Ensaio por Márcio Sampa
10 de fevereiro de 2003

Quem tomou contato com a história de Sidarta, seja através do livro homônimo de Herman Hesse, ou do filme de Bernardo Bertolucci, sabe muito bem que o nascimento do Buda (nome espiritual de Sidarta) se dá em dois momentos muito importantes: o primeiro é quando ele deixa os muros do palácio, onde vivia “protegido” por seu pai de todos os horrores do mundo e descobre a crueza da vida, da morte, da velhice e da doença. O segundo é quando ele desperta no meio da noite e se dá conta que todos ao seu redor estão dormindo. Após estas duas experiências, morre Sidarta e nasce o Buda.
Este sono dos cortesãos é o mesmo sono dos habitantes da Matrix holywoodiana. “Todos dormem”, cantava Renato Russo. Dormir aqui significa não ter consciência de si mesmo. Permitir que valores ditados pela mídia, pelos amigos ou até pelos próprios pais pautem a vida do indívíduo. No filme, Neo pergunta a Morpheus, “o que é a Matrix?”, ao que responde o enigmático “subversivo”, “Matrix é a prisão de sua mente”.
Quando o personagem principal do filme toma a pílula azul, ele decreta o fim da existência do sr. Anderson. A seqüência que se segue, então, mostra exatamente o nascimento de uma criatura que se encontrava encubada em um ovo. Mostra o nascimento de Neo para uma nova realidade. O nascimento de Neo para “a” realidade.
O que o filme Matrix faz é apenas recontar a mesma história narrada há milhares de anos por tantos sábios como Buda, Krisna, Lao Tse e Jesus. Matrix nos mostra que nascemos príncipes, a educação e o convívio social nos transformam em sapos, e que precisamos nos livrar das convenções, dos medos, das inseguranças, dos apegos. Precisamos ser nós mesmos, integrados a uma realidade muito maior, muito superior aos ditames da Matrix moderna, que nos diz que se não tivermos um celular, uma conta bancária, um bom emprego e um dia de Domingo pra ir jogar pipoca aos macacos, não somos ninguém.
Ao descobrir a realidade dos códigos binários, Neo não descobriu a Matrix, mas descobriu a si mesmo. Talvez por isso os gregos antigos tenham dito: “se quiseres conhecer o universo e os deuses, conhece-te a ti mesmo!”.
Titulo: Matrix. Muitos viram, poucos entenderam (Parte II)
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 10 de fevereiro de 2003
Resumo: a continuação de uma explicação para Matrix.
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