Crônica por Alexandre Piccolo
13 de dezembro de 2002
Voltava ontem pra casa por volta das seis da tarde, trânsito congestionado e minha mente vagando numa nuvem pessimista impulsionada por uma solidão infindável - rotina destes últimos dias. Tinha por companheiros o barulho e a fumaça, enquanto meu olhar vagava no nada das placas e anúncios ao redor.
Pensava eu que, enquanto ou quando solteiro, deseja-se incessante e incansavelmente a companhia do sexo oposto, para os fins mais variados (e que acabam se resumindo no grand finale sexual). E naquele solitário instante esse pensamento era tão claro e aprazível como a última bunda das inúmeras que passavam na calçada. No meio deste devaneio e desilusão me deparei com o casal no carro ao lado, senhor "bigodinho-carrancudo" e senhora "enrugada-mal-humordada", ambos calados e emburrados, sem pronunciar uma só palavra naquela vazia companhia solitária. De alguma maneira aquilo me remetia aos sarcásticos quadrinhos do Angeli que passei boa parte da tarde admirando e rindo, mas que deixaram esta pesada incredulidade no convívio primoroso e saudável entre homem e mulher, para ser suscinto.
Tive então um surto de felicidade instantânea: estava livre, pronto para qualquer nova aventura que soprasse diante de meu nariz, com um sorriso imenso nos lábios, me vangloriando ante a dupla carrancuda ao meu lado. Pensei com orgulho: não tenho filhos pra sustentar, contas atrozes pra pagar, preocupações com aposentadoria, tenho saúde de ferro e tudo de bom e melhor que alguém pode desejar e sonhar, além duma longa, promissora e próspera vida pela frente. E mesmo com tudo isso, como era possível me sentir deprimido naquele momento?
Talvez daí tenha tirado a explicação para os elevados números de suicidas jovens das estatísticas. Certamente é mais fácil um rapaz ou uma moça, com todas as virtudes imagináveis, num momento único de "down hill", perder as estribeiras e decidir embarcar no outro mundo. Afinal, seus vínculos nesta montanha-russa não passam da poltrona simples no vagão. E enquanto a cadeira ao lado não é preenchida, vamos vagando indefinidamente por estes altos e baixos de adrenalina pura e vicejante. E digo isto pois cheguei em casa, deixei a tristeza no carro, peguei carona até São Paulo e fui assistir ao fantástico show do baixista Stanley Clarke (acompanhado do excelente baterista Gerry Brown), nada como estar pronto para mais uma nova aventura que sopra diante do nariz - mais improvável e inusitado impossível para aquele fim de dia tristonho e cinzento.
Titulo: Vento que sopra diante do nariz
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 13 de dezembro de 2002
Resumo: Divagações sem rumo de uma descida sem-fim na montanha-russa de um fim de dia diferente.
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