A Ferramenta do Conhecimento

Ensaio por Paulo Henrique
21 de dezembro de 2003

Advertância:Escrevi este texto ao final da minha faculdade de jornalismo, em 2000.

Meu nome é Paulo Henrique de Oliveira Ferreira. Tenho 21 anos e fui criado no Sul de Minas, às margens do Rio Grande, na represa de Furnas. Meu pai, Paulo de Tarso, trabalha até hoje naquela hidrelétrica como técnico de segurança no trabalho e Vera Lúcia, minha mãe, se aposentou como diretora de escola estadual, antes de falecer aos 48 anos. Com ela adquiri o hábito de leitura e a propensão para o jornalismo.

A infância em Minas foi meio irreal, numa comunidade de 2 mil habitantes, sob as asas da estabilidade estatal. O lugar era muito bem estruturado, tecnologia e meio ambiente se equilibravam, com todos estabelecimentos e instituições necessárias desde supermercado até diversas denominações religiosas. E mesmo com este aparato todo, tinha árvore, rio, cachoeira, campinho, um único irmão, 6 anos mais novo, uma cabana na árvore construídas por nós mesmo e todas essas coisas interioranas.

Neste ambiente cresci em estatura e em espírito. Comecei a ler antes de entrar na escola, descobri a biblioteca da minha mãe e adorava o Novo Testamento, gosto adquirido no berço de família presbiteriana. Dos livros maternos, li os livrões verdes do Sítio do Picapau Amarelo, a série vagalume, infanto juvenis de catálogos, afora os que minha mãe obrigava a ler, e relutante, tomava gosto por autores como Fernando Sabino e Zélia Gattai.

Foi assim até no segundo colegial em 1995 quando minha mãe morreu subitamente de embolia pulmonar, nos deixando sem ação. Com um pai visivelmente perdido, desempenhando a função paterna e materna na vã tentativa de suprir nosso vazio, Paulo Renato, o caçula, e eu aceitamos a orfandade como fato da vida e até hoje só trocamos meias palavras sobre o evento.

Sem querer, assumi outra postura. Resolvi encarar o porvir, fiz as malas para cursar o terceiro colegial em Riberão Preto, comecei a conhecer o rock´n roll e todos seus aditivos. Neste ritmo prestei jornalismo como única opção, vindo parar em Campinas, na Pontifícia Universidade Católica, em 1997. Agora vejo que o motivo pelo qual eu escolhi o jornalismo como minha profissão foi se revelando de forma cronológica e diretamente proporcional à minha concepção do que era o jornalismo.

Já em Furnas, às vezes respondia “Jornalista” à clássica pergunta “O que você vai ser quando crescer?”. Os interlocutores, intrigados com a resposta, me questionavam. Eu falava que era por gostar de ler, escrever e de Inglês. Esse raciocínio acompanhou-me até a faculdade, quando vi a necessidade de mudar a resposta, pois os novos horizontes não permitiam uma idéia tão genérica.

Nos primeiros contatos com o jornalismo sempre vinha um argumento do tipo “a profissão é interessante” ou ainda, num lapso messiânico, “mudar o que está aí”. Ou seja, a perspectiva de vários aspectos como mercado de trabalho e mídia não deram razões mais plausíveis para justificar a escolha da profissão. Tudo continuava muito nebuloso.

A nuvem começou a desfazer quando encontrei um novo tipo de pensamento, relacionado com toda a vida e experiência humana, nas obras literárias universais. Devorei toda obra de Machado de Assis, algum James Joyce, algumas de Honoré de Balzac, Goethe, entre outros. Busquei e aderi a pensamentos germânico-pessimistas de Schopenhauer e Nietzche e refutei-os por C.S. Lewis, pensador cristão do século XX. Além do conterrâneo Carlos Drummond, com quem aprendi ter alguma sensibilidade.

E a ampliação desta ótica refletiu na relação com a faculdade e no modo como conduzia a vida. Comecei a tocar numa toada diferente, mais reflexivo e ponderado; percebi as possibilidades do currículo de jornalismo que, por ser mal explorado tanto por alunos, professores e instituições, é demasiadamente criticado; apliquei conhecimentos adquiridos pela literatura nos trabalhos, obtendo boas produções.

A relação direta da leitura com o estudo do jornalismo foi se firmando até eu perceber que a fronteira entre o jornalismo e a literatura é tênue, tão tênue quanto entre a literatura e o pensamento ? quase imperceptível. Por exemplo, Joaquim Maria Machado de Assis foi jornalista crítico da imprensa carioca, foca aos 21 anos e redator no Diário do Rio de Janeiro, onde cobria sessões do senado. Honoré de Balzac, conhecedor e crítico da imprensa francesa. Em seu pequeno libelo, “Os Jornalistas”, suas críticas à imprensa do século XIX continuam atuais. Até C.S. Lewis, o pensador cristão já citado, usou o rádio para compor sua obra. Esses exemplos apenas ilustram um sem número de pensadores que fundiram a pena do jornalismo à pena da literatura e possibilitaram novas experiências em ambos os campos.

Todas essas descobertas, com o que já tinha vivido, misturadas com a fé cristã, perdida e recuperada, mais a vontade de ler e escrever formaram um coquetel de dúvidas apontando algumas respostas, entre elas o que eu quero do jornalismo.

O jornalismo é mais do que profissão. Com ele, é claro, devo conseguir emprego, estabilidade e crescimento profissional. Mas por ele, posso conciliar as necessidades cotidianas de um jornalista (manter-se informado, saber cada vez mais sobre diversas áreas, desenvolver um espírito crítico) com o meu crescimento como homem, pensador e consciente.

O jornalismo será uma ferramenta para desenvolver o conhecimento. Na carreira, vou entrar em contato com várias opiniões, lidar com todas sem julgar nenhuma, mas ao mesmo tempo formar uma visão própria, embasada em fatos e teses, que sustentarão minhas idéias, minhas obras ? jornalísticas ou literárias. E assim, ver que a vida não passou em vão, pois permitiu-me criar e sanar dúvidas e poder dar uma contribuição nesse mosaico de visões que é o pensamento humano, resultando em uma verdade bem maior, pertencente a nenhum de nós.


Titulo: A Ferramenta do Conhecimento

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 21 de dezembro de 2003

Resumo:

O que eu quero da minha profissão?

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6 Comentários

  1. Bruno disse:

    E agpra. PH? O que pensas a respeito de tua profissão? Deixaste-me curioso.Abraço e SUCESSO!

  2. Herbie disse:

    Dá-lhe, PH!!!Prum recém-formado, já tava dando ótimas patadas!!!Valeu!

  3. martim vasques disse:

    Sinceramente, acho melhor vc rever seus conceitos, PH. Jornalismo é informação, não conhecimento. Isso é para ciência, filosofia, artes. O jornalismo é apenas uma máquina de propaganda ideológica e aqui no Brasil usada para enganar trouxas.

  4. leo disse:

    boa pê, voce é caboclo seguro de si mesmo gosto de ver isso. espero um dia achar a minha real vocação. quem sabe até jornalismo? um abraço

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Jornalismo” talvez seja só um nome (deveras desgastado…) para algo que é mais do que profissão e reúne aspectos tão variados de uma vida plural - felizmente, com rumos bem traçados e guiados. Grande sucesso, irmão!

  6. Juliana disse:

    PH,Fantástico o seu texto. Envolvente, emocionante, empolgante. Muito legal mesmo. Bjs.

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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