Anonímia

Ensaio por Alexandre Piccolo
26 de setembro de 2003

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© Mina

Em primeiro lugar, esqueça que este texto foi escrito por Alexandre Piccolo. Afinal, quem é Alexandre Piccolo? Dentro das desprezíveis dúvidas suscitadas pela pergunta, questiono uma em especial: o valor de autoridade e propriedade inalienáveis do texto escrito, conferido por nossa moderna sociedade, que suplanta simples encanto e fascínio ante as palavras no papel (ou na tela do computador). Não exatamente de ontem ou hoje, saber se Platão, Agostinho, Gregório de Matos, Flaubert ou qualquer outro nome (ou falso nome) escreveu certas linhas parece ganhar importância maior do que o valor do próprio texo em si. Pode parecer antiquado, mas ler uns escritos e gostar deles, com compromisso ou ao léu, ainda me fascina mais do que conhecer os gloriosos nomes que os escreveram. Uma ressalva a priori: não quero minimizar o estupendo efeito de uma leitura acurada, bem articulada e especializada sobre qualquer texto, por menor que seja. Ao contrário, quero sim potencializar o poder libertário e inefável de uma leitura comum, despretensiosa e prazerosa sobre um excerto, um conto, uma novela, um romance ou sobre toda a coleção da comédia humana, todos, a meu ver, tesouros culturais que unem aqueles que amam a leitura. Por instantes de devaneio, me deparo estupefato, vislumbrando um grande tecido de conhecimento e cultura que se acumulou, por séculos e séculos, para… eis outra importante questão: para quê?

Salomão, ou outro sábio qualquer ou um conjunto de sábios da antiguidade hebraica, legou-nos uma hierática verdade que continua a me deixar perplexo sempre que repito tão cabais versos: não há limites para fazer livros. Fernando Pessoa fala, já em poesia mais “moderna”, que livros são papéis pintados com tinta e o Sol doira sem literatura. De um a outro, atribuímos a autoria, geralmente exclusiva, de verdades-além-texto a um autor ou autora específicos, únicos, os quais, conscientemente (é de se supor assim), proferiram maravilhosas passagens para nos desnudar o mundo diante dos olhos, para nos descortinar os bastidores tão secretamente guardados por trás das palavras, cujo poder estarrecedor se tem deslocado progressivamente da idéia para um suposto dono da idéia. Idéia tem dono?

Uma bela alternativa crítica de leitura (e aqui tenho que deixar o crédito do insight à breve conversa em fim de aula com o professor Alcir Pécora) propõe tirar o texto do próprio autor. Leiamos como quisermos o que fulano ou cicrano escreveu. Mesmo que nada daquilo que sentimos ou cogitamos tenha sido inspiração ou devaneio para tão nobres palavras cujo honrado dono libertou aos leitores. Pode ficar fulo ou contente. Escreveu, alguém leu; logo, tudo se transforma. Não será este um dos propósitos do texto escrito?

Imagino que quando os primeiros homens escreveram algo, tentaram congelar o tempo, tentaram guardar um momento, um sonho, uma experiência de vida ou uma simples vontade, idéia ou teoria dentro de alguns rabiscos de um desenho: garatuja puramente simbólica. Certamente percebiam que a convenção não continha por completo o que tentavam expressar, com reações que vagueavam entre frustração e euforia. Acredito que não lhes passava pela cabeça tirar proveito próprio (autoral, financeiro, cabalístico ou de qualquer natureza) de uma representação que nascia num instante mágico - ainda que se orgulhassem de tal feito, não dos rabiscos. Fossem figuras de uma caçada ou a palma da mão suja sobre a rocha*, representar o mundo em idéia num símbolo, para que alguém contemplasse e melhor imaginasse todo aquele conjunto de emoções e divagações, era mais importante do que a simples propriedade que o intelecto ou a razão fazia sobre uma geniosa invenção. E por incrível que pareça, com a evolução dos tempos, esfacelamos gradativamente esta capacidade fantástica de nos maravilharmos diante de nossa própria imaginação, incentivada e exercitada pela leitura de um texto qualquer. Propagandear (ou papaguear) a autoria de um texto, normalmente por falsa erudição, em inúmeros círculos, ganhou mais notoriedade que o prazer puro e simples da narração, do encadeamento das idéias. O assunto e os questionamentos aqui levantados são por demais complexos e difíceis para serem explorados assim tão efusiva, banal e rapidamente, mas cogitá-los me deslumbra um horizonte infinito não expresso por estas palavras - para ser mais uma vez Romântico… Ou independente da escola, enfim, o que é tudo isso?

