O Tempo e seus Mistérios Literários

Crônica por Alexandre Piccolo
29 de dezembro de 2002

Final de ano e chega a todos a inevitável retrospectiva. Seja na TV, no rádio, nos jornais, nos livros ou na Internet, final de ano e retrospectiva são parceiros desde que o primeiro existe. Afinal, é natural do finito ser humano, em sua aparente infinita existência, relembrar o que foi bom e ruim nos últimos dias que passaram.

Indeciso sobre o que rememorar num ano tão incomum, cheio ao mesmo tempo de conquistas e desilusões, depois de cair num louco blog por aí, fui encontrar inspiração naquilo que li e reli de bom durante este atribulado ano. Comecei-o num oceano de contos magníficos, numa aventura que partia de mares remotos da Literatura e velejava em direção aos séculos e anos da atualidade. A empreitada teve marujos tão ilustres como Bocaccio, Cervantes, Dafoe, Poe, Hoffman, dentre tantos e tantos outros - certamente companheiros por toda a eternidade deste delicioso empreendimento - que até hoje, neste final de ano, traço rotas e mais rotas para estas curtas leitura. Descobri e redescobri então tesouros mil. Contos são surpreendentes, um gênero inigualável em leveza e profundidade, narrativas que nos tomam um tempo tão curto e permanecem para sempre dentro de nós, nos definem o Tempo e nos fazem perder sua própria definição.

Na primeira metade deste ano, atravessei um trecho da Grécia Antiga e seu nobre teatro trágico. Vislumbrei a grandeza e a eternidade desta Arte com Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, e, ainda que tendo passado por apenas algumas das poucas peças "sobreviventes" (pois inúmeras obras se perderam parcial ou completamente), aprendi e muito com estes imortais teatrólogos, bem como com seus jovens estudiosos, dentre os quais muito me agrada a lembrança de Jeager e sua tão culta e rica "Paidéia". Nasceu daí inclusive uma primeira e jovem produção acadêmica, a qual certamente será revista em ventos futuros. Velhas e excelentes lembranças dramáticas deste ano quase findo, em que se descobriu (e continuamente se descobre) uma nova verdade para se sair transformado, renovado e melhor a cada nova e estonteante revelação - uma verdadeira catarse.

Entre os romances, houve leituras e releituras - todas muito prazerosas - das quais destaco algumas deveras marcantes. Relembrei, no diário do jovem Werther, suas confissões e sofrimentos apaixonados pela jovem Carlota; conheci as peripécias de outro rapaz, Luciano de Rubempré, e seu amigo, David Sechárd, ambos percorrendo os altos e baixos da vida para, enfim, perderem a pueril ilusão desta jornada, na prosa detalhista e fluente de Balzac; sonhei lado a lado com a inquieta Bovary para também me desiludir com o embasbacado Charles e seu pequeno mundo, a fim de, ao final, perceber que tudo pode acabar num frasco de veneno bem como num ato ou vontade mal calculados. Afinal, o que realmente está em nossas mãos, era a pergunta que fazia em meio a tantas tristezas e desilusões, literárias ou não.

Sofrimentos e suicídios à parte, abro um parêntese para Victor Hugo e seu inesquecível "Os Trabalhadores do Mar". Este grandioso romance inicialmente me cativou pela raridade da edição que tinha em mãos, uma valiosa (mas não cara) tradução de Machado de Assis. Foi meu ímpeto e impulso ao lê-lo. Mas a cada página, a cada novo capítulo, a cada nova parte e novo livro do romance, descobria um autor genial. A impressão desta obra me foi tão forte e marcante que de muitos detalhes já me olvidei, porém jamais se apagará de minha memória a cena final do livro, imagem lúgubre, derradeira, pungente e inesquecível. Nesta única tradução que li até então, conheci um escritor sublime, ao mesmo tempo tão humano e eterno, de um brilho tão intenso que, hoje, me é impossível não reconhecer a luz desta estrela tão forte no esplendoroso céu da Literatura.

Fecho o parêntese deixando as tristezas de lado (ainda que uns digam que ela não tem fim - como muito ouvi…), e recordando os poemas sem fim que estiveram em meu bolso durante todo o ano, em especial o sábio Salomão (na primorosa tradução de Haroldo de Campos) e o libertino Manuel Bandeira. Termino com as peripécias d'O Idiota do Míchkin e suas aventuras pela Petersburgo de Dostoiévski, as quais vão adentrar o vindouro ano em companhia de asnos dourados, histórias da São Paulo dos anos 30, épicos portugueses, dentre tantas outras obras que nos fazem perder a noção do espaço e do tempo, histórias que nos fazem acreditar grandes e eternos, Literatura que nos faz humanos melhores a cada novo dia.

Feliz Ano Novo a todos, repleto, no mínimo, de boas leituras.


Titulo: O Tempo e seus Mistérios Literários

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de dezembro de 2002

Resumo:

Uma breve retrospectiva literária de um ano tão atípico.

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