Ensaio por Márcio Sampa
23 de dezembro de 2003
Antes de iniciarmos nossa aventura textual pelos mistérios que envolvem
os temas do título, é preciso que façamos duas coisas. A primeira é uma
ponderação sobre os objetivos da mesma. Nossa intenção é fazer uma
análise quase científica, desprovida de paixão ou ardores de tipo
religioso. A segunda é a necessidade de voltarmos ao século IV d.C.
para um maior esclarecimento sobre o raciocínio que se desenvolverá
adiante. Neste período, a nascente Igreja Católica, em um de seus
primeiros concílios, definiu o que valeira e o que não valeria para os
dogmas religiosos, que se consolidariam nos séculos seguintes,
principalmente durante a Idade Média, e que nos afetam as percepções
até hoje.
As principais noções que comumente temos sobre temas relacionados a
religiosidade em geral, e particularmente a ocidental, são heranças
diretas do ethos fabricado durante este período histórico. Heranças
absolutamente nocivas para um conhecimento mais autêntico e útil para a
humanidade. Como ponto de partida, analisaremos a Trindade.
Conhecido no Ocidente pelas figuras de José, Maria e do menino Jesus,
ou ainda, como o Pai, o Filho e o Espírito Santo, este princípio
cósmico tem suas similaridades nas mais diversas formas religiosas da
Antigüidade. Para ficarmos apenas com dois exemplos, lembremos as
figuras egípcias de Hórus, Osíris e Ísis ou as hindus de Brhama,
Vishnu e Shiva. Em todos os casos, invariavelmente, encontramos as
figuras do deus pai, da deusa mãe e do deus menino. Nos grupamentos
humanos mais "primitivos" esta figura tríplice se verificará na
adoração ao deus sol, à deusa Terra (Gaia para os antigos gregos) e ao
resultado deste casamento, o dom da criação sobre a Terra, em forma de
colheitas e bençãos dos céus.
Muito bem, o segundo princípio da criação, o Filho, corresponde à
manifestação do deus pai sobre a Terra. No caso dos antigos, as boas
colheitas como dissemos, e no caso dos cristãos, o Verbo. Daí a confusão
que se faz ao dizer-se que Deus tem seu Filho (o Cristo), que ao mesmo
tempo também é Deus. Segundo as mais antigas tradições, a palavra
Cristo pode assumir dois valores sermânticos. Cristo pode ser um
substantivo, designando um princípio cósmico, divino, e pode assumir o
caráter de um adjetivo, ao associar-se a uma figura humana, como por
exemplo Jesus Cristo, ou ainda, Jesus, o Cristo. Aquele que incorporou
a substância divina do Cristo em si mesmo.
Mas afinal, que substância seria esta? Como pode alguém assumir uma
substância cósmica? Seria esta uma blasfêmia? A questão da blasfêmia
deixemos para os mais aficcionados, pois, como dissemos antes, este
ensaio tem por objetivo aproximar-se da ciência. Somente isto. Já a
substância (substantivo) assumida por um indivíduo (adjetivando-a)
estaria relacionada à perfeita comunhão entre a criatura e o Criador.
Quando um indivíduo elevou-se em pureza de espírito e caráter a tal
nível, mediante experiências verdadeiras e muito íntimas sobre e com a
divindade, ele (ou ela) iniciaria um processo de transformação interna
inexorável, pois como se diz, quem sabe, sabe. Ao atingir tal grau de
pureza e sabedoria, o indivíduo passaria a vibrar cada vez mais e mais
de acordo com emanações divinas, espiritualizadas, e não mais de acordo
com as fraquezas humanas. Convenhamos, tarefa para raríssimas pessoas.
Daí a especificidade e a grandeza de um Jesus Cristo (em forma de
substantivo e adjetivo).
O simbolismo do Natal serve para nos mostrar o quão delicado é o
processo do nascimento do Cristo entre os homens. Vem ao mundo
perseguido (o rei deste mundo quer matá-lo) e nasce num estábulo, entre
figuras animalescas, que representam as paixões humanas. Mas ali estão
também o Pai e a Mãe, que nunca abandonam o Iniciado, o Mestre.
Este grande Ser, ao se manifestar sobre o mundo, se manifesta como um
deus vivo, que de fato é, exatamente pela comunhão de pensamento,
sentimento e vontade que tem com o Criador, e por isso aqueles que
convivem com ele dizem: este é Deus que está na Terra.
A grandeza e a beleza do Natal estão exatamente na possibilidade de
reflexão que ele nos oferece. Reflexão não somente sobre nossos
miseráveis enganos do dia-a-dia, mas sobre as possibilidades de
realização que temos como seres humanos sobre o planeta, e quanto tempo
desperdiçamos de nossas vidas com tolices que só nos afastam de um
objetivo maior, só nos afastam do Cristo, enquanto substantivo e
adjetivo, em nós mesmos.
Feliz Natal a todos!
*Algumas fontes de referência bibliográfica para este ensaio:
Os Manuscritos do Mar Morto – Laperrousaz, E.M.–São Paulo, Cultrix,
1992
Bhagavad Gita – Trad. Rohden, Huberto – São Paulo, Martin Claret,
s.d.
O Pensamento Filosófico da Antigüidade – Rohden, Huberto – São
Paulo, Martin Claret, s.d.
Mitos Hindus e Budistas – Coomaraswamy, A.; Nivedita – São Paulo,
Landy Editora, 2002
A Evolução Divina da Esfinge ao Cristo – Schuré, Édouard – São
Paulo, Ibrasa, 1982
Os Grandes Iniciados - Schuré, Édouard – São Paulo, Martin Claret,
1987
Bíblia Sagrada – Brasília, Sociedade Bíblica do Brasil, 1969
As Três Montanhas – Weor, Samael - São Paulo, Movimento Gnóstico,
1992
Titulo: A Trindade, o Cristo e o Natal*
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 23 de dezembro de 2003
Resumo: Ensaio sobre os mistérios que envolvem a figura do Cristo, enquanto derivado da Trindade Cósmica
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Poderíamos chamar isto de uma análise imparcial, que ora é científica, ora é um conjunto de questionamentos naturais. A compreensão da fé como construção histórica foi muito bem colocada. Belo texto, Sampa! E feliz natal… :^)