O triste fim do guerreiro Sem-noção

Crônica por Thiago Mom
16 de março de 2005

O estrobo parou, as luzes do mixer apagaram, a música eletrônica foi suspensa: dez anos depois de entrar na sua primeira boate ao som de “Mr. Boombastic”, o maior guerreiro de Santa Catarina na virada do milênio passou pela saída do mesmo lugar resmungando que abandonava as pistas e a sua campanha “eu sou baladeiro e não desisto nunca”. Sem Noção tinha 15 anos quando argumentou pro segurança que precisava buscar a irmã lá dentro. Nisso, o careca de terno preto cuspiu no chão, ameaçando: “Se isso tiver secado e você não tiver aqui, vou lá dentro te buscar”. Antes que Shaggy cantasse de novo o refrão, Sem Noção saía da balada com a irmã ? de alguém, que ele mesmo nunca teve nenhuma.

Mas agora, aos 25 anos, 120 meses depois de encobrir o goleiro já naquela primeira partida, o mito vive uma de suas fases mais agourentas, estando mais pro urso que sai da toca em busca de mantimentos e logo volta pra hibernar. Sem Noção angaria alguns esquemas meia-boca e fica ali, sem sair, sem a esperança de madrugadas melhores, ligando sempre pros mesmos dois ou três números ? ele, que no auge era o canalha in box preferido de oito em cada dez mulheres e causava congestionamento telefônico em Florianópolis, fosse por conversas com meninas ou conversas entre meninas, sobre ele.

Mesmo sendo o resultado de uma queda de desempenho evidente (de quase 200 mulheres catadas, numa safra como a de 1999, pra 15, em 2004), o anúncio surpreendeu os amigos e até mesmo os sociólogos de balada, que previam no mínimo mais cinco anos de vida inútil pro maluco. Segundo esses especialistas, o mais lamentável da sua aposentadoria precoce é a perda de um diletante, um apaixonado pela arte da sacanagem pela sacanagem, um ícone da democracia do agarrão, um Robin Hood da balada - quando ganhava moral ficando com as mais gatas, Sem Noção saía distribuindo essa moral beijando, em seguida, as feinhas de todo naipe. Foi praticamente, sozinho, uma ONG pró-bagulho ? eis o porquê do apelido.

E tinha méritos incontestáveis: mesmo diante de alvos mais elitistas, como freqüentadoras de murais de balada e colunas sociais, não recorria a sobrenome ou patrimônio, armas químicas que nem mesmo tinha. Seu approach consistia basicamente num papo camaleônico, que desarmava qualquer campo minado feminino, e na sabedoria de manter separados os tanques de empolgação pré e pós-meia-noite. “Não adianta: nenhuma mulher tem obrigação de descobrir se você é ou não interessante pelo que faz à tarde. Os méritos que você tem de dia zeram na madrugada”, me ensinou uma vez, com sua milhagem de quem já teve centenas de camisas fedendo a cigarro.

Não só do Bali Hai de Piçarras ao Diretório, em Criciúma, mas também em guerras interestaduais, internacionais e fora do circuito da balada, foi um grande estrategista, que aliás mantinha a moral com os pais levando, idilicamente, a primeira fornada da padaria quase todas as manhãs. Mas conhecidos e amigos vão sumindo no funil dos namoros, casamentos e filhos; esquemas se tornam esquemáticos demais; o placar no telão vira um constante e cretino 0x0; uma noite, quando estica o braço numa pista vazia, você é ignorado até por aquela feiota hedionda desbalanceada que ficou em 1997.

Que essa maré cataclísmica não apague as marcas deixadas por Mr. Lover lover no seu apogeu.


Titulo: O triste fim do guerreiro Sem-noção

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 16 de março de 2005

Resumo:

Dez anos depois de entrar na sua primeira boate, o maior guerreiro de SC na virada do milênio passou pela saída do mesmo lugar resmungando que abandonava as pistas e a sua campanha ?eu sou baladeiro e não desisto nunca?.

2 Comentários

  1. disse:

    Lindo!!!!

  2. Taís disse:

    Seu cafajeste safado, um absurdo escrever isso!

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