Crônica por Mário Neto
17 de junho de 2005
Não faz muito tempo, a televisão veiculou uma série de comerciais cujo tema era o brasileiro e o orgulho de ser o que é. Sob o emocionante fundo musical de “Tente outra vez”, de Raul Seixas, cada comercial trazia um brevíssimo resumo da vida de um batalhador cidadão brasileiro. Em cada história, um obstáculo, uma dificuldade, uma luta. Talvez a iminência de uma sufocante derrota. Tudo difícil, tudo levando a crer que nada mais pudesse ser feito. O que fazer? Suportar a derrota? Não. Desistir, nunca. Não o brasileiro. “Verás que um filho teu não foge à luta”. E assim, após a primeira metade repleta de dificuldades, de apuros, de desilusões e de derrotas, eis que o comercial faz emergir o triunfante brasileiro. Ele estufa o peito. Mostra que pode tudo. Basta o trabalho, o suor, a dedicação, o esforço. Basta não desistir, pois ele tem capacidade! A música cresce, a lição ressoa: tente outra vez! Se não der certo, não roube, não mate, não apele. Tente de novo. E ao final o slogan: “O brasileiro não desiste nunca”.
Como é de se esperar de um comercial, usa e abusa da emoção. A música, as desilusões, depois a passagem sublime daquelas pessoas — iguais a nós — de uma situação complicadíssima, na qual todos davam por certa a derrota, para a tão sonhada vitória. Sim, quer nos dizer o comercial, ela é possível. Há, além disso, uma profunda mescla de conceitos, que aparecem de forma difusa e nos remetem direta ou indiretamente a emoções múltiplas: o Brasil e a situação de coadjuvante em que se encontra no cenário internacional; o brasileiro e as dificuldades tremendas pelas quais tem que passar no difícil cotidiano; as desigualdades sociais, regionais, fundiárias e econômicas; a esperança de tempos melhores, de que vamos dar certo, de que cada um pode dar certo, de que o trabalho e o esforço bastam; o orgulho de ser, afirmar e definir o que somos e o que devemos ser; por fim a vitória, o reconhecimento, a sensação de dever cumprido, de que todos, ao batalharmos, somos um pouco heróis.
Posso ser redundante, mas repito o que talvez algum desavisado não tenha percebido. Isso é uma propaganda, um comercial. Quer, portanto, nos vender algo. Claro que vender e comprar, nesse contexto, não quer dizer o uso do dinheiro para o consumo de produtos como refrigerantes, pizzas ou cervejas subliminarmente escondidas na propaganda. Se esse comercial não quer nos vender um produto concreto para consumo, quer nos vender uma idéia para consumo. Que idéia é essa que este comercial quer nos vender?
Simples. Ele quer nos vender um produto tipicamente nacional: o brasileiro. O slogan, as imagens, os temas, está tudo claro. O que está em jogo é o brasileiro e sua identidade. O comercial não se dirige apenas a paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos ou paraenses. Quer falar a todos os brasileiros. Portanto, está implícito que há algo comum em nós, algo que esse comercial quer nos contar, e que independe das diversidades culturais que sabemos bem existir por aqui. Brasileiros, convida o comercial, identifiquem-se com esses camaradas que estou mostrando a vocês. Eles são brasileiros e eles venceram. Vocês também podem vencer. Afinal, vocês são brasileiros! Tenham orgulho de ser o que são!
Mas espere: o que somos? Respondemos rápido: somos brasileiros. Legal, então este comercial está nos dizendo para termos orgulho disso, para termos orgulho de sermos nós mesmos. Espere (novamente): mas por que? Por que eu diria a alguém para ser algo se ele já é? Por que eu diria a alguém para ter orgulho de ser o que é? Oras, só nos resta concluir, como algo que está implícito nesse comercial e que é sua razão de ser, que ou o brasileiro não sabe bem o que é, ou, se sabe, não tem muito orgulho disso.
Realmente é muito complicado afirmar o que é ser brasileiro. Pergunto: o que é ser brasileiro nessa terra de imigrantes europeus e asiáticos, de ex-escravos africanos fartamente explorados e desumanizados, de índios também explorados e dizimados? É ser nascido no Brasil e fruto da miscigenação? É falar o português brasileiro? É gostar de futebol, de praia, de cerveja e guaraná? É vangloriar nosso folclore (poucos conhecem), cantar MPB com sotaque carioca (poucos ouvem), gostar de nossa maravilhosa literatura (poucos lêem), expressar nossa gratidão por essa terra “tão rica” (poucos conhecem), curtir um samba de breque (poucos sabem o que é)? Quando tentamos responder a essas perguntas, estamos na verdade expressando uma representação que fazemos ou queremos fazer de nós mesmos. Ela vai nos dizer, na verdade, mais sobre nossa visão do que é ser brasileiro (mesmo que seja resultante de uma “larga experiência” de observação) do que sobre a “realidade” propriamente dita. E essa visão é tudo menos precisa.
É nesse vago mercado de idéias sobre o brasileiro que esse comercial quer vender seu produto: alguém que tem orgulho de si e que não desiste nunca, digno, pacífico, trabalhador, sincero, original, peculiar, singular, criativo, inventivo e esforçado. Um tipo de brasileiro com o qual, esse sim, podemos ter orgulho. Alguém que, quando em profunda adversidade, não deixa de lado a honestidade (e, portanto, não rouba, mata ou sequestra), mantém o senso de justiça e luta pacificamente com suas próprias forças para mudar o cenário. Deixando a análise de toda essa ideologia burguesa de lado — ops, perdoem o palavrão! —, podemos entender porque um produto como esse (a imagem de um brasileiro trabalhador, digno e vitorioso) tem seu mercado.
Se repararmos bem, na televisão, nos jornais, nas conversas cotidianas, ser brasileiro é motivo de piada, chacota ou desgosto: âncora do progresso, corrupto, miserável, inculto, violento, sujo, favelado, esfarrapado, mal-educado, desocupado, estorvo, dependente, subserviente, fora da lei. Já ouvi frases complicadas como, por exemplo, “deviam jogar bombas nas favelas” ou “o brasileiro precisa mesmo é deixar de ser preguiçoso e botar a mão na massa” — mais diretas e ideológicas, impossível. A representação (ou imagem, se preferir) que o brasileiro faz de si é tudo menos positiva. Há poucas exceções, como nas épocas de Copa do Mundo e, quem diria, eleições. A negatividade é tão marcante que logo podemos lembrar de outros comerciais e programas de televisão, além deste, que tentam falar do Brasil como um país do futuro, moderno, com potencial, forte, que reconhece como traço de sua identidade a diversidade e a tolerância com o diferente — algo muito complicado de afirmar ou aceitar como verdade unânime, se pensarmos nos diversos conflitos sociais que presenciamos por aqui.
Para concluir, passo a palavra à Hebe, apresentadora do SBT, cuja frase a seguir — que foi pronunciada em um de seus programas — nos é muito reveladora. Ao elogiar o trabalho de um excelente grupo de mágicos brasileiros, ela disse: “Nem parece que estamos no Brasil! Me fez lembrar de Las Vegas”.
Mário de Souza Neto é brasileiro e assume que tem tremendas dificuldades para entender o que é ser um.
Titulo: Orgulho de ser
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 17 de junho de 2005
Resumo: O brasileiro não desiste nunca!
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O Brasil é o país do futuro.