundo. E, falando nisso, deixa esse jornal de lado porque preciso ganhar o meu.


Titulo: O jornal do dia

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Crônica

Data de publicação: 10 de fevereiro de 2004

Resumo:

Uma pequena viagem pelo universo subjetivo de um leitor de jornal.

4 Comentários

  1. leãdro wojak disse:

    boa a lembrança do damião.durante algum tempo conseguia ler a folha e o estado todos os dias, mais ou menos na mesma ordem que vc descreve.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Sampa, quanto ganha um cronista de um jornal como esse?? Difícil encontrar quem aborde um jornal com tamanha arte; quem te lê, Márcio, agradece.

  3. Eduardo disse:

    Muito bom texto! O último parágrafo me fez lembrar a divisão que um grande jornal fez há algum tempo; logo abaixo do título do caderno - “Economia” ou “Dinheiro” - vinha a curiosa (e talvez ambivalente) inscrição “inclui Mundo”.

  4. PH disse:

    Sampa, divertidíssima (e original) esta sua transcrição da leitura diária de um jornal. Vc nos envolveu neste seu roteiro factual. Delícia de crônica (tirando o Palmeiras, é claro).

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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