Galeria dos presidentes brasileiros

Ensaio por Paulo Henrique
9 de abril de 2003

Pois é. Cada país tem o presidente que merece. Afinal de contas, os dirigentes de uma nação são o reflexo de seu povo. Veja bem, os EUA têm uma trajetória que prova esta teoria. Os gringos eram trabalhadores, lutaram de verdade contra a Inglaterra e conquistaram sua liberdade com homens corajosos como George Washington e Abraham Lincoln. Agora os paraíbas do América ficaram ricos, pararam de estudar, só assistem basquete, futebol americano e baseball, só comem porcarias, além de terem ídolos como Will Smith e Britney Spears. Toda esta ignorância e prepotência resultou em figuras com Bill Clinton e George Bush. Matt Groening comovido, agradece.

Até a Argentina, quando era um país, tinha uma espécie de Paulo Maluf melhorado, o Juan Domingo Perón, que conseguia pelo menos governar aquela coisa. Hoje, como os hermanos não têm economia e futebol que se preze, logo, eles não têm presidente.

Acompanhando este raciocínio, vamos verificar a história do Brasil, uma comédia de maus costumes que levaram este pedaço de terra do anonimato direto para o fundo do poço. Para mostrar a trajetória do povo brasileiro, vamos selecionar os principais governantes (e destacar os mais inúteis) que vão nos contar passo-a-passo os rumos tomados para esta nação antes de tomar esta direção definitiva para o fim anunciado:

Deodoro da Fonseca

(15.11.1889 a 23.11.1891)

Primeiro presidente. Peça rara no último. Assumiu um país que nem o antigo monarca queria mais. Como não tinha ninguém corajoso suficiente para assumir o cargo mais alto da nova república, acharam o primeiro desocupado no exército e o nomearam "Presidente do Brasil". Pegou o mico e mostrou-se um representante à altura, dando altos vexames como o de desafiar um dos ministros para duelo à mão armada. Como não poderia deixar de ser, estreou o mais alto posto da nação com uma patética e retumbante renúncia.

Floriano Peixoto

(23.11.1891 a 15.11.1894)

Uma espécie de Itamar Franco do século XIX. Vice-presidente de Deodoro da Fonseca, teve que assumir a bronca que o ex-presidente deixou ao se renunciar. É claro, não fez nada até acabar a posse do mandato. Foi tão anônimo e preguiçoso que seu nome nem consta no livro de Posse dos Presidentes. Lima Barreto que o diga.

Campos Salles

(15.11.1898 a 15.11.1902)

Nasceu em Campinas/SP, o que já diz muita coisa. Um dos seus maiores feitos foi ter inaugurado a dívida externa nos moldes como conhecemos hoje. A inflação também foi outra brilhante criação, com a emissão desvairada de moedas, o que denunciava a tamanha inabilidade e desconhecimento técnico do governante em questão. Após pânico no mercado, moratória e falência múltipla de vários setores da já combalida economia brasileira, terminou seu governo sob merecidas vaias.

Delfim Moreira

(15.11.1918 a 27.07.1919)

Outro que mostra o tanto que o Brasil é zicado. Vice de Rodrigues Alves, assumiu a presidência logo no começo do mandato, devido a frágil saúde do legítimo presidente e sua conseqüente morte. Fez o que Sarney faria quase 70 anos mais tarde. Só que ao invés de estender seu mandato para 5 anos, foi bem mais esperto e convocou eleições meses depois que assumiu a presidência, para ser eleito novamente vice-presidente, agora na chapa de Epitácio Pessoa e ficar de boa, mamando nas tetas do governo até virar presunto.

Getúlio Vargas

(03.11.1930 a 24.08.1954 - com intervalos para o cafézinho)

O grande nome da política brasileira. Era tão bom, mas tão bom, que aprontava todas e sempre saía bem. Inclusive andou aprontando com Hittler e Mussolini, apoiando-os antes da segunda guerra e virando a casaca no momento certo, para agradar o governo Americano e tirar grande vantagens com isso. Um verdadeiro nobre. Criou todas as leis trabalhistas que vigoram até hoje como salário mínimo, FGTS, férias e 13o terceiro. Conceitos tão modernos que funcionam praticamente intactos já no começo do século XXI. Depois dizem que brasileiro não tem memória. Pelo menos os deputados têm, não fazem nada para atualizar isto e mantêm viva a memória de Getúlio.

