Crônica por Márcio Sampa
7 de abril de 2003
O telefone toca no meio da manhã. Um efusivo “olá” é rapidamente substituído por um “quando foi?”. Não restam dúvidas, trata-se de notícia ruim. Alguém que fazia parte de nossas vidas havia desaparecido, a forma eufemística de se dizer que alguém morreu.
Ouço tudo à distância e, impulsionado por um misto de emoções e pensamentos, me aproximo de minha mãe. Em seu rosto corre uma lágrima, rapidamente removida diante de minha presença. Não entendo porquê, mas ela sempre tenta se fazer de forte em minha presença.
Temo pelo que virá a seguir. Torço para que minha previsão não se concretize, mas é tarde. “Engrácia morreu. Você me acompanha ao velório?”. Aconteceu. Ela me convida para fazer o passeio mais desagradável na vida de uma pessoa. Confrontar-se com a morte… Puxei minha mãe. Faço-me de forte. “Vamos lá”, respondo.
No mesmo velório, no mesmo local, onde há poucos anos dei o último adeus a uma pessoa querida…. Ali está Engrácia, não, não, o corpo de Engrácia. A quanto tempo não a via? Dez? Quinze anos? Não me lembro. Seja como for, não mudou nada em relação à memória que guardava de sua aparência. Repousa, como que adormecida, no interior do esquife. Sua filha mais nova, a adotiva, chora largamente, inconsolável, indignada com os anjos da morte, que lhe tomaram a mãe, a única que conheceu. Do outro lado, a mais velha das mulheres, chora discretamente, esquecida num canto, como alguém que só mais tarde, no escuro de seu quarto, se entregará à dor da perda.
O primogênito, o único varão, afasta-se. Contido, apenas observa. Um olhar distante de quem reflete sobre e sob a perspectiva de quem nunca mais verá aquela pessoa, aquele ente. Não se aproxima em nenhum momento do ataúde. Tem um lindo casal de filhos. Talvez prefira pensar no futuro…
No salão fúnebre os demais se dividem em reações diversas, que se notarão também no cemitério. Alguns conversam soltamente, matam as saudades, marcam encontros e até sorriem pela possibilidade de estreitar laços afrouxados pelo tempo. Outros guardam silêncio respeitoso, choroso até, enquanto eu apenas analiso e procuro memorizar as cenas que presencio. Talvez as transforme em uma crônica, não sei…
Mas um grupo em especial chama muito a atenção. Os mais velhos. Parentes, compadres e comadres, que tantas vezes riram com aquela mulher forte e doce. Tantas vezes sentados ao redor de uma mesa, comendo, se divertindo com as piadas e gozações saudáveis. Natais, casamentos, nascimentos, passeios. É hora de dizer adeus. São dezoito horas e o esquife vai baixar. Devolver à mãe Terra o que Ela mesmo deu. A tristeza do momento atinge seu ápice. É a confirmação daquilo que se temia. Nada mais será como antes. E pior. Outra certeza perturbadora se cristaliza numa frase proferida pelo velho José Carlos: “E assim, um a um, todos os nossos amigos vão nos deixando…”
É hora de deixar o Campo Santo. Aquele passeio horrível chega ao fim. Mas não será pela última vez….
Titulo: Um passeio horrível
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Crônica
Data de publicação: 7 de abril de 2003
Resumo: Todos nós, em diversos momentos na vida, precisamos nos deparar com a morte.
Acompanhar os funerais de uma pessoa querida é sempre a “melhor” maneira.
Excelente!
Excelente!
Um texto que causa arrepios e lembranças a qualquer um que o leia. Parabéns!
Muito boa crônica, Sampa. Solene e reflexiva como o momento narrado. E, é claro, permite que nos deparemos com questões que evitamos levantar… mas que volta-e-meia surgem e um dia vai surgir definitivamente.
O Rei Salomão, patrono deste fraterno espaço, em Eclesiastes 6:6 nos deixa uma pergunta: “Porventura, não vão todos para o mesmo lugar?”. E no capítulo seguinte, em seu segundo versículo, responde de uma maneira por demais sábia: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração”. Que nós, ainda vivos, lembremo-nos da instrução do pregador. E que os versos deste homem que bem soube viver lhe sejam força e ensino, além da lembrança de nossa efemeridade sobre a terra. Belíssimo texto!
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Márcio, parabéns !Adorei o texto !beijoLú