Crônica por Paulo Henrique
22 de junho de 2003
Não sei se também acontece com vocês: mas eu, desde criança, sempre notei o meu reflexo no fundo dos copos, canecas, xícaras, tigelas e afins, que uso para beber. Ele sempre está lá, compenetrado, me ajudando a sorver os líquidos que têm me nutrido e saciado durante todos estes anos. Seja nos sedentos copos de água após as correrias de moleque; nos copos de leite escolares; ou ainda nos recreativos copos de refrigerantes e cervejas; até na adulta e responsável xícara de café, esta lá o meu reflexo, sempre me encarando amistosamente, enquanto me acompanha em cada gole que dou.
O engraçado é que ele sempre se mantém o mesmo. Eu não. Eu mudei bastante: cresci, engordei, defini as formas de meu rosto, meus gestos e expressões. Em suma, aceitei as mudanças que o tempo me proporcionou. Mas meu reflexo, sempre lá, inocente, quase pueril, mantendo-se igualzinho os tempos de criança, sem mudanças, apenas bebendo, apenas bebendo. É mais ou menos como a sombra, que sempre me acompanha imutável, com o mesmo ar sapeca, a projetar o homem que o menino tenta observar, ou o menino que o homem tenta resgatar. Mas deixemos a sombra pruma outra hora.
Agora é a vez do reflexo no fundo do copo. Este imutável e persistente companheiro de goles continua, a cada bebida, a me observar, sentindo-se grato, apenas grato, por compartilhar deliciosas bebidas comigo. É como se fosse eu, ainda menino, no fundo do copo, curtindo cada gole divertido de algum líquido saboroso. O reflexo nada me cobra, nada me denuncia. É um momento entre ele e eu, quando compartilhamos o líquido que escoa devagar e nos revela gradualmente, num contemplamento mútuo entre dois universos, até o final da bebida, quando termina este encontro. Aí - como num beijo estalado de satisfação - me despeço da sêde e do reflexo, mas só até o próximo copo, mote para mais um cândido e agradável encontro com este menino que, eu sei, sempre vai me acompanhar.
Titulo: O menino no fundo do copo
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Crônica
Data de publicação: 22 de junho de 2003
Resumo: Tem coisa que nunca muda.
Caramba, seus textos são uma surpresa depois da outra…Acho que todo mundo já disse e mais seria redundância…Adorei!
é através de um simples copo que percebemos um grande jornalista. O autor deste texto me levou a acreditar que quando reparamos em pequenas coisas, podemos ser sim, muito mais feliz. “Tudo muda neste mundo, estações que vem e vão. Poucas coisas são eternas, mas é certa a afirmação: Você é talentoso.”Ronnie
Cara, muuuito bom!Até emocionante, devo ressaltar…Forte abraço e, a propósito, eu e Penha passamos de Numérico..:)
Muito bom, PH. Uma crônica leve e sincera, que me fez enxergar criança outra vez. Pelo jeito o computador voltou a ficar bom.
Bela crônica, Ferreirinha.Dimaaaish da conta, sô.Bonitinha.Abração,
PH, o seu texto dá a sensação de sermos, no fundo, aquilo q sempre quisemos ser: imortais. É nesse afã q a indústria de cosméticos se agarra e, nós, claro, continuamos nos vendo, seja no fundo dos copos ou na própria reverberação do espelho o q vemos é o q queremos ver: nós mesmos.Um abraço, Marilda Piccolo
Engraçado. Mais do que o reflexo no fundo do copo, temos, dentro de nós, algumas imagens a nosso próprio respeito que nunca mudam. Um quê de inocência e nostalgia que permanecem mesmo com o passar dos anos… que perpetuam nossos sonhos e anseios em relação à vida.
Reflexão bacana, PH. Curti a divisão dos universos pelo fundo dos recipientes.
Adorei meu homem-namorado-menino… Bjos.
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Bonita observação… abraços, samira