Crônica por Alexandre Piccolo
1 de junho de 2004

No país em que o número de analfabetos se conta em milhões e leitura é privilégio ou virtuosismo (quiçá desvario), ainda há escritores que gostam de falar desta profissão. Ouvi, pela segunda vez ao vivo, uma mesma escritora falar de seu métier ? com notável gosto e entusiasmo. Lygia Fagundes Telles, sempre simpática e vivaz ? haja visto seus mais de oitenta anos que poderiam sugerir aos incautos certo ar sorumbático ou desanimado ? mais uma vez agradou a auditório misto e cheio, ouvintes diversos e ávidos por uma definição, uma pincelada ou um sopro que seja sobre a "obscura" vida de escritor. Ou melhor, de escritora ? segundo o preciosismo de plantão.
Pessoalmente, me desculpem, acho essa história meio chata. Para mim, escritor escreve. Pode falar e filosofar também, dar seus pitacos aqui e acolá, porém de preferência relacionados aos ossos do ofício - para evitar costumeiras gafes de comentaristas de futebol. Em primeiro (e principal) lugar, ela ou ele escreve. E ponto, esta é sua profissão. Que haja esperança, denodo, fé em Deus, palavreado, lembranças de família, histórias relacionadas a sexo, drogas e roquemrou, enfim, de tudo um pouco, é perfeitamente normal, mais que compreensível ? afinal, ainda somos humanos e não de Marte ou Vênus como querem sugerir certas ideologias. Entretanto, como certas explanações (ou devaneios) enfocam menos o objetivo e mais o "falatório alienígena", a conversa matreira acaba se desvirtuando para o vago discurso do escritor que redescobre o avesso do reverso e ilumina a luz das estrelas - "papo-cabaço" que acaba me enfadando. Não que isso não possa ser verdade mas, para mim, o escritor escreve. Faça chuva ou sol, a noite esteja quente ou fria, sopre a brisa no verão ou tome seu conhaque no inverno, o escritor escreve, não enrola. Viva em castelo de vidro ou na favela, redija pelado ou vestido, o escritor escreve, trabalha as palavras para que estas trabalhem ? aí, ao infinito.
O paralelo mais simples que consigo fazer é com o padeiro. O padeiro acorda bem cedo, antes do galo, faz a massa e a enrola em pequenos pães e os dispõe um a um na forma a ir ao forno. Este foi aquecido logo quando abriu a padaria, para receber a massa na forma e gerar uma fornada bem quentinha, cheirosa e gostosa de pães. Por isso ele se chama padeiro. A cada novo dia o pão nos parece o mesmo, igual, mas o padeiro percebe as pequenas diferenças que existem entre os pães de cada forma e de cada nova fornada. Há dias mais frios, em que a massa não ganha ar o bastante ? o pão fica mais compacto; já a secura de outros dias resseca a massa por dentro. A umidade dos dias chuvosos não deixa o pão crescer o suficiente e este acaba ficando um pouco mais mole. Nos dias quentes, parecem sair pães perfeitos, nem igual os de ontem, nem os de amanhã. Nem mesmo parecidos com os da fornada da tarde. O padeiro tira, da repetição rotineira de seu ofício, além do pão nosso de cada dia, o aprimoramento constante de sua própria arte. Sua técnica paulatina e meticulosamente se aperfeiçoa a cada nova leva de pães ao forno, ainda que não se discuta com os clientes quais dias são mais quentes ou chuvosos.
Deixada a padaria de lado, não me fascina tanto a conversa de escritor pelo escritor. Gosto sim das boas histórias de suas vidas, de seus casos inenarráveis em letras não impressas. E desta conversa a consagrada escritora está cheia ? sempre inteligente e esperançosa. Sem dúvida é inesquecível ouvir Lygia Fagundes Telles rememorar algumas de suas inspirações, sua convivência com grandes nomes de nossa literatura, suas lembranças de Oswald e Mário de Andrade, as irônicas cenas de posse na ABL, sua juventude e vivacidade de mulher vivida e bem relacionada, intelectual que soube bem fazer o pão de cada dia. Além de falar, com um renovado prazer, sobre tão "curiosa e terrena" profissão.
Titulo: Papo de escritor
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 1 de junho de 2004
Resumo: O vendedor vende, o desenhista desenha, o médico medica, o pintor pinta, o…
Legal, Alexandre. Realmente avesso do reverso é coisa de acidente aeronáutico e, o que é pior, acidente dos brabos. Já ouvi a Lygia em outras ocasiões: sempre viva, sempre vivaz. E simples. O resto é conversa fiada de “culturetes” e cia. Que dos livros, só lêem as orelhas.
Curti muito a crônica. Acabei não indo ao encontro por pura besteira, mas enfim. Escritor escreve é uma ótima. Acaba de uma vez com os “papos-cabaços” e pronto. Só faço um pontinho quanto à comparação padeiro-escritor: pode passar *apenas* a idéia do esforço, apesar de eu não ter lido assim. Tem tanto escritor que escreve bebaço… e até saem coisas boas, por que não? Nessa, fico contigo: prefiro as histórias ao suposto “charme” e “mistério” do escrever e do escritor.
ótima síntese do encontro com a Lygia Fgundes Telles, Alexandre. Gostei da sua observação sobre o papo “cabaço” que volta-e-meia surge nestes encontros, com aspirações filosóficas para entender o mundo, a partir das memórias da infância e do céu estrelado. Um saco. Bom mesmo é ouvir a Lygia contando as histórias dela - história de vida - e ler esta sua precisa comparação entre o escritor e o padeiro. abs!
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Alê, Já ouvi a Lygia algumas vezes e ela sempre me fascina… Qto ao ofício de escritor: concordo, nada de papo, vamos escrever…