Um sanduba na cápsula, por favor

Crônica por Eduardo Socha
22 de setembro de 2003

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The Last Supper, © Science Ltd.

Com título no mínimo provocador, a exposição da Tate no Parque do Ibirapuera cristaliza em poucas obras a múltipla expressividade dos últimos 40 anos da arte britânica. Art Revolution: A Bigger Splash sugere o compromisso com algo impactante, subversivo, inovador. De fato, a coleção traz um potente esguicho de variantes estéticas, pois é impossível sair de lá sem ter sido atingido por alguma obra. Percorrendo os quatro andares da Oca, saltam à vista - desde instalações a fotografias pessoais - elementos que talvez traduzam as questões mais prementes do sujeito contemporâneo. Aí, portanto, cabe a justificativa do título.

No óleo sobre tela Seated Figure de Francis Bacon, um homem tranqüilamente acomodado em sua poltrona tem a face dilacerada, quebrada em perspectivas cubistas. Não se define com facilidade seu estado, podendo assumir expressões de desespero, riso ou indiferença. Ao contrário do que se vê em Juan Gris ou Picasso, as linhas de Bacon não respeitam uma ordem geométrica. Formam um pequeno aglomerado, quase uma carnificina angustiante no lugar do rosto sem identidade. Na fugacidade dos traços, gravam-se múltiplos instantes, figuras de espírito que a convenção na pintura não extraía.

Poucos passos depois, um simples copo d?água recebe o nome de “árvore”. O papel logo abaixo reproduz uma divertida entrevista na qual Michael Craig-Martin explica como procedeu a “transformação”. O copo antes vazio, ao ser preenchido com água, teve sua essência modificada e - porque assim quis o artista ? aquela entidade agora é uma árvore, apesar do trote representativo que um copo cheio de água insiste em realizar - tudo muito compreensível, segundo ele. O abismo entre título e representação parece lembrar o famoso quadro de Magritte, no qual o desenho do cachimbo “não é um cachimbo”. Craig-Martin propõe uma nova aliteração dos jogos de linguagem.

Descendo ao subsolo, Damien Hirst apresenta um conjunto de serigrafias em que nomes de comidas e pratos do dia-a-dia aparecem como inscrições das conhecidas embalagens de remédios. Sanduíche 200mg em cápsulas, Almôndega em 30 tabletes, Omelete em tabletes de 8mg, Galinha concentrada em 20 mg/ml para administração oral, Batata Frita em unidades de 50 microgramas, são alguns dos exemplos. Sob o título The Last Supper ("A Última Ceia", 1999), a série de impressões comporta um acintoso debate em torno da relação com o tempo, aqui exposta em nossos hábitos alimentares. Na época do fast-food, do self-service, o intervalo para refeições é abreviado, como se o ato de comer denotasse um atraso vergonhoso da espécie, uma falha natural que deveria ser “remediada”. Assim, não chega a ser absurda a suposição de que um dia o fervedouro tecnológico, aliado ao pensamento do just-in-time corporal, possibilitará a ingestão de cápsulas time-savers sabor salsicha. Como disse uma amiga, seria inimaginável, décadas atrás, comprar lasanha congelada e prepará-la em poucos minutos no microondas. Hoje em dia, nem as pipocas, coitadas, escapam do microondas.

Subitamente, a exposição termina, volta-se para casa, liga-se a TV. Nela, a propaganda de uma operadora de comunicação móvel exibe apenas um cronômetro que marca dez segundos de diferença entre a reunião acertada através de seu produto e a mesma reunião agendada pelo celular comum. Dez segundos transformaram-se em apelo mercadológico, vendidos na TV. Encurtam-se até aqueles dez segundos de espera no celular comum, que são jogados na latrina temporal, inúteis e ineficientes para os novos mortais. Noutra campanha, todos devem experimentar a tal marca de cerveja, não importa a identidade. É então que se percebe a art revolution. A coleção da Tate transpassa os limites da Oca e dos museus: obras (ainda que anônimas e com intenções distintas) embebedam-se no cotidiano, sem que reclamem estatuto artístico. Nota-se que, daquele primeiro esguicho estético jorrado há 40 anos, a condensação do tempo e a dissolução da identidade foram as gotas que percorreram maior distância.


Titulo: Um sanduba na cápsula, por favor

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 22 de setembro de 2003

Resumo:

Falha natural que deve ser remediada

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3 Comentários

  1. Mário disse:

    Excelente! A evolução do texto é ótima e termina em bom tom: “obras (ainda que anônimas e com intenções distintas) embebedam-se no cotidiano, sem que reclamem estatuto artístico”. Perfeito! Parabéns!

  2. Sampa disse:

    Socha, quem me mandou a sugestão do texto foi Alexandre. Logo, atribua a culpa pelo comentário a ele. Somente morando em Sampa pra entender a verve do seus textos. Não que os outsiders (sem nenhum sentido pejorativo!) não possam entendê-los, mas este certo ar de desencanto com a vertigem do agora que não é mais agora, da vida que é usurpada pelo ritmo da metrópole e que, ao mesmo tempo, explode com as mil e uma possibilidades, só quem anda por estas latitudes e longitudes específicas pode sacar. Sei que vc. me entende. Vou até postar uma letra do Thomas Roth que define essa história melhor. Abraços patadianos.

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Engraçado, Socha, quando eu era criança, achava que no futuro iríamos comer comidas em cápsulas e comprimidos. Com o passar dos tempos, percebi que poucos prazeres são tão bons quanto o deliciar de um bom prato, quente ou frio, cheiroso e bem temperado. Assim, a idéia das cápsulas foi sendo aos poucos e naturalmente esquecida. Revê-la viva, nos moldes da “arte moderna” talvez seja mais do que um simples alerta de uma realidade uma vez sonhada… Curti o texto.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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