O sujeito do jeito

Crônica por Eduardo Socha
1 de março de 2004

No apêndice dos guias ingleses de viagem da Lonely Planet (amplamente reconhecidos pelas indicações apuradas e sempre proveitosas), uma pequena lista com frases e expressões úteis orienta o forasteiro em diversas situações da região a ser visitada. Folheando esses dias a edição Brazil, resolvi espiar aquela que seria a cartilha mínima para que o gringo se fizesse entender por aqui. Para o escárnio da raça, entre “oi, tudo bem?”, “que horas são, por favor?”, “quanto custa?”, o guia traz astutamente nossa ubíqua marca nos diálogos: o famoso “tem jeito?”

O “jeito” brasileiro virou coisa para inglês ver (e falar). Contudo, o guia não expõe toda a mis-en-scène necessária para “dar um jeito”. Pelo procedimento padrão, o “jeito” requer malícia: primeiro, uma fungada respeitosa; em seguida, um “e aí, meu amigo…”, olhando para os lados; longa pausa; e só então é que se metralha o interlocutor, sem piedade, “… tem jeito?”

Claro que há nuanças regionais e adaptações conforme a situação. Por exemplo, a expressão é substituível pelo “então, como é que a gente fica?”, ou “1% tá bom?”, ou pelo já superado “você sabe com quem está falando?”.

A instituição do “jeito” constitui um traço cultural brasileiro inalienável. Seu lado positivo, de acordo com um site para estrangeiros no Brasil, é o de eliminar burocracias e estimular a criatividade na resolução de problemas. Nesse ponto, basta observar a popularidade da figura do despachante, profissional dedicado a “dar um jeito” nos labirintos burocráticos. Ou ainda, perceber como alguém consegue sobreviver com um salário mínimo.

Mas, na maioria das vezes, o “jeito” emperra a seriedade conveniente a um grau mínimo de civilidade. Nesses casos, recebe até mesmo estatuto legal: a Lei de Gérson, como conhecemos.

Sábado passado, véspera de carnaval, quatro da tarde, aquele trânsito no calor esmechado da BR. Andando a 5km/h, vejo pelo retrovisor um corsa azul correndo pelo acostamento, seguido por uma legião de outros fiéis observadores da lei gersiana.

Obviamente, o condutor do corsa azul não é qualquer um, é importante demais para se submeter à lentidão da pista. Precisava dar um jeito nisso. Vindo pelo acostamento, cumpria seu dever. Mas eis que, súbito, resolve atravessar minha frente, pois constata uma viatura logo adiante. Ele entra na pista e consegue escapar, mas o camarada atrás dele não tem a mesma sorte. É parado pelo policial - vai precisar dar um jeito na situação. Um quilômetro depois , o corsa azul retoma o acostamento e então segue feliz em seu direito gersiano, contemplado com maestria. A impunidade assegura o “jeito” que, neste caso, nem precisou ser enunciado.

E aquele que discorda tende a ser pacóvio ou tirano da história. No escândalo dos bingos, um certo Carlinhos (não o Cachoeira) chamou o delegado que andou fechando bingos em SP de “cara prepotente”. É hilário: o sujeito é “prepotente” por não aceitar o “jeito”.

Estranho para o gringo, o brazilian way não está, entretanto, necessariamente ligado a corrupção ou afronta legal. É um jogo de cintura complexo, talvez inexplicável. De todo modo, ao colocar o “jeito” na lista de expressões úteis, o guia já sabe com quem está falando.


Titulo: O sujeito do jeito

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 1 de março de 2004

Resumo:

Sobre o little quick fix ou way around brasileiro

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2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    A hermenêutica do “jeito” brasileiro, sem diminutivos, é estudo já universal. O exemplo do “despachante”, a corriqueira cena do acostamento e a conclusão hilária da prepotência pinçam com esmero o sentido lato que o guia inglês documenta.

  2. Mário disse:

    Excelente o texto do “jeito”. Cabe nele tudo isso.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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