Crônica por Eduardo Socha
1 de fevereiro de 2004
Por mais descartável que seja outro texto sobre o tema, não consegui me furtar da litania em torno dos 450 anos de SP. Bem que tentei, afinal ninguém agüenta tanto alvoroço midiático. Entretanto, o peso obstinado de ser catarinense e de morar já há algum tempo na paulicéia curvou-me a pena nesta crônica. E já que 53% dos habitantes vêm de fora, sinto-me habilitado a fazer um breve (e anódino) comentário.
Não sei se o conceito existe, mas urbanisticamente São Paulo parece mais uma anticidade. Pelas contingências relacionadas a violência, poluição, desacertos políticos e falta de um real projeto expansionista, houve aqui uma nítida privitazição dos espaços de convivência. As calçadas disformes recuam tímidas para ceder às grandes avenidas ? no trânsito, o carro supera todos os meios públicos de transporte juntos, e com ele se arrastam 120km de lentidão em média por dia. A área de lazer por excelência concentra-se nos shoppings, que fabricam o ambiente climatizado e livre das intempéries do caos externo. Aquele espaço intermediário, fora do eixo casa-trabalho-shopping, fica portanto negligenciado: estranhamente, as ruas servem apenas para vincular as ilhas de convivência do mar paulistano. Não existem cafés com mesinhas nas calçadas e praças cheias de sombra, como imaginava Peter Burke. A pulsação é outra, não há vez para pedestres (“aliás, que eles fazem nas ruas?”) e parques (“para quê, se roubam espaço?”). A monotonia verticalizada, cinzenta e funcional prevalece sobre a desalmada composição urbana. Ser uma árvore em São Paulo é quase um ato vergonhoso.
Contudo, a resposta para o que mantém 10 milhões de potenciais masoquistas não se reduz à oportunidade de emprego. Embora isso ainda constitua o maior atrativo, é possível observar uma beleza subjacente à metrópole, ancorando nela os seus moradores. Não custa lembrar o adágio de Gilberto Dimenstein: “gostar de SP não é para principiantes.” É uma beleza desenhada pelas mesmas ilhas que, de tão únicas, compensam o suplício. Por exemplo, a sorveteria para alérgicos na Augusta. Tudo bem, você não é alérgico mas precisa desesperadamente de um repelente de pombo; encontrará numa loja 24 horas da Freguesia do Ó. Veja que são confortos absolutamente necessários, cuja disponibilidade acaba por seduzir qualquer um. Chapéus vietnamitas? Rua 25 de março. Nessas horas, o ardente paulistano retruca a seus opositores: “pois como é que alguém consegue viver em outro lugar, em que não se possa comprar um mísero repelente de pombo?” O argumento, convenhamos, é forte. Todo o enaltecimento frívolo destes 450 anos talvez seria outro se os repelentes de pombo fossem louvados.
Na verdade, ilhas como a Sala SP, Masp, Cinesesc, magnetizam o catarinense destas tortas linhas e formam uma espécie de Pasárgada dispersa, da qual se torna difícil o êxodo. Cada habitante tem a sua. De todo modo, acredito que no dia em que encontrar um chapéu vietnamita em Timbó, encontrarei também um grave dilema.
Titulo: Viva o repelente de pombo!
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 1 de fevereiro de 2004
Resumo: Ninguém agüenta mais artigo sobre os 450 anos. Perdão, mas aqui vai outro.
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Gostar de Sampa com olhos líricos é pra poucos, ainda mais quando se tem à mão a perspectiva de se curtir a Ilha da Magia com freqüência. Fazer o quê? A cidade é como aquela mulher feia que nos encanta e apaixona de maneira quase inexplicável.