Crônica por Eduardo Socha
17 de novembro de 2003
Estou pensando no que escrever. Ainda não achei o tema, incipit, gancho. Bem que poderia resolver o problema com uma simples linha, peremptória do tipo: “hoje não será publicado o texto”. Pronto, acabaria com o drama e voltaria para minha septuagésima-terceira rodada de Paciência, modo Vegas, saldo devedor nas profundezas do Tártaro. Mas e depois? Avassalar-me-ia (salvem as baleias e as mesóclises!) uma inquebrantável culpa, e gnomos perversos rastejariam por baixo da minha cama gritando em uníssono “maldito pecador, o Hades te chama, pirilampos das letras, pirilampos, acudi este pecador!”. Depois, invadiriam o leito e perfurariam meu olho esquerdo com a haste dos seus óculos de titânio e o direito com uma pena de ganso. Importante detalhe, todos teriam a cara de Joyce. De olhos perfurados, eu haveria ainda de escutar os gnomos lendo em voz alta Finnigans Wake com sotaque de albanês resfriado. Culpa, essa projeção pequeno-burguesa. Tudo bem que aceitei na boa vontade escrever uma bagatela por semana, mas este peso despótico não. Droga. Tá, vambora, vamos ver o que tem no “Mais”: artigo do Silviano Santiago, descendo a lenha nos escritores nacionais. Ah, não dá tempo nem linha pra pipa. Mais uma rodada de Paciência… voltei. Ainda não desisti. Não desisti é do jogo, claro (por um 3 de ouros que não encho o balaio). O texto, pelo visto, já era. Vou dar mais quinze minutos e recolher a ossatura. Pois esse irritante cursor cintilando aí na frente é pior que gnomo. Será que tem opção de deixar esse maldito filisteu parado? Não, só mais lento. Fica criando aí uma exigência insuportável: “va-mos, va-mos, va-mos, va-mos, va-mos,…”. Vai pro Tártaro também… seria bom se agora acontecesse uma daqueles descargas mentais que jorrassem, de uma vez só na tela, todos os movimentos intelectivos subreptícios, todas aquelas pequenas digressões que dificilmente se agarram pela unhas da linguagem, algo semelhante ao fluxo de consciência da Lygia Fagundes Telles. 11 minutos. “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”. Agostinho chega a ser uma experiência intelectual constrangedora. Como alguém pôde reunir tanta lucidez no século V? Podia começar assim, com esta epígrafe sobre o tempo nem um pouco manjada. Mas e depois? Que vaticínios lançar-me-iam os gnomos? 7 minutos. Mais uma rodada, quem sabe? 4 minutos. Já sei! Resenhar brevemente o livro de Hardt e Negri, tema fascinante, invocaria Rousseau e tal. Mas em 3 minutos? Nein, mein fuhrer, espere e aguente o peso despótico. “Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração”. Fernando Pessoa torna a flor do Lácio ainda mais fina. E caiu bem agora. Fim do tempo. Tarefa (mal) cumprida. Última vez que faço isso. Na próxima, vai só a linha peremptória. A Paciência me aguarda, ao lado dos seus gnomos.
Titulo: Obrigação
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 17 de novembro de 2003
Resumo: Substituto para ?excepcionalmente hoje não será publicado o texto?
Exercício exepcional e intrigante, Socha. Também andei com este dilema estes dias, escrevendo texto ao contrário para “cumprir uma pseudo-obrigação” e acabo por concluir: pior se não a tivesse.
Hehe. O “tem isso, tem aquilo, posso falar disse e daquilo” ficou engraçado! É, às vezes essa obrigação mata, mas às vezes até agradeço à ela.
Hahaha! Para quem estava sem ideias, o texto fluiu muito bem. Este e o dilema comum dos escritores que assumem algum compromisso, seja por oficio ou por hobby. Fico pensando: teria Vitor Hugo, Machado, ou Joyce lapsos como estes? Sentiria-me menos culpado (e mais aliviado) ao saber que sim…
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E nao eh que ficou bom pra caramba!!!!
Seu mentiroso..deve ter ficado uma manha inteira elaborando o texto….