Passarinhos passarão…

Crônica por Alexandre Piccolo
28 de janeiro de 2003

Um velho e famoso adágio popular diz que "mais vale um pássaro na mão do que dois voando". Curioso neste ditado é que só nos damos conta de sua metafórica "sabedoria" quando as três aves já há muito voam longe no céu e não mais adianta "chorar o leite derramado", segundo seu outro parente próximo. Ornitólogo ou não, houve quem experimentasse desta verdade de inúmeras maneiras, quando o computador súbito desliga e todo o trabalho de horas a fio se perdeu no espaço mágico dos bits, quando se quis trocar de namorada por namorico e acabou ficando sozinho, até mesmo quando se apostou contra e a favor e - adivinhem - o jogo acabou empatado. E das incontáveis lições de erros e mais erros (pois acerto é algo difícil…), vamos aprendendo e descobrindo os obscuros e misteriosos caminhos em que nos metemos, talvez tão perdidos como Dante no princípio de sua comédia:

Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura,

ché la diritta via era smarrita.
(*)

Felizmente, diversos filósofos e escritores nos lembram do acaso e da vicissitude por trás de cada novo passo nesta jornada. Sem tentar tomar partido do destino ou do livre arbítrio, fato é que a surpresa inescrutável bem diante de nossos narizes é, talvez, a maior dádiva que o presente instante pode nos reservar - com todas as reflexões ontológicas e morfológicas possíveis. E de perdas e ganhos, ambos muito bem equilibrados na equação da vida, aprendemos uma maneira de tirar a prova dos nove no final de tanta conta. Fernando Pessoa versou sobre todo este mistério de maneira mais nobre, suscinta e poética, dizendo simplesmente não haver nisso tudo mistério algum.

Bem verdade, já não sei mais que caminho tudo isso toma, mas continuo tateando neste breu de palavras "em estado de dicionário", segundo a eterna calma de Drummond. Por fim, jogando tudo fora - já que não viemos para cá com nada, afinal - certamente não deve haver preocupação que reste. Niilistas, pessimistas, marxistas ou qualquer outro "ista" ainda não inventado, vamos vivendo correndo atrás dos passarinhos, ainda que os tenhamos aos montes nas mãos ou nas gaiolas, quem sabe em busca de uma lufada de vento mais forte rumo às novas Índias. E assim vamos…

Ah, um passarinho verde acabou de pousar em minha janela e me contar: "o olho não se cansa de ver, nem o ouvido de ouvir; mas não há nada novo debaixo do sol."

___________

(*) No meio do caminho de nossa vida

me reencontrei numa selva escura,

em que o caminho reto era perdido.


Titulo: Passarinhos passarão…

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 28 de janeiro de 2003

Resumo:

não é citação do Mário Quintana nem brincadeira linguística - bem, nem eu sei direito sobre o que é o texto que escrevi.

,

1 Comentário

  1. EDUARDO disse:

    Boa reflexão sobre a toada do “qualquer escolha implica uma perda.” O destino porém mostra-se único, independente do caminho, e o mistério elucida-se na própria via escolhida.

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