O Decandentismo de Oscar Wilde

Ensaio por Tânia Toffoli
12 de março de 2004

Os artistas decadentistas se caracterizam, principalmente, por uma sensação de inadequação à sociedade (seus valores e costumes) e por grande crítica a tal sociedade. Sua arte virá como reação à crescente racionalização que ocorre junto com a ascensão da burguesia e do sistema econômico capitalista.

Com a Revolução Industrial, a sociedade passou a ser regida por novas regras ? a economia passou a ser a base da organização social. Com isso, os valores passaram por grande mudança, adequando-se a essa organização social burguesa. Assim, o utilitarismo e o materialismo, por exemplo, tornaram-se parte dos valores dessa sociedade.

A Inglaterra é a pátria do sistema econômico capitalista, nela a burguesia ascendeu ao poder, já no século XVII, com a Revolução Gloriosa. A Revolução Industrial lançou as bases de toda a sociedade contemporânea; uma sociedade cuja principal característica é a atividade econômica. A sociedade tornou-se pautada pelo sistema econômico-produtivo.

Apesar de todas essas mudanças e da ascensão da burguesia, ainda existia uma aristocracia decadente, em vias de ser extinta, que pretendia manter seus valores e suas percepções do mundo, mesmo vivendo num mundo baseado em outros valores. Ao invés de serem absorvidos pelo novo sistema e adaptarem-se a ele, buscaram um caminho diverso, o da crítica e a através da arte manifestaram-na, assim como também expressaram sua inadequação àquele estado em que encontrava-se a sociedade da época.

Em Oscar Wilde notaremos este aristocrata decadente, mas veremos a sensação de inadequação à sociedade dar-se com diferente intensidade em dois momentos. Primeiramente da forma mais relacionada ao choque de valores, a busca de romper com os mesmos (sempre de maneira, pelo menos, tolerável) e o sentimento de pertencer a um mundo corrompido.

Posteriormente, após o escândalo causado por seu envolvimento amoroso com lord Alfred Douglas que o mandou para o cárcere, vemos essa inadequação tornar-se ainda mais acentuada, já que tratava-se de um rompimento considerado inaceitável. Percebemos nesse último momento uma drástica sensação de impossibilidade de conviver naquela sociedade que o havia condenado.

Com relação à fase anterior ao escândalo, vemos nas atitudes de Wilde uma tentativa de romper com os valores de sua época desde a forma de se vestir (incluindo, inclusive, uma aparição com um traje em forma de violoncelo) até seu estilo de vida voltado para o prazer e a sensualidade.

O século XIX marca a consolidação da alienação dos indivíduos com relação à existência pública. Wilde foi uma figura pública numa sociedade viciada na vida privada. As pessoas temiam revelar sua intimidade pelas aparências, ele usava a aparência para revelar sua intimidade. A decadência estava em todas as virtudes que os vitorianos gostavam de exibir como prova de vigor. A hipocrisia vigorava disfarçada de seriedade e o artista deveria ousar desmascará-la.

Wilde dirigia duras críticas aos valores burgueses vigentes. Dizia que a base da ação é a falta de imaginação. A ação é o único recurso dos que são incapazes de sonhar. Essa crítica dirigia-se claramente ao homem moderno cuja vida baseia-se na atividade irrefletida, no hábito de cumprir tarefas. A estreiteza espiritual do homem de ação revela-se em sua aceitação da realidade objetiva. A irreflexão e a servidão voluntária derivadas da atividade são sinônimos. Em “A Decadência da Mentira” (1889) observa que o pensamento não era contagioso na Inglaterra e aqueles que eram incapazes de aprender dedicaram-se ao ensino. A educação em moldes utilitