Ensaio por Paulo Henrique
9 de março de 2004

26 de setembro de 2001, lançamento do disco “Is this it”, o primeiro álbum do grupo nova-iorquino The Strokes. Este grupo, cujo disco estava sendo esperado com muita ansiedade pela comunidade pop mundial, pode ser analisado sob três aspectos:
1) A banda era formada por músicos que já faziam parte do mainstream midiático. O vocalista Juan Casablanca é filho de John Casablanca, dono de uma das maiores agências de modelos do mundo; O guitarrista Albert Hammond Júnior é filho do produtor Albert Hammond, que produziu sucessos de Paul Simon até Whitney Houston. Além de outros integrantes que também estavam na casa dos vinte anos. Para dar o tom certo de exoticismo, o baterista Fabrízio Moretti, apesar de ter vivido toda sua vida na Grande Maçã, é brasileiro.
2) Antes de lançar o primeiro disco, a banda utilizou muito bem a Internet. Deixou “escapar” duas música entre o internautas - que por coincidência são as melhores do disco - aguçando a expectativa em torno da banda.
3) Fazem um bom rock´n roll. Voltaram à origem do estilo com um vocal, duas guitarras, um baixo e uma bateria. Músicas curtas, melódicas e agressivas. Just for fun. Foram considerados os novos salvadores do Rock.
Este é o panorama de um dos lançamentos mais retumbantes do cenário musical dos últimos tempos. Uma banda de hippies de boutique que, por tocarem algo simples e mais ou menos honesto, foram considerados os novos Beatles, o novo Nirvana. Theodore Adorno, em “A indústria cultural” define este panorama: “a indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores”. Um estalo, vindo do topo, já é considerado um fenômeno.
Abre parênteses: a mídia “filtra”, de cima para baixo, a manifestação artística (inclusive o conceito de arte em si). Seguindo o raciocínio de Christopher Lasch, a mídia, por extrapolar seu sentido literário, representa a tecnologia, construída por muito dinheiro, financiada por determinado grupo, que detêm a tecnologia e a dissemina, junto com suas idéias e conceitos. Por isso têm a total liberdade de controlar as informações em diversos campos como o Político, Econômico e, agora mais do que nunca, Cultural. Fecha o parênteses.
Voltemos ao Rock. Depois das intenções artísticas dos anos 60 com, por exemplo, Beatles e Pink Floyd - bandas que exploravam mais as possibilidades musicais, mas ainda assim, eram vocacionadas ao gosto popular por sua simplicidade - surgiram outros artistas que, de olho tanto nos acordes como nos lucros, começaram uma produção musical inédita na história. Isto numa época em que todos os valores e instituições começaram a se relativizar. Assim, depois de duas guerras que envolveram países do Pacífico ao Pacífico, da produção em série de bens de consumo não duráveis e do trabalho regulamentado, a vida se tornou mais imediata.
Por isso que acordes rápidos eram considerados música. Para piorar, estas manifestações foram padronizadas e comercializada, surgindo inúmeras propostas risíveis. Afinal de contas, uma guitarra, um contra-baixo e uma bateria sempre será um universo limitado. Nem é preciso compreendê-lo, como muito bem fez Sid Vicious e seu Sex Pistols. As propostas brindavam a efemeridade com que a vida era levada. “Try or we can only lose, and our love become a funeral pyre”, diria Jim Morrison, um ícone do rompimento do ser humano com seus antigos valores. E por cada coisa da vida ser tão efêmera, o certo é materializar estes valores e vendê-los, podendo fazer assim, algum uso concreto ? sugiro ao leitor ouvir a canção “Money”, do Pink Floyd, para saber exatamente do que estou falando.
Então, após a música ser reduzida a este patamar de consumo, tudo mais seria possível, desde que fizesse dinheiro. Daí vieram as experiências nos anos 70 que se transformaram em investimento nos anos 80, que se consolidaram com muito lucro na década de 90. E proporcional a isso, a tecnologia avançava. É por isso que na primeira década do século 21, um novo produto (The Strokes), por justamente copiar a origem deste processo, é apontado como salvador do Rock.
