Crônica por Mário Neto
3 de agosto de 2005
Faz tempo que não publico aqui naPatada. Aliás, faz tempo que não escrevo pra valer. O mínimo que fosse: começar uma idéia ou um esboço dela e ver até onde poderia ir. Um conto, pelo amor de Deus. Mas nem isso. (Afirmar que não tenho escrevido é falso. Tenho sim, mas sobre temas que ficariam fora de contexto e esquadro se publicados.)
Entretanto, faz pouco tempo ? na verdade muito pouco ? que li este curto conto de Lygia Fagundes Telles. Gostei tanto que farei como fez o Thiago, nosso outro colunista. Publico aqui para mais cinco minutos edificantes.
Cavalos Selvagens
O homem de grandes negócios fecha a pasta de zíper e toma o avião da tarde. O homem de negócios miúdos enche o bolso de miudezas e toma o ônibus da madrugada. A mulher elegante faz Cooper e sauna na quinta-feira. A mulher não elegante faz feira no sábado. A freira faz orações diariamente em horas certas. A prostituta faz o trottoir todos os dias em certas horas. O patriarca joga bridge e faz amor segundo o calendário. O operário joga bilhar e faz amor nos feriados. Homens, mulheres e crianças ? todos com seus dias previstos e organizados: amanhã tem missa de sétimo dia, depois de amanhã tem casamento. Batizado na terça e na quarta, macarronada, que a feijoada fica para sábado, comemoração prévia do futebol de domingo, vitória certa, ora se!… As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, umas de ouro, outras de aço, estas mais simples, mais complexas aquelas lá adiante, azeitadas para o movimento que é uma fatalidade, taque-taque, taque-taque… Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável.
Às vezes, por motivos obscuros ou claros, uma rodinha da engrenagem salta fora e fica desvairada além do tempo, do espaço ? onde? A máquina prossegue no seu funcionamento que é uma condenação, apenas aquela rodinha já não faz parte dessa ordem. "É um desajustado" ? diz o médico, o amigo íntimo, o primo, a mulher, a amante, o chefe. Há que readaptá-lo depressa à engrenagem familiar e social, apertar esses parafusos docemente frouxos. Se o desajustado é um adolescente, mais fácil reconduzi-lo com a ajuda de psicólogos, analistas, padres, orientadores, educadores ? mas por que ele ainda não está nos eixos? Por que tem de haver certas peças resistindo assim inconformadas? Não interessa curá-lo, mas neutralizá-lo, taque-taque, taque-taque.
Pronto, passou a crise? Todos concordam, ele está ótimo ou quase. Mas às vezes o olhar tem aquela expressão que ninguém alcança e volta o fervor antigo, cólera e gozo nos descompromissamentos e rupturas ? aguda a lembrança do cheiro do mato que recusa o asfalto, o elevador, a disciplina, ah! Vontade de fugir sem olhar para trás, desatino e alegria de um cavalo selvagem, os fogosos cavalos de crina e narinas frementes, escapando do laço do caçador. Na história de Arthur Miller, eram os pobres cavalos selvagens destinados a uma fábrica que os transformaria num precioso produto enlatado. O instinto, só o instinto os advertia das armadilhas nas madrugadas. E fugiam galopando por montes, rios, vales ? até quando?
Inexperiência ou cansaço? Cavalos e homens acabam por voltar à engrenagem. Muitos esquecem mas alguns ainda se lembram e o olhar toma aquela expressão que ninguém entende, ânsia de liberdade. De paixão. Em fragmentos de tempo voltam a ser inabordáveis mas a máquina vigilante descobre os rebeldes e aciona o alarme, mais poderoso o apelo, taque-taque TAQUE-TAQUE!
Inútil. Ei-los de novo desembestados: "Laçá-los é o mesmo
que laçar um sonho".
Titulo: Sem crônica, mas com ‘Cavalos Selvagens’
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 3 de agosto de 2005
Resumo: Um texto de Lygia Fagundes Telles.
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Adorei a escolha. Lindo o conto! Agora seja um cavalo selvagem, esqueça o contexto, o esquadro, ou pelo menos uma engrenagem e publique os seus não-publicados.
Beijo.