Outros pepinos criados por ele também vigoram até hoje: PDT, BNDS e Leonel Brizola. Só coisa fina. Era tão complexo politicamente que foi eleito indiretamente numa primeira fase de seu governo, depois instaurou uma ditadura semelhante a que FHC faria no futuro, caiu do poder e conseguiu voltar por vias diretas, ou seja, pela democracia. Após utilizar-se de seus métodos democráticos e mandar matar um jornalista de oposição, seus homens se enganaram e mataram um major da Aeronáutica. Aí já era. Como ia ter que deixar o governo de vez e voltar definitivamente para o Rio Grande do Sul, foi mais sensato e preferiu dar dois tiros no peito para "sair da vida para entrar na história".

Eurico Gaspar Dutra

(31.01.1946 a 31.01.1951)

Serviu de tampão enquanto Getúlio dava um relax entre um governo e outro. Além disso, consumiu todas as reservas da nação e deu nome à principal rodovia do país, que liga Rio/SP.

Juscelino Kubitschek

(31.01.1956 a 31.01.1961)

50 anos em 5. Tá bom. Só se for em Hollywood. Lugar, aliás, que Juscelino achava que estava, devido sua ótima representação e dons artísticos. Trouxe o Fusca, Chevete e o Corcel. Criou Brasília, a ilha da segurança dos políticos e desenvolveu o Brasil com hidrelétricas e outros luxos que funcionariam bem, se ele não se esquecesse que deveria pagar depois de fazer as compras. Com a dívida externa a mil, o Brasil conseguiu o primeiro título da Copa do Mundo em 58, dando mais otimismo para este nosso cândido presidente. Tinha tudo para ser governante novamente, mas como o mundo é cão e alguém tem que se fuder, Kubitschek morreu em um misterioso acidente automobilístico e passou desta para melhor, deixando o seu Brasil de futuro tão promissor nas mão de outros malucos que ele não poderia imaginar.

Jânio Quadros

(31.01.1961 a 25.08.1961)

Por falar em maluco, este comeu bolinha quando criança. Crazy dos pesados. Se preocupava com coisas muito importantes como proibir a briga de galo e o uso de biquini nas praias cariocas. Queria que todo o funcionalismo público deixasse de lado terno e gravata e usasse roupa de safari. Era tão histriônico que se comunicava com ministros e assessores via "bilhetinhos" (mais de 2 mil deles em 206 dias de trabalho).

Num destes surtos, sem mais nem menos, renunciou à presidência. Dizem que ele queria que o povo clamasse por sua volta para ganhar mais poder. Mas como ninguém deu importância, perdeu o cargo para Jango, seu vice, e abriu-se aí uma ululante oportunidade para os militares tomarem o poder, fato que seria realizado meses mais tarde. Viveu no ostracismo político durante décadas, até voltar à prefeitura de São Paulo em 1986, vencendo um outro maluco de carteirinha, o então sociólogo-ateu Fernando Henrique Cardoso. Jânio Quadro morreu em 1992.

Período militar

(15.04.1964 - 15.03.1985)

Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueredo, tudo milico. Começaram tosqueiramente, mandando prender, bater e matar, além de darem palpites na escalação da seleção brasileira. E ai de quem discordasse. Fizeram uma limpa no Brasil e mandaram pra fora todos os bichos-grilos e revolucionários tupiniquins.

Não tinha pra ninguém. Ainda no esquema "Brasil ame-o ou deixe-o", viveram um período de ufanismo e de milagre econômico, fazendo a população brasileira acreditar no futuro da nação, com "70 milhões em ação", "na corrente pra frente". Pelo menos de chavões eles eram bons. Hoje eles são pintados de vilão e a história os culpa pelo atraso. Mas, sem querer tosquear, pelo menos naquela época o brasileiro tinha dignidade e tinha um governo que se preocupava com o povo, dando balinhas anti-vermes na escola para a garotada e sendo paternalistas com a indústria brasileira. Só que eles esqueceram que o Brasil ainda vivia (e vive) na pré-história.

Uma prova disto são os participantes civis da política militar como Jarbas Passarinho, Antônio Carlos Magalhães, Paulo Maluf e Delfim Neto, que NÃO participam ativamente da atual conjuntura. Com tão boa companhia, o governo militar foi enfraquecendo e a abertura "ampla, gradual e irrestrita" foi acontecendo de um governo para o outro até chegarem na tão sonhada democracia. O que os fardas não sonhavam é que, diante de todo o cenário brasileiro e da atual "democracia", até suas toscarias deixam um pouco de saudade…

José Sarney

(15.03.1985 a 15.03.1990)

É uma dessas aberrações da história, que só acontecem a cada era. Tancredo Neves, político experiente, mineiro e muito, mas muito esperto mesmo, seria o líder brasileiro na transição da ditadura militar para a democracia. Só que, como a história sempre é gozadora e adora tirar um sarro - particularmente do Brasil - Tancredo morreu antes de assumir a presidência. Aí, um membro da Arena, o representante dos "cabrestos" no governo, era o vice na chapa de Tancredo. Ninguém imaginava que este favor de botar um vice-presidente tosco para agradar os coronéis e generais ia mudar pra sempre o rumo da história. Até porque um vice-presidente não representa praticamente nada. Ainda mais o Sarney. Mas ninguém imaginava que Tancredo Neves morreria vítima de uma infecção generalizada(??). Daí o Sarney assumiu. Humor negro puro. Macabro.