Ler é maravilhar-se consigo debaixo do próprio nariz. E a conclusão que tiro é sempre assim: foi bom ler este texto? o que ele mudou para mim? Ler tais palavras me fez ir além do que já havia pensado? Senti-me bem? Este simples e inusitado encadear de pensamentos fez alguma, ainda que breve, diferença? Ou, para me localizar em meu próprio tempo, algo quase como “esse filme foi legal”? Se sim, ótimo; talvez guarde este “falso nome” para redescobrir futuras experiências literárias, talvez indicar um bom passatempo aos amigos. Se não, quem sabe relembre este nome para… pensar duas vezes antes de perder meu precioso tempo. Assim justifico, breve e parcamente, porque nos apegamos tanto à autoria e aos nomes em simples ou grandes escritos, além de vã-vaidade ou fome-de-vento. E, por favor, esqueça quem escreveu tudo isso.

______

* uma curiosidade: o logo do site APATADA representa uma figura do neolítico, encontrado num livro de logomarcas, cuja legenda dizia ser a marca de uma mão sobre a rocha, encontrada em escavação arqueológica.


Titulo: Anonímia

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 26 de setembro de 2003

Resumo:

Palavras e rabiscos de um autor que não exige direitos e, por favor, quer ser esquecido.

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7 Comentários

  1. crislen e edinelma disse:

    eu queria SABER O SIGNIFICADO DE ANONIMIA bjs cris e edinelma

  2. Anônimo disse:

    Contraditório.

  3. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, surpreendente e verdadeiro… Mas, bem você sabe, as idéias têm donos sim… seria impossível se não o tivessem. Um beijo, Tia Marilda

  4. PH disse:

    Alexandre, grande texto. Daquelas grandes obras patadianas, que inovam e inspiram. Parabéns!

  5. herbie disse:

    Hehehe. Ótimo, Autor!Mas ainda acho os nomes importantes exatamente para isso: para indicarmos o que ler aos amigos, sem ter que levar consigo o que foi lido. Ou para lembrar o que ler (ou não) de novo. Um resumo (nome e sobrenome apenas) é mais rápido, não ocupa tanto espaço.

  6. Mário disse:

    Primeiramente, é um ensaio muitíssimo bem elaborado. O tema é daqueles de fervilhar discussões, e o ensaio conseguiu provocar algumas. Autoria? A quem pertence uma idéia? Um livro é um legado individual? Coletivo? Mas cabe uma questão: onde estaria o ego desses autores? Não seriam suas obras extensões de seus egos? Não há dúvidas de que tais obras, não importam quais sejam, não sejam contidas apenas por esse resquício de alguém que escreveu. Mas também não resta dúvidas de que as leituras, os tempos e o calor das obras carregam consigo mais que apenas os pensamentos do autor: colam-se às obras interpretações, visões, etc. Este ensaio coloca a questão de maneira primorosa e a discute da mesma forma. Parabéns.

  7. Eduardo disse:

    Embora discorde num raquítico aspecto - sou tentado afinal a crer na genuína e exclusiva autoria de algumas poucas idéias, cabendo portanto a noção de “dono” -, permanece minha admiração pela surpreendente lucidez e ousadia do texto, sem dúvida um dos mais brilhantes desta Patada. Podia mesmo servir como prólogo do saite. Das questões levantadas no fim de cada parágrafo ao imperativo final, o artigo revela agudeza crítica e clareza fascinantes, principalmente ao invadir um perigoso vespeiro temático. Para ser lido e relido. Parabéns!

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