Contra o mal de cada tempo

Ensaio por Paulo Henrique
28 de janeiro de 2003

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J.R.R. Tolkien

Terminei de ler o livro "O Senhor dos Anéis". Diante desta onda de divulgação da obra de J.R.R. Tolkien, acabei cedendo meu tempo e dinheiro para adquirir e ler os três volumes da saga de Frodo, Gandalf, Aragorn e seus companheiros.

O livro é extremamente bem trabalhado. Em "A sociedade do anel", o primeiro volume da trilogia, a descrição de Tolkien sobre o universo da terra média, sobre o condado, as famílias de hobbits e os detalhes de cada aspecto envolvido, chega a ser até irritante. Em seus arroubos megalomaníacos, Tolkien até exige a tradução literal dos nomes do personagem para cada língua que este livro for traduzido - por exemplo: Frodo Baggins vira, em português, Frodo "Bolseiro". O próprio Tolkien se veste como um tradutor deste livro que, supostamente, teria sido escrito em uma língua já extinta, numa espécie de pré-história intermediária da humanidade. Para o leitor desavisado, esta primeira parte chega a ser um suplício. Não é por acaso que o escritor irlandês C.S. Lewis, amigo de Tolkien e um dos revisores da trilogia, deixava de lado sua postura cristã e exclamava indignado a aparição de "another fucking elf!".

Mas depois que o leitor atravessa a árdua introdução, a história vai tomando forma. Sem perceber, todo o minimalismo descritivo de Tolkien começa a fazer sentido e a missão de Frodo e seus camaradas de destruir o Anel do Poder se torna mais envolvente e clara. Tanto o leitor quanto o pequeno hobbit são devidamente esclarecidos sobre o Anel forjado por Sauron - o Senhor do Escuro - que tem o poder de governar homens, elfos, anões e todas as criaturas da terra. Este anel, que há muito foi separado de seu criador, agora tenta voltar para que o Mal se instaure em definitivo na terra média. Para isto não acontecer, o anel deve ser destruído no fogo das montanhas de Modor - a casa de Sauron.

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Pôster clássico de
“O Senhor dos Anéis”

Então, para chegarem até Modor, os hobbits recebem orientação de Gandalf - um mago que curte fumar erva - e de outros personagens, como homens, elfos e anões. Aí tem vem um monte de complicações: um dos homens da turma é o descendente do rei dos homens e tem que reivindicar seu trono; o anão e o elfo são povos que se estranham, mas que acabam se dando bem; além de orcs - soldados do mal - que seqüestram hobbits, isto sem falar em árvores falantes, cavaleiros fantasmas, demoníacos bichos alados e muitas guerras, mortes que tentam impedir a destruição do anel.

Quando o leitor nota, ele não está apenas envolvido com a trama, mas sim, faz parte dela, uma vez que se identifica como um representante da raça humana, tão bem simbolizada pela força de Aragorn e inconstância de Boromir. Assim como seus personagens e artifícios mágicos, o livro exala um poder de integrar o leitor na história. E é justamente este aspecto que torna o livro tão atraente e conduz legiões de fãs para Rolling Player Games (RPG) e outras maluquices que dão corpo ao ecossistema de idéias ao redor de "O Senhor dos Anéis".

Mas o foco de tudo isso é uma história sobre as dificuldades e sobre o mal que há em todos os tempos. Para superá-los, há a bravura e a condução dos fatos através de uma Sabedoria Superior - que embora não explicitado - é a fonte do Bem que aprimora Gandalf, que dá realeza a Aragorn, livra Frodo diversas vezes da morte através de seu fiel amigo Samwise, a fé e que os hobbits depositaram em Gollum - por não falar na piedade - entre outros acontecimentos.

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Os hobbits: o bravo Sam,
Frodo, Mery e Pippin

Estes valores, na época em que foi escrito (após as duas guerras mundiais) deixavam claro a intenção de Tolkien: remar contra a maré nazista de purificação das raças e violência contra a vida. O mundo estava vivendo um período sombrio, quando exércitos marchavam para destruir povos e dominar raças, de acordo com o pensamento teutônico de superioridade de raças e poder, baseado na mitologia nórdica, que fala de anéis, Elfos, anões, orcs e muitos outros seres. Assim como Richard Wagner embalou os sonhos de Hittler com a história do Anel de Ouro, utilizando a glória da mitologia alemã, Tolkien mostrou que até um anão peludo e rancoroso é dono de uma dignidade implacável e que não podemos julgar e tirar sumariamente o que não temos condição de criar: a vida.

A idéia de "O Senhor dos Anéis" foi uma espécie de antídoto para os ares clássicos da arte anti-semita e de purificação do Bom, Belo e Verdadeiro. Tolkien mostrou ao mundo que as raças não são divisões para julgamentos e sim, que devem se complementar na luta contra o mal. Independente de sermos belos elfos, toscos anões, sensíveis hobbits ou falhos humanos (seja de Gondor, de Rohan, do leste ou do oeste), podemos optar em lutar contra o mal do nosso tempo. Afinal de contas, estamos em um mundo moderno e não mais na terra média. Como previu o elfo Legolas, a semente dos homens durou mais que a existência dos elfos e dos anões. Cabe agora a nós, homens, dar conta da demanda que nos foi designada e lutar contra o mal do nosso tempo como uma raça única, filhos de um mesmo povo, súditos de um mesmo Rei.


Titulo: Contra o mal de cada tempo

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 28 de janeiro de 2003

Resumo:

Uma análise de “O Senhor dos Anéis”, obra que combateu o mal de seu tempo

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1 Comentário

  1. Mário disse:

    Ótima análise sobre a trilogia, PH! Tive também as mesmas impressões que você na leitura. Mas ainda me falta o finalzinho…

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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