Uma questão de olhar

Crônica por Mário Neto
7 de abril de 2005

Costuma-se dizer que qualquer observação depende ou parte de um ponto de vista. Assim, na física, se quero saber a velocidade de um corpo, o ponto de vista é a posição e o movimento dos observadores com relação a esse corpo. (Alguém se lembra da velocidade relativa ou da teoria da relatividade?) Outro exemplo: no testemunho de um acidente de carro, também o ponto de vista é fundamental: onde estão posicionadas as testemunhas, o que estavam fazendo, quais as suas histórias de vida, etc. Ninguém duvida que o mesmo incidente seja descrito de formas diversas pelas testemunhas em questão, que concordarão em certos aspectos e discutirão em outros ? especialmente se a discussão se voltar para quem estava certo ou errado, que sai do factual para cair na interpretação e no julgamento. (Ou o próprio "fato" já é interpretação? Xi…)

Da mesma forma, um observador pode também se “aproximar” ou se “afastar” daquilo que quer analisar. Pode querer se aproximar, chegar mais perto, para enxergar o que quer em seus detalhes, em suas diferenças e minúcias, pois são elas que lhe interessam. Por exemplo, para que um médico possa fazer um diagnóstico, deve realizar exames cada vez mais detalhados e minuciosos caso sinta dificuldades em chegar a uma firme conclusão. Mas um observador pode, se preferir, lançar um olhar mais distante, entender como diferentes fatos se relacionam, apesar de suas inúmeras diferenças individuais. É bem provável que o vírus da AIDS tenha sido identificado dessa forma, já que ele não é o responsável direto pelas doenças observadas nos pacientes, mas sim pelo enfraquecimento do sistema imunológico que permite uma instalação mais fácil dessas doenças. Se os médicos observassem apenas os detalhes, ou seja, cada doença específica, como poderiam chegar ao HIV?

Há muitos outros exemplos.

Se quiséssemos enxergar o homem muito de perto, poderíamos dizer que é na verdade uma cadeia complexa de átomos ? de carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, etc. ? que estão associadas de tal forma que nos permite multiplicar, movimentar, enfim, nos chamar de seres vivos. (Imagine se nossos olhos tivessem a capacidade de enxergar nesse nível de detalhe?) Distanciando, podemos dizer que o homem é formado de células, depois tecidos, sistema complexo de órgãos, etc. Podemos afastar nosso ponto de vista ao ponto de dizer que o homem é portador de corpo e alma, matéria e espírito.

Poderíamos fazer a mesma “brincadeira” ao pensarmos sobre o indivíduo. Cada pessoa ? eu, você, seu vizinho, seu genro, sua mãe, seu pai, um japonês qualquer que esteja comendo Sushi numa mesa de um restaurante de Tokyo ? é muito diferente uma da outra. Até aí tudo muito óbvio. Mas não haverá algo comum por trás das inúmeras e infindáveis diferenças pessoais? Será que vivemos num caos de diferenças? Se isso fosse totalmente verdade, ficaríamos sem saber como viver juntos. Ficaríamos também sem entender uma série de fenômenos. Por que a maioria avassaladora dos jovens no Brasil se casa antes dos trinta anos de idade (há um século atrás era vinte)? Por que os filmes água com açúcar tradicionais ? há poucos que nos fazem refletir sobre a complexidade de um relacionamento entre homem e mulher ? continuam a manter suas bilheterias em alta se cada paulistano, por exemplo, é diferente um do outro? Por que, para citar um estudo clássico de um sociólogo francês (do século XIX) chamado Durkheim, existe uma taxa constante de suicídios para cada nação observada? (Oras, se cada um se mata por um motivo específico e pessoal, como explicar uma taxa constante!?) Por que uma parcela significativa dos negros brasileiros ? chamem de negros, mulatos, morenos ou o nome que quiserem ? continuam com dificuldades no mercado de trabalho, na universidade, nas empresas, etc.? (Escolaridade? História? Incapacidades da “raça”, como muitos já quiseram ? ou ainda querem ? afirmar?)

É, portanto, uma questão de olhar. Há riquezas tanto na aproximação quanto na generalização. Os detalhes podem confundir tanto quanto uma visão ampla e geral. Os riscos estão em ambos: na generalização grosseira e intencional (que muitas vezes esconde um viés ideológico: “todo político é corrupto”, “todo pobre é um criminoso em potencial”, “toda pessoa que não trabalha é inútil”, “toda ser humano tem que ser útil”, “todo brasileiro é estúpido e todo europeu é bonito, inteligente e educado”) e nos milhares de detalhes que não nos deixam ver além do horizonte. O olhar, idealmente, deveria poder se aproximar e se distanciar sempre que fosse desejado, sem perder de vista as “verdades” presentes nas duas abordagens.

E como já disse Nélson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. Quer generalização melhor do que essa?

Mário de Souza Neto tira os óculos de grau quando quer enxergar o todo e os coloca quando quer ver os detalhes.


Titulo: Uma questão de olhar

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 7 de abril de 2005

Resumo:

Generalizar ou não generalizar, eis a questão.

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2 Comentários

  1. PH disse:

    pois é, Marião. no geral ou no detalhe, a vida vai nos apresentar suas imperfeições e suas belezas… sempre. hei, jã to generalizando de novo…

  2. Bill Shakespeare disse:

    I could be bounded in a nut-shell, and count myself a king of infinite space…

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