Ulisses e o “management”

Crônica por Eduardo Socha
4 de outubro de 2005

Basta uma conversa de bar para questionar o absurdo daquele conjunto de valores que praticamente determinaria o comportamento do homem emancipado no século XXI. São os valores do homem “empresário de si mesmo”, do self-made-man e do go-getter, insuflados agora por uma espécie de ética da mercadoria. Alcançando um estágio surpreendente na evolução do capitalismo, o fetiche da mercadoria atinge agora o próprio núcleo do comportamento profissional. Ou não é espantoso que o antigo “departamento pessoal” das empresas tenha naturalmente se transformado em “departamento de recursos humanos”? Ou também não é espantosa a expressão “mercado de trabalho”? Você certamente já ouviu frases do tipo “sou considerado um bom recurso, mas preciso constantemente me atualizar”. Como se vivesse adequadamente rotulado e precificado, acomodado em prateleiras virtuais à disposição do empregador, o sujeito imediatamente se identifica a um recurso suplementar da empresa, assim como o prédio, a mesa, o bebedouro, o fax, o computador (que, aliás, precisa constantemente ser atualizado). Se a ordem do dia é gerenciar recursos, não importa se você é humano ou uma caixa de canetas. Tudo vira jogo contábil, quantificável, que desconsidera a diferença qualitativa entre os inúmeros “recursos”.

De fato, a transição paradigmática para aquilo que Robert Kurz chama de “filosofia do management” é recente. Ocorre que a economia vem discretamente ocupando o lugar antes destinado à teologia e à filosofia, como mecanismo de produção de idéias e de motivação comportamental. Assim, os valores da “filosofia do management” tendem a orientar todos os domínios da ação humana. São valores que trazem consigo a falsa idéia de flexibilidade temporal e geográfica, cuja imagem paradigmática vem daquela propaganda que mostra o feliz empresário em posse de seu laptop, sentado à beira da praia, acessando sua conta do banco ou enviando sua planilha por uma rede sem-fio. A liberdade aqui é ilusória, pois o “management” estabelece uma heteronomia incontornável, dissolvendo até mesmo a idéia de trabalho e tempo livre.

Voltando às conversas de bar, certa vez dois economistas informavam a mesa de que era normal, segundo a religião do mercado, um livro de Homero ser equivalente a um do Paulo Coelho. A cisão entre o valor de uso e o valor de troca deveria ser coisa evidente, portanto. Fizeram a curva de precificação, demonstrando o ciclo de vida de um bem de consumo qualquer, na qual incluíram “produtos culturais” como a Odisséia. Depois, numa outra rodada, disseram que todas as coisas têm preço. Insistiram: todas as coisas, incluindo afetos. Pois nada escaparia à mão invisível do mercado e, agora, à “filosofia do management”. Nem mesmo o cântico das sereias, misterioso, divino e fatal; aquele que somente Ulisses, preso ao mastro de seu navio por ordem dada a seus marinheiros, teve condições de ouvir.


Titulo: Ulisses e o “management”

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 4 de outubro de 2005

Resumo:

Considerações sobre a “filosofia do management”

2 Comentários

  1. Bertrand Russel disse:

    O grande problema do mundo é que os bobos e os fanáticos estão sempre absolutamente convictos de suas posições, enquanto os sábios estão sempre cheios de dúvidas.

  2. Mário disse:

    Marx já cantou o fetichismo, por um lado, a coisificação, por outro. E está lá n”O Capital”: no capitalismo, tudo é mercadoria, e tudo é feito com a intenção da troca (o uso é só uma condição). Depois Adorno também cantou a mercantilização da cultura (a tal “indústria cultural”). Depois, Foucault cantou a interiorização da disciplina, a gestão de si mesmo. Agora não é apenas o empregador quem exige “qualificação”, “melhoria contínua”, eficiência no trabalho: o prório funcionário já internalizou, cobra de si mesmo. O tal proativo… Enfim, pescou bem, Socha! Parabéns.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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