Ovada

Crônica por Mário Neto
12 de fevereiro de 2004

Esses dias fui me lembrar de algo que me dava horror quando ainda estava no ginásio (ou ensino fundamental, para os que gostam de dar nomes novos para o que é velho e não mudou). Como quase sempre, a lembrança desse horror me fez rir. Como a distância - nesse caso, temporal - ameniza algumas coisas, não?

Toda criança, pelo menos é o que parece, gosta de aniversários. Se não for pela festa, que seja pela idéia de que aquele dia é só dela. E recebe mimos, esfregadas na cabeça, apertões na bochecha, e a velha frase: "como você está ficando grande". Claro que não escapei dessa. Mas não é esse o horror de que estou falando.

Era horror mesmo quando alguém na escola descobria que era dia de seu aniversário. Era um desastre. O fim do mundo e da picada. Tudo podia acontecer, menos isso. A razão era simples: dia de aniversário era dia de ovada.

Para evitar que isso acontecesse valia de tudo. Não ir à aula era o primeiro e mais fácil. Quando não havia saída, o silêncio era a opção. Fingir-se de estranho, não conversar com colegas, não dar pistas a eles… Afinal, vai que eles refrescam a memória e se lembram que é seu aniversário?

Eu apliquei essas duas técnicas. Ambas funcionaram. Mas, como a vida parece uma piada e gosta de pregar peças, numa terceira vez elas não funcionaram. E os acontecimentos que vou relatar aqui foram reais. Não estou aumentando… (Bom, como eu era criança talvez tenha aumentado um pouco.)

Aconteceu que um amigo - não me lembro quem, a memória também prega peças, como a vida - lembrou-se de meu aniversário e, querendo ver o circo pegar fogo, avisou a todos da sala.

Pronto. Fiquei branco. Gritos de "ovada! ovada!" se misturavam com o ar de perversidade infantil que se espalhava pela sala de aula.

Eu já imaginava: estava perdido. Aqueles caras grandões, espertos, loucos por me ver massacrado com dúzias de gemas e claras no rosto, rindo da minha cara… A minha imaginação havia criado um cenário de pavor e medo. Eu daria tudo para poder escapar daquilo. Tudo.

Mas no fim da aula, como uma luz divina, não se lembraram da ovada. Saí de fininho, em silêncio, sem nem olhar para os lados. Quando me vi na rua, um alívio imenso me fez sorrir. Pena que não tenha durado muito.

Alguns gritos me fizeram olhar para trás. Vi uma cambada de crianças - veja como nem sempre crianças são pueris e inocentes -, umas armadas com ovos e outras com farinha, ávidas por me ver lambuzado.

Como era de se esperar de um rapaz corajoso, eu corri. E corri muito. Tanto que me peguei pensando no meio da correria o que era aquilo que me dava tanta velocidade.

A cena que ficou guardada, aquela lembrança da qual comentei que me fez rir, era a de eu correndo à frente, distante meia quadra de uma renca de garotos gritando e armados com ovos. Uma cena cinematográfica, uma imagem perfeita do desespero infantil frente às suas impotências diante da sociedade que lhe abriga e lhe ensina: o mundo é mal e não é feito para bonzinhos; se é seu aniversário, não comemore, corra!

Qual foi o resultado final? Oras, tenho que me gabar um pouco. Minhas pernas entraram em tamanho desespero, a vontade de fugir dos ovos foi tão maluca, que quando fui perceber eu já estava entrando em casa - pela janela, diga-se de passagem - e ninguém me seguiu até lá. Mas também não quero me vangloriar demais. Atribuo minha velocidade ao desespero e à descarga de adrenalina. Sem eles, tenho certeza de que eu teria sido alvo fácil.

Espero, com essa história, não ter passado uma certa nostalgia boba. Daquela de dizer que isso hoje não existe, ou que existe e é um horror, que não é tão bom como antes e coisas do tipo. É apenas uma lembrança gostosa, assim como tenho tantas das que aconteceram comigo a tão pouco tempo.

E é fato: o universo infantil tem e cria fantasmas que ficam marcados. Se posteriormente serão lembrados como piadas ou como desgraças, deixo a cada um a resposta.

Mário de Souza Neto gosta de ovos mexidos e fritos. Os fritos têm que ter a gema mole.


Titulo: Ovada

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 12 de fevereiro de 2004

Resumo:

No dia do aniversário…

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6 Comentários

  1. Juliana disse:

    Vc me deu até vontade de escrever…

  2. Juliana disse:

    E eu quase dei uma ovada na minha mãe… :) Eu sou mesmo uma filha bem legal…O seu texto me troxe muitas lembranças… e é muito gostoso de ler…Apareça no meu blog… sociolouca.blogspot.com

  3. Claudia Lins disse:

    Legal o texto! Nunca levei ou corri de ovadas, mas sempre me senti pouco confortável em festas de aniversário, aquela sensação de surpresa previsível… a vontade de acabar logo com a musiquinha chata… Sei lá, me senti como você querendo pular a data…

  4. márcio disse:

    Mário, costumo dizer que nunca apanhei (pelo menos de outros garotos), mas já corri pra caramba!!!

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Prosa de primeira, Mário. Não li “nostalgia boba”, li uma reflexão madura, da fuga que se foi aos fantasmas que ficaram, num texto muito agradável. Parabéns.

  6. PH disse:

    Legal Mário. Vc expandir sua análise de um costume universal (ovadas no dia do aniversário) para a também universal maldade humana - que se encontra em estado bruto na sociedade infantil. A única coisa diferente em relação a minha própria experiência, é que eu nunca conseguia escapar das ovadas…:-)

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