Poesia e Cântico Negro

Crônica por Mário Neto
29 de julho de 2004

Rápido contexto aos leitores daPatada. Este texto foi escrito - confesso, às pressas - para ser publicado no jornal "A Semana", veiculado na pequena cidade de Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo.

***

Da série "As coisas habituais e o hábito das coisas"

Para muitos, ler poesia pode ser uma grande chatice. Sim, chatice. Quem sabe algo bonito para impressionar uma linda garota. Outros talvez achem "coisa de intelectual" ou de "gente requintada". Afinal, "quem é simples não lê poesia". É bem provável, também, que seja pedra no caminho daqueles que querem enfrentar o vestibular - é preciso assumir que passei bons apuros.

Mas vamos supor que alguém goste de verdade. Confessar aos vizinhos, jamais. Dizer que gosta de poesia pode soar pretensioso. "Nossa, o cara é metido a intelectual". Claro que, dito para a pessoa certa, pode ter o efeito contrário. "Nossa, o cara é sensível". Gostar de poesia não poderia ser apenas gostar de poesia?

Eu diria que acontece com a poesia o mesmo que com as outras coisas que temos por aí: de algumas gostamos muito, de outras achamos um saco. Filmes, por exemplo: há os bons e os ruins. Estamos longe de acreditar que todo filme é bom. Duvido que alguém tenha gostado de todos que assistiu. Prefiro, muitas vezes, deixar de assistir a ver um ruim. Isso não é desmerecer o trabalho de quem o produziu, mas simplesmente uma questão de gosto - ou seria desgosto? Enfim…

Há também as pessoas de quem gostamos e aquelas para quem fazemos cara de muxoxo. Com algumas simpatizamos, com outras não queremos muita conversa e assim caminha a humanidade. Música, então, nem se fala. Eu poderia ficar horas lembrando de discussões sobre o que é ou não música boa. Rock ou axé? Nacional ou internacional? Falar de música é como falar de time. Qual é o melhor, mesmo? Corínthians ou Palmeiras?

Poesia, portanto, não é - pelo menos nisso - diferente do resto. Talvez não tenha o mesmo apelo que o cinema ou que a música têm hoje com seus aparatos tecnológicos. Cinema é cool, dá para levar a namorada e ficar curtindo na frente da telinha. Os efeitos especiais impressionam e as bilheterias também. Música nem preciso falar, está em todo lugar. Mas poesia… algo que parece tão solitário…

Disse tudo isso apenas para apresentar uma poesia da qual gosto muito. Polêmica, emotiva, viva, envolvente, reflexiva. Talvez alguns não a entendam. Mas quem disse que há um modo correto de interpretá-la? Felizmente - ufa! - não há.

Alguém dizer que não gosta de poesia só por ter lido uma ou outra que tenha considerado chatas é o mesmo que alguém dizer que não gosta de música porque ouviu uma irritante batida do "É o Tchan".

Alegrem-se: há coisa boa por aí. Dito isso, segue a danada.

Cântico Negro

de José Régio, pseudônimo do poeta português José Maria dos Reis Pereira (1901-1969)

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

No acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre da minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é facil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes patria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguem.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguem me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

uma onda que se alevantou,

um átomo a mais que se animou…

Nao sei por onde vou,

Nao sei para onde vou,

- Sei que nao vou por aí!

Mário de Souza Neto gosta de poesia, cinema, música e um bom jogo de futebol. Tem horror a músicas do "É o Tchan", mas nem por isso deixa de gostar de música brasileira.


Titulo: Poesia e Cântico Negro

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de julho de 2004

Resumo:

O que a poesia e o “É o Tchan” têm em comum.

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4 Comentários

  1. Michele disse:

    gostei mto apesar de nao conhecer bem a obra do autor. Lembrou-me (talvez por viagem) o poema Lisboa Revisited do Pessoa, sei que sao dois e refiro-me ao primeiro…..o que acha?

  2. Henrique FOCA disse:

    Graaaande Marinho!!!Curti muito a poesia e a coerência do argumento em defesa da poesia…como sou um dos que diziam não gostar, confesso que fui inspirado por vc a começar a gostar!!Um grande abraço!! Tudo de bom!!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Legal, bela poesia.

  4. Samira disse:

    Adorei este poema!

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