Abordagem ampla
Saindo do caso The Strokes, que serviu para ilustrar o rumo que o pensamento humano tomou, projetamos esta experiência em outros aspectos. A padronização de idéias e sensações é decorrente do avanço tecnológico que permitiu a difusão das mesma idéias em toda parte do mundo. Esta unificação dos conceitos (que também é conhecida como globalização) se firmou com a chegada dos processos industriais, a evoluções dos meios de transportes e sobretudo, comunicação.
Os processos implantados em certa parte do mundo são replicados junto com os meios de comunicação desta mesma parte. Por ter dinheiro e domínio comercial, a liderança nos avanços da comunicação dão vantagem aos interesses desta determinada parte do globo, que difunde seus próprios valores.
Deixando de ser generalista e colaborando com a clareza de idéias, temos o exemplo do mundo ocidental, encabeçado pelos EUA. A Europa difundiu por todo o mundo seu meio de vida por dominar a técnica de navegação. Na Índia é tradição tomar o chá das cinco; a Oceania ostenta na maioria de suas flâmulas as linhas britânicas; as Américas se dividem em três idiomas: o Inglês, o Espanhol e o Português; o extremo oriente divide sua língua oficial com o Inglês, para a consolidação do Business to Business; a África - grande quintal da humanidade - teve destino literalmente traçado pelos Europeus. O próprio mapa mundi coloca a Europa no lado de cima, como se o Universo tivesse pontos cardeais.
E a turma que domina o globo terrestre decide até quem pode compartilhar, ou não, esta ou aquela idéia. Como alerta os jornalistas alemães Hans-Peter Martim e Harald Shumann, no livro-documentário-reportagem “A Amardilha da Globalização”, idéias como Disney, Ídolos do esporte, televisão, sonhos de consumo, “way of life”, são difundidos em larga escala, para o setor médio da sociedade humana, independente do lugar. “Tudo em toda a parte”. Por outro lado, uma significativa fatia da população é desprezada simplesmente por não se adequar aos padrões de consumo impostos. Para estes restam os números. O restrito grupo controlador impõe as idéias, mesmo sabendo que a vaca vai pro brejo. Conseqüências horripilantes destacadas no citado livro devido a desigualdade social, não são suficientes para mudar este rumo, pois são ignoradas por uma cruel seleção natural, onde o fraco - previamente desprovido de dignidade - sucumbe à falta de investimentos em alimentação e educação.
Extremo
Nos encontramos, portanto, no atual cenário que todos conhecemos. Vínculos perdidos. Sejam com pessoas, convicções, idéias. Tudo vale dinheiro, tudo tem seu preço. Não há vínculo que não se pague. Por isso é melhor deixa-los de lado.
Esta regra foi estabelecida por poucos, que, por deterem o que há de mais valor hoje em dia ? o dinheiro ? trabalham para maximizar este valor cada vez mais, para a manutenção de seu poder.
Independente se isto custa a vida de alguns, seja no sentido literário, com mortes decorrente de fome e guerras, ou em um sentido mais cruel ainda, que é viver sem perceber a vida, ditada por idéias de terceiros.
E quem percebe isto, por ser tão ínfimo, só pode escrever umas linhas e publicá-las (ainda que for um devaneio ignaro lido na íntegra apenas pelo próprio autor). Mas não há nada mais a fazer do que chegar a esta conclusão e, como todas as coisas, abstrair. Pois pior do que ser levado por esta correnteza é se iludir que algo vai mudar, sendo que este processo - que está em sua extremidade - é a maximização da natureza humana que “evolui” junto com sua capacidade de destruir o mundo. Resta-nos ouvir o Rock´n Roll, ou o que resta dele, antes que tudo se acabe de vez.
Titulo: No extremo do efêmero
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Ensaio
Data de publicação: 9 de março de 2004
Resumo: Um longo suspiro de resignação…
Puta texto, PH. Dizem por aí que o fatalismo - “fazer o quê, o mundo é assim” - é a cara da nossa geração. Certeza ou não, creio que dentro de muitos de nós existe esta luta… Puta texto, senti em você inspiração e vontade de expressar, isso transparece no texto. Grande abraço e parabéns!
Um de seus melhores textos. Inspirado, hein?!
sem palavras…
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Ainda bem que há algo além do Rock’n Roll para ouvir, além inclusive das classificações e evoluções que tanto ensejamos compreender e traçar. Fico com a sugestão: “Money, it’s a crime, share it farely, but don’t take a slice of my pie, money, so they say, is the root of all evil today”