Sarney tentou parar a inflação e ela voltou mais galopante. Sarney tentou congelar os preços e o Brasil conseguiu ter seus dias de URSS - no mal sentido. Sarney tentou mudar a moeda brasileira e passamos por umas coisas estranhas como cruzados e cruzados novos. Para quem não se lembra daquela época, a moeda brasileira era umas notas ridículas, vermelhas, verdes, marrons, com os dizeres "Deus seja louvado" e que levavam uns carimbos para serem reajustadas. Coisa de submundo. Outro fato marcante da época, eram os preços. Era até engraçado. De manhã um pacote de arroz valia CRZ 1.600.234,00 e a tarde já valia CRZ 2.010.000,00. E para aproveitar a pechincha da manhã e evitar o aumento da tarde, as filas eram enormes no supermercados, tendo quebra pau e tumultos generalizados, além do bom comportamento dos comerciantes que escondiam mercadorias para vender mais tarde. Submundo? não…

Fernando Collor

(15.03.1990 a 02.10.1992)

"Quando você pensa que já perdeu tudo, você descobre que pode perder um pouco mais". Esta sábia frase de Bob Dylan define bem a transição do governo Sarney para o governo Collor. Catástrofe seria um eufemismo. O tal Fernando ganhou as eleições com um mote sólido como "caçador de marajás", além de apresentar um porte atlético digno de novelas da família Marinho, que aliás, foi a maior responsável por este mancebo no governo. Já de cara, matou a nação do coração ao bloquear todo o dinheiro de conta corrente e poupança com saldo acima de CR$ 50 mil (cerca de míseros R$ 90). Ou seja, de cara já rapou o povão, que já não tinha nada para oferecer. O tio Marinho não gostou muito desta história de tirar dinheiro da massa consumista (= prejuízo nos anúncios) e deixou de dar apoio ao presidente que a sua emissora havia colocado no poder.

Daí para as denúncias de corrupção e outras atitudes abiloladas (como andar de avião de guerra e Ferrari), foi só questão de crescimento da carreira (com trocadilhos). Até que apareceu um cara mais paranóia que o próprio Collor, o seu irmão Pedro, para chutar o balde. Pedro denunciou um esquema de roubalheira digno de máfia internacional, tendo o como um dos cabeças o presidente do Brasil. Não deu outra. Collor teve que pedir para ir no banheiro e sair de fininho para tentar se livrar do Impeachment. Mesmo assim amargou uma pena de oito anos afastado da política. Foi morar em Miami e hoje já pleiteia algum cargo eletivo no nordeste e provavelmente voltará a ser deputado ou senador com votos da mesma população que um dia o elegeu presidente da nação.

Itamar Franco

(02.10.1992 a 01.01.1995)

Outro acaso que só confirma como a história não leva o Brasil a sério. Como bom mineiro, Itamar assumiu o abacaxi deixado por Collor e procurou ficar quieto para não comprometer. Ainda assim inaugurou a era dos carros populares (com a volta do Fusca) e serviu de trampolim para o reinado de FHC, que lançaria o plano Real como ministro da fazenda do governo Itamar. Hoje Itamar Franco é líder de uma banda de heavy-metal e geralmente promove uns espetáculos de quebradeiras pelas bandas de Minas Gerais.

FHC

(01.01.1995 - 01.01.2003)

Depois de mais de 100 anos de república, voltamos à monarquia. Eleito pelo povo em 1994, depois de implantar o plano Real, preocupou-se em entrar para a história. No primeiro governo, passou 4 anos cuidando da reeleição. Reeleito, só não aprovou uma nova emenda de reeleição porque ia pegar mal. Mas é sempre bom lembrar que FHC apoiou a terceira eleição consecutiva de Alberto Fujimori no Peru, antes do nipo-peruano ter que sair fugido do país acusado de corrupção.

Tem a estatura política de um Getúlio Vargas, com a diferença que não dá a mínima para o povão. Em seu governo mandou às favas professores, aposentados, militares, agricultores, em suma, nenhum setor da vida social e econômica do país saiu ilesa do descaso presidencial. Os únicos que ganharam foram os gringos, que fizeram o país aderir mais um movimento latino-americano de ditadura, agora "neoliberal". Ah, nestes oito anos, viajou o mundo todo. Se fôssemos descontar as horas fora do posto, FHC provavelmente deveria cumprir mais um mandato.

Dentre suas promessas como educação, segurança, reforma agrária, reforma tributária, não cumpriu nenhuma e ainda conseguiu multiplicar a dívida brasileira, atrelando a soberania da nação a um banco internacional. As universidades estão passando por um desgaste sem igual, estamos vivendo uma guerra civil, FHC conseguiu implantar um modelo de reforma agrária onde os latifúndios são preservados e terras de pequenos agricultores invadidas. Sem contar que temos uma incógnita para o futuro do Brasil, no que diz respeito à inflações, situação econômica, pobreza, fragilidade política, desemprego e outros pepinos que não foram resolvidos no reinado FHC.

FHC foi um dos grandes vira-casaca da política brasileira, se aliou aos coronéis que mandam há mais de 30 anos e deu o "golpe branco" no país. Seu poder é tão grande que abafou e arquivou todos os processos contra os escabrosos métodos do governo, apenas deixando passar aqueles que lhe interessava contra alguns ex-amigos políticos. Tudo isso para alimentar o capricho de um intelectual que queria entrar na história. Não é que ele conseguiu? Agora já pode ir, em paz, para Paris…

O futuro…

Depois de 113 anos de erros não esperem que em 4 anos teremos mudanças profundas. Luis Inácio "Lula" da Silva não é o grande herói. Não, não há ilusão. O país vai continuar no seu irreversível "down hill". Não há esperanças.

Diante destas figuras escolhidas para contar a nossa famigerada história, não há nada que possamos fazer a não ser rir um pouco desta pitoresca galeria, rir dos direitistas reacionários, dos esquerdosos de diretórios acadêmicos e esperar o fim deste país, tão malfadado por ter o povo que tem e seus respectivos governantes. E condenado a amargar o seu perene anonimato.


Titulo: Galeria dos presidentes brasileiros

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 9 de abril de 2003

Resumo:

Humor negro baseado em tosquíssimos fatos reais.

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9 Comentários

  1. leide disse:

    muito legal essa galeria dos presidentes brasileiro te varis pessoas que eu gosto espero que vcs goste do meu comentarios bjossssssssssssssssssssssssss

  2. Bruna disse:

    Vim buscar informações sobres nossos ex representantes pra fazer o enem amanha, e agradeço muito pela sua ajuda. Esclareceu bastante!
    O triste é que os fatos mais marcantes de cada governo são evidentemente os pontos negativos, principalmente os que relevam a corrupção! =/

  3. Tereza disse:

    Caí aqui por acaso, estava buscando outro tipo de informação, mas hoje, nem os sites de busca funcionam mais…

  4. Tereza disse:

    Desculpe-me Paulo Henrique. Parece-me que você foi contaminado pelo mesmo mal desses presidentes, exceto, é claro e pela sua ótica - os mineiros, inclusive Itamar Franco - isso é piada e é o maior mal deste país. Falta absoluta de seriedade.Espero que hoje, seis anos após o texto, tenha adquirido visão menos tendenciosa e mais personalisada da “história”.

  5. Malu Peters disse:

    E depois de 6 anos você poderia continuar contando, nesse seu jeito super divertido, como é que a história acabou. Prometo que vou repassar para os leitores do Blog Pena Digital, eles estão precisando de rir um pouco. Adorei! Quem dera eu escrevesse assim.

  6. Bel disse:

    Sarcástico é o melhor adjetivo para definir seu texto com essa nobre descrição da política brasileira. Como disse o Rissio, estamos lendo a verdade que não se vê em livros! Adorei!!!

  7. Ronaldo Magalhães Lima disse:

    Na verdade recomendei para vários amigos este a “Gakeria dos Presidentes Loucos, ops… brasileiros”. Não vou dizer que é um Texto excelente, pois seria um adjetivo pequeno perto do que realmente é esse texto, nos leva a pensar em nossa história, nossa triste realidade e ao mesmo tempo que te leva rir, te faz sentir vontade de chorar também, pelo menos foi o que senti lendo… Parabéns foi muito bom.

  8. Gustavo Rissio disse:

    Muito bom, PH! Uma apresentação bastante direta e descontraída. Com um toque de humor você descreveu de maneira muito verdadeira o que não se vê em livros… Parabéns!

  9. Alexandre Piccolo disse:

    Excelente. Texto fluente, linguajar jovem, reflexões descontraídas, observações sutis e hilárias, todas muito bem entrelaçadas - enfim, a boa prosa mineira. E melhor a cada nova versão, com pequenos e perfeitos retoques. Excelente!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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