Crônica por Mário Neto
15 de outubro de 2003

Da série "As coisas habituais e o hábito das coisas"
Muitos estão acostumados a engolir conhecimentos em sala de aula. Aliás, desde pequenos somos estimulados a engolir conhecimentos. Temos primeiro as repetições, para "decorar" o "essencial".
- Quanto é dois vezes dois?
- É quatro!
- Lindo! - diz a professora com um sorriso cortando o rosto e passando a mão bondosamente na cabeça do garotinho.
Ou pior:
- Qual o coletivo de boi?
- Manada!
- Qual o maior rio do mundo?
- Depende: Amazonas ou Nilo. Um em comprimento, o outro em volume de água.
E a professora (no geral, sabemos bem, são mulheres) quase entra em êxtase ao ver um aluno dando uma resposta "complexa" e "correta" como essas.
Aliás, esse é um segundo aspecto importante: a resposta certa.
- Qual é a classificação dessa oração?
- É uma oração subordinada adverbial… moral?
- Não… - e ela olha para a menininha pensando em como os alunos de hoje só dão atenção à TV e pouco gostam de português e línguas.
Saber dar a resposta certa. Outra coisa à qual somos estimulados e à qual somos levados a pensar desde nossos primórdios educacionais.
Há uma resposta para tudo, é a primeira lei que engolimos. A segunda: além de existir uma resposta, apenas uma delas é correta. Em outras palavras, há uma única resposta que se adequa a certa indagação, assim como uma peça de quebra-cabeça se encaixa unica e perfeitamente a uma outra.
Repare como, infelizmente, existem aos montes pessoas que pensam dessa maneira e que ainda refletem esse pensamento. Sempre - e eu, com risco, digo sempre - há alguém que acredita piamente haver uma resposta certa e única para aquele tema discutível. Aquele alguém que, insistente e cansativamente, procura te convencer e fazer com que você acredite nisso.
As coisas que engolimos sem ver
Além de engolirmos o conhecimento, o que sugere a idéia de que não sentimos seu gosto, ou, se o sentimos, não é dos melhores, temos ainda outras coisas aprendidas na escola mas que, freqüentemente, não são ditas diretamente.
Respeitar autoridades (mesmo que sejam pilantras nojentos e interesseiros), respeitar os horários (deve haver horário para tudo, para comer, dormir, amar, trabalhar, divertir, conversar, estudar), respeitar o merecimento dos mais aptos (há pessoas com mais capacidades que outras, e essas merecem um lugar ao sol, um sorriso da professora e um picolé do diretor), respeitar a ordem das coisas (você não vai querer mudar o mundo, vai?), respeitar o pensamento certo (poucos são os que podem dizer o que é certo, portanto confie neles, são iluminados), etc.
O momento mágico
Eu gostaria de resgatar aquele momento mágico da aprendizagem. Aquele momento em que tudo parece mais claro, onde as idéias se iluminam, a mente se liberta, onde há a virada do conhecimento: é o que chamo de momento "ahm".
Não digo que seja fácil alcançá-lo. Há uma confluência de fatores que nos aproximam dele: curiosidade, iniciativa, boas perguntas, conversas, discussões, bons amigos, boas leituras.
É como se olhássemos para um ambiente e este tivesse alguns pontos pouco iluminados, outros apenas mergulhados em sombras e resquícios de luz, e cantos no mais profundo escuro. O momento "ahm" é a luz da vela, a lâmpada ou a lanterna que ilumina aquele canto escuro, que desembaça a vista, que cristaliza certos fatos não vistos, que torna mais nítida a visão sobre determinado ponto.
Quando isso acontece, eis que surge, gostosamente e saborosamente, a interjeição que dá nome ao momento: ahm! Geralmente com o ême mais longo.
Não estou falando desse momento no sentido iluminista da palavra: iluminar o mundo das trevas medievais, do conhecimento religioso. Não! Estou falando do escuro em que nossa visão e pensamento mergulham regularmente quando vivemos neste mundo. Fatos incompreendidos, relações sociais confusas, a complexidade que escurece nossas vistas, opressões, a consciência, o dia-a-dia maluco que aparece na TV, nosso passado que se resume a aventuras e paixões, etc.
O momento "ahm" é aquela hora onde você compreende, finalmente, algo que lhe foi sempre incompreensível. Em que horas e mais horas de explicações, de repente, passam a fazer sentido. Em que o mundo ganha contornos e cores (às vezes sombrias), mas não limites e divisões exatas. Não é uma situação de descoberta, é de criação. É sua mente quem o constrói.
Aprender, com momentos como esse, é o que me faz pensar satisfeito sobre a educação. Pena que seja algo tão difícil, e pelos interesses que estão em jogo, tão pouco estimulado.
Acredite: precisamos é de homens e mulheres que tenham momentos como esses.
Mário de Souza Neto acredita que uma curiosidade bem alimentada pode ser um perigo para o mundo. Por isso quer tanto alimentar novas e velhas curiosidades.
Titulo: O momento ‘ahm’
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 15 de outubro de 2003
Resumo: O momento em que o aprender realmente vale a pena.
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Mario, na guerra pela curiosidade, conte comigo! Felizes dos curiosos e inquietos, pois deles será a liberdade de pensamento e ação!