A nostalgia no cinema

Ensaio por Eduardo Socha
28 de março de 2004

Três filmes emblemáticos, exibidos recentemente nos cinemas, - “Peixe Grande”, de Tim Burton, “Invasões Bárbaras”, de Dennys Arcand, e “Adeus, Lênin!”, de Wolfgang Becker ? apesar das óbvias diferenças formais, convergem (já foi dito) para um mesmo foco temático: a tentativa de reconciliação entre pai e filho - ou mãe e filho, no caso de “Adeus” - em um mundo destituído de utopias. Se a bondade do leitor permitir, é igualmente possível especular que “Dogville”, de Lars von Trier, também trata, pelo menos como subtexto, de uma intrincada relação pai-filha, que aliás acaba se tornando decisiva para a conclusão moralizante do filme.

A coincidência impressiona, pois nasce de filmes com propostas comerciais e estéticas distintas. Do blockbuster norte-americano, que se apóia num referencial quase mitológico do país, ao experimental dinamarquês, que produz por outro lado uma crítica amarga à moralidade dos EUA, tal conflito familiar conduz praticamente todo o eixo dramático das produções.

Seja sob o prisma político (como em “Invasões” e “Adeus”), ou comportamental (“Peixe Grande” e “Dogville”), nota-se um esforço dos filhos para tentar compreender as escolhas paternas, ou seja, o tema não se limite ao simples choque entre gerações. De maneira geral, os filhos sempre aparecem como os mais “responsáveis” (ou mais "enquadrados" à nova ordem, segundo o tucanamente correto). Entretanto, o rompimento necessário para esta adaptação abriu-lhes uma sintomática fenda emocional.

O mundo contemporâneo, da lógica dos mercados, do “alisamento” da moral, do politicamente correto, já está distante daquele cindido em blocos políticos, separado pelo Muro de Berlim, permeado de revoluções e fantasias. Assim, um filho jornalista exige verdades do pai fantasista, contador de histórias; um filho operador de mercado financeiro não compreende o desdém do pai professor de sociologia; um filho preserva a todo custo a saúde da mãe, que não pode admitir o fim do comunismo; e a filha busca o significado moral para humildade que não encontrou no pai gângster.

Em todos os casos, contudo, ocorre uma espécie de redenção final, um acerto de contas, que altera a visão de mundo dos filhos. Como se a frustração emocional decorrente de uma realidade fria, sem grandes utopias, pudesse ser minimizada pela reconquista afetiva. Talvez a própria opacidade ideológica de seus valores tenha motivado o desejo de confronto com o passado, de (re)conhecer defeitos e virtudes de outra época.

Cada diretor dá seu testemunho sem apelar a discursos éticos ingênuos, polarizando bem e mal, justo e injusto. Parece claro que não existe lado certo nem errado, e as narrativas querem sublinhar apenas a necessidade do diálogo. Mas o que verdadeiramente une esses quatro filmes notáveis, para além da velha discordância entre gerações, é o sentimento primário de uma intensa e indescritível nostalgia.


Titulo: A nostalgia no cinema

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 28 de março de 2004

Resumo:

Pequenas notas sobre ?Peixe Grande?, ?Invasões Bárbaras?, ?Adeus, Lênin!? e “Dogville”

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1 Comentário

  1. Mário disse:

    Socha, tenho me sentido um “alienado” com relação ao cinema. Faz tempo que não assisto filmes, quanto mais esses quatro tão recomendados pelos amigos. De qualquer forma, é sempre um exercício interessante relacionar quatro histórias distintas pelo prisma da relação pai-filho. Muito legal!

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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