Ensaio por Paulo Henrique
25 de novembro de 2003
advertência: este texto é um testemunho pessoal de fé.
Nós vivemos praticamente no mesmo mundo em que Salomão viveu. Algumas coisas mudaram, mas a natureza do homem permaneceu. Como muitos sabem, Salomão foi rei de Israel, filho do Rei Davi. De uma forma muito especial, este homem recebeu de Deus sabedoria sem igual, escreveu três livros que fazem parte da Bíblia (Provérbios, Eclesiastes e Cânticos), se casou com 700 princesas e teve caso com mais 300 concubinas. Ainda assim, com toda esta vida que poderíamos chamar de abastada ou agitada, ele achava que tudo era “correr atrás do vento”. De nada valia a sabedoria, de nada valia a riqueza, o trabalho, as mulheres (como ele define como “a delícia dos filhos dos homens”). Nada, nada disso valia. Era tudo correr atrás do vento, uma ilusão insana, na vã tentativa de ser feliz, de se realizar.
Que coisa… Salomão de tão sábio sacou tudo isto. Novamente ele define: “quanto maior a sabedoria, maior a tristeza”. É o vazio. Se vamos morrer, para que vivemos? Alguns dizem que é para sermos felizes… Quem fala isto esquece que os momentos de felicidades são tão efêmeros que chegam ser raridade. A infelicidade que é a base da vida. Se assim não fosse, a felicidade não seria tão valorizada. O próprio prazer, quando passa, aumenta o buraco, pois ao ficarmos na mão novamente, sentimos a perda daquilo que já não tínhamos outrora. Tudo não passa de uma grande ilusão. A ilusão de ter o que não nos pertence, de querer para sempre o efêmero, de correr atrás do vento.
Se compararmos a história de cada um com a trajetória da humanidade, veremos que somos representações individuais do fracasso global da História. A humanidade sempre se enrosca, sempre acha que está no caminho certo mas sempre dá com a cara na parede… é tiro e queda! Vamos analisar alguns períodos da história, sistemas e impérios: o império Romano foi um exemplo de dominação e verdade poucas vezes repetido na história. Só coube ao tempo mostrar que a “Cidade Eterna” era uma ilusão, uma imponente ruína, que perto da eternidade, não passava de um formigueiro no jardim ? prestes a ser destruído.
Outra analogia que podemos fazer é com Israel. Todos nós somos um Israel em potencial. Somos tão cegos, ignorantes, equivocados e infiéis quanto este povo que Jeová escolheu. Nada, nenhuma evidente e assombrosa manifestação de poder Divino ? abrir o mar, pão que caía do céu, etc ? foi suficiente para colocar este povo na linha. Este povo, quando em apuros, clamava o nome de Deus… e ao serem livres destas situações ? pela mão de Deus - voltavam a querer caminhar com as próprias pernas, voltavam a se iludir, a correr atrás do vento… o que acontecia? Tudo pifava novamente.
C.S. Lewis, filósofo cristão, um irlandês que foi professor na Universidade de Oxford e um dos grandes pensadores do século XX, tem uma teoria interessante sobre este assunto. O ser humano ainda não percebeu que Deus é o combustível certo para o mundo. Se o princípio de tudo é Ele, é Ele quem vai fazer rodar esta máquina doida. Lewis diz que se compararmos a humanidade com um automóvel que funciona a gasolina, nós temos colocado qualquer outro combustível (álcool, diesel, óleo de soja, água) para fazer mover o motor. Tentamos, tentamos, andamos um pouco e o carro morre. Novamente, com cara de tacho, vamos lá e colocamos outro combustível… novamente o errado, é claro. E assim, aos trancos e barrancos, andamos ínfimos metros, sem perceber o tempo que perdemos por ignorar o Óbvio.
É assim com a humanidade (Gregos, Romanos, Egípicios, Babilônicos, Persas, Ingleses, Russos, Americanos, etc) e é exatamente assim com cada um de nós. Até mesmo nós, os cristãos, que fomos alvos da irreversível Graça, somos assim. Sabemos qual é o combustível certo, nos seguramos Nele, queremos Ele, mas em um momento de paz, em que nos sentimos com as pernas firmes, soltamos de sua mão e levamos o maior tombo.
É sempre assim: nos momentos de estabilidade, queremos resolver as coisas por nós mesmo. Como se fosse possível falar: “Tá, Deus, valeu, mas de agora em diante, pode deixar que eu sei o que é melhor para mim”. Aí já era! O capote é maior do que o anterior.
A ilusão é sempre presente. As próprias bênçãos se tornam ilusão, depois que esquecemos a origem Divina dela. A mulher amada, o bom emprego, a saúde, a estabilidade emocional, todas estas bênçãos podem se tornar elementos de esfriamento na relação com Deus. Tudo isto pode se tornar novamente ilusão e podemos crer, mais uma vez, que a partir daí podemos caminhar sozinhos… e pronto: com vocês novamente, o tombo!
É difícil. Por isso que Jesus Cristo veio e revogou toda a nossa responsabilidade pelos nossos próprios atos. Acho que Deus se cansou de tentar esperar o homem dar certo e interviu por Ele mesmo, num caminho até então inédito para Ele (limitações, temporalidade, morte). Jesus Cristo é a expressão máxima desta Graça que nos impede de nos esborracharmos em definitivo, pois este seria o nosso destino natural. A nossa ignorância é tamanha que só começa a ser revertida quando esta Graça superabunda a nossa mente e o nosso coração e, quando contemplamos a eternidade de Deus, percebemos que a ilusão de ótica deste mundo presente não é nada perto da inconcebível dimensão de Deus. E o que é mais escandaloso, Ele nos deixa, em nossa pequenez, participar desta eternidade. Contemplá-la e fazer parte dela em um caminho sem volta.
Mas ainda assim, falo por experiência própria, a ilusão nos invade de quando em quando. É só estarmos bem, que somos enganados. Somos tão cegos que nem esta experiência irreversível é capaz de nos desvencilhar desta mediocridade que é a vida humana e seus insignificantes anseios. Até o fato de alguns de nós nos acharmos pessoas com “valores elevados” e desprendidos da vida material, não deixa de ser um colossal equívoco.
É tudo correr atrás do vento. Não há saída. Chego a mesma conclusão que Salomão: vivamos cada dia, trabalhemos o tanto necessário para o pão, amemos a mulher amada, tomemos o vinho com ela, desfrutemos da vida e lembremos do Criador, que por Jesus Cristo, nos tirou desta cilada, sem pedirmos e sem merecermos. Estaríamos nesta mesma cilada que nos encontramos hoje, a ilusão seria a mesma, a tristeza idem. A diferença é que a escandalosa Graça de Deus nos alcançou. E isto nos basta. O resto é pura ilusão.
Titulo: Ilusão
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 25 de novembro de 2003
Resumo: Da mais pura possível
Corintiano,É sempre muito bom ler seus textos: profundos, sensatos, fluentes, dinâmicos, interrompíveis. Acho que o homem evolui porque ele cai e se levanta novamente; acho que Ele é o responsável por isso… acho não, tenho certeza! Ele percebe que queremos andar sozinhos e, então, Ele faz de conta que nos deixa, mas não nos perde de vista. É por isso que Ele sempre está presente quando nós caimos e, lá vamos nós de novo pedir-Lhe uma mãozinha; e, assim, de tombo em tombo, vamos crescendo e percebendo que a vida é bela, mesmo que nos pareça, às vezes, que já fomos e estamos assistindo ao filme de nossa vida, tão incompreensíveis são, muitas vezes, os fatos que fazem, de nossa vida, PELA GRAÇA DE DEUS, NOSSO PAI, uma bela ilusão. Um abraço do cruzeirense.
meus sinceros parabénd peagá. coisas que faz bem ler, num estilo leve e gostoso. valeu cara! gente precisa se falar qquer dia!
No enfoque do texto, uma diferença pertinente entre o tempo em que viveu Salomão e o nosso tempo é Cristo - “expressão máxima da Graça”. Será que esta diferença afetaria os escritos sapienciais do filho de Davi? Este questionamento é válido ou profícuo? Ah, gostei muito do trecho “a infelicidade é a base da vida” - me lembrou Tom Jobim cantando “tristeza não tem fiz…”
PH, perdoe-me. A fé não foge a lógicas, ela se baseia em outras, nem melhores, nem piores. Enfim, deixa eu ficar quieto. :^)
O texto não traz apenas seu testemunho de fé, mas sua visão de vida com base nessa mesma fé. Afirmar ou discordar do texto - e, portanto, da sua fé - seria apenas um exercício de retórica. A fé foge a lógicas, ainda que tentemos aplicá-las para explicar e compreender melhor esse mundo da fé. Gostei muito de ler seu testemunho, não como inspiração - não se zangue, hehe -, mas como mais uma forma de conhecer melhor você. Abraço e parabéns!
“É difícil. Por isso que Jesus Cristo veio e revogou toda a nossa responsabilidade pelos nossos próprios atos. Acho que Deus se cansou de tentar esperar o homem dar certo e interviu por Ele mesmo, num caminho até então inédito para Ele (limitações, temporalidade, morte). Jesus Cristo é a expressão máxima desta Graça que nos impede de nos esborracharmos em definitivo, pois este seria o nosso destino natural. A nossa ignorância é tamanha que só começa a ser revertida quando esta Graça superabunda a nossa mente e o nosso coração e, quando contemplamos a eternidade de Deus, percebemos que a ilusão de ótica deste mundo presente não é nada perto da inconcebível dimensão de Deus. E o que é mais escandaloso, Ele nos deixa, em nossa pequenez, participar desta eternidade. Contemplá-la e fazer parte dela em um caminho sem volta”.PH, de novo vc cai no mesmo erro: a Graça não exime o homem de responsabilidade. O ser humano, antes de aceitar a Graça, deve aceitar as conseqüências da sua escolha. A Graça está para todos, mas cabe a vc aceitá-la ou não. Este é o problema, o grande problema. A Graça é dolorida, sofrida e realmente poucos podem suportá-la. E é bom lembrar que a Graça não exclui o livre-arbítrio - algo que vc faz constantemente em seus textos, sabe-se lá porque.
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Isso é fato: são muitas as situações em que nos consideramos auto-suficientes. Esquecemos do que veio antes, da “graça que nos foi concedida” como vc mesmo diz.Esquecemos que não sabemos nem conhecemos nada. Mas isto não é motivo para desespero, como acontece com alguns. Mas para reflexão, humildade e ponderação. Obrigada pela bela contribuição!