O piano da vizinha

Crônica por Claudia Lins
22 de julho de 2004

A milenar sabedoria chinesa nos ensina a não guardar o que de fato já nos é desnecessário.

Objetos parados, energia estática. Sentimentos aprisionados como relíquias em caixas de papelão, livros empoeirados em prateleiras ‘imexíveis’… São fontes da energia que impedimos de circular.

Guardar o que não mais usamos e que ainda pode servir ao outro, reflete de certo modo, nossa imaturidade diante do sentir, saber doar, dividir, perdoar, acumular ressentimentos, não conseguir democratizar a beleza ou a utilidade das coisas.

Se o ‘x’ da questão está em saber descartar, ser sábio é definir o que preservar.

Minha prima tem o insistente hábito de guardar objetos e roupas que não usa. Outro dia, em mais uma de minhas incessantes tentativas de dissuadi-la a livrar-se do estático, deparei-me com casacos cheirando a guardado, prontos para um frio que nunca veremos em Maceió, pilhas de apostilas do tempo que em fazia cursinho pré-vestibular – detalhe: já está se formando em Psicologia –, uma peruca velha e um óculos sem perna.

E que fique aqui bem claro que não tenho nada contra os que cultivam suas memórias.

Meus amuletos também os tenho, embora prefira as boas lembranças trazidas comigo, a viver entulhada de bilhetinhos, embalagens de produtos, canhotos de ingressos de espetáculos, armários abarrotados de roupas e acessórios que não uso.

Só não abro mão de minhas fotografias, o primeiro sapatinho e a mantinha dos ‘babys’…

Mas faço um trato com minhas relíquias, salvando-as de se transformarem em entulhos. Sempre que possível mudo a disposição das fotos ou compro novos porta-retratos. As roupinhas de bebê, três ou quatro peças, são aquelas que guardo para dar ao meu neto, quando ele chegar.

Roupas e livros dou, empresto, procuro guardar apenas os muito queridos, aqueles que realmente lerei de novo ou que pretendo compartilhar com meus filhos.

Não importam as razões que conduzem ao apego material. Por natureza, nós seres humanos, tendemos a guardar coisas que poderíamos perfeitamente descartar ou passar a diante.

Lembro-me agora da história contada por um velho amigo que reencontrou dia desses um isqueiro dado como perdido há mais de 20 anos. Sério! Sem exageros.

O cara tinha o isqueiro de prata como um objeto raro, que trazia sempre consigo. Um dia o perdeu de vista. Fez faculdade, casou, criou as filhas, viajou o mundo e, 20 anos depois, remexendo numa caixa de madeira onde guardava velhas flâmulas que relutava jogar fora, descobriu o velho isqueiro com partes metálicas quase enferrujadas. Botou pedra nova de gás e funcionou.

Esteve com ele nos melhores e piores anos de sua vida como testemunha subliminar da juventude e maturidade. Um objeto que conquistou status de amuleto por todos os motivos aqui descritos.

Hoje percebo que só aprendi a descartar com o tempo, embora ainda me pegue em dúvidas quanto o momento certo para o desapego.

Talvez por isso me estresse tanto a visão do piano da minha vizinha. Há meses largado no corredor do prédio, bem diante de minha porta. Fechado, estático, como se morto estivesse.

Um piano, o mais sublime dos instrumentos musicais, seguindo minha classificação pessoal sobre a importância de tais objetos.

Desde criança sonhava com um. Adoraria ter aprendido a tocar piano, amo ouvir alguém tocando. E o da vizinha ali, jogado no corredor. Abandonado sem qualquer reverência a seu valor. Ainda pleno, capaz de despertar emoções, levar beleza a tantos, e ainda assim, ali. Empoeirado, desprezado e mudo.

Companheiro estático de outros objetos que a vizinha também resolveu descartar: um colchão e um estrado de berço quebrado.

O tempo passando e ele ali, silencioso. Uma jóia entre os cacarecos abandonados.

Sei lá, tudo isso me faz pensar que o piano da vizinha tenha o poder de revelar a incapacidade humana de render-se ao sublime ato de doar. Compartilhar com os outros o que já não valorizamos, e mesmo assim aprisionamos, por razões que talvez nem Freud explique.

E alguém saberia me dizer se Freud gostava de piano?


Titulo: O piano da vizinha

Autor: Claudia Lins

Gênero: Crônica

Data de publicação: 22 de julho de 2004

Resumo:

Sobre as coisas que nos recusamos a descartar mesmo sabendo que não mais as queremos ou precisamos delas…

1 Comentário

  1. Mário disse:

    Hehe, texto muito gostoso. Levanto questões: será que temos mesmo a sabedoria de saber quando doar? Será mesmo da natureza humana a vontade de guardar as coisas para si? De repente, o piano é para sua vizinha o mesmo que a mantinha dos babys é para você: memórias, emoções… De qualquer forma, uma pena estar parado, sem a música para o qual ele nasceu e pela qual provavelmente vai morrer.

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Quem é Claudia Lins?

É jornalista, carioca alagoana, seduzida pelo cheiro do sargaço (alga que é a cara de Maceió), e pelo verde-azul dessas praias maravilhosas, por aqui descobrindo um mundo de possibilidades e desafios. Antes de todas as paixões, apenas uma: escrever, escrever e escrever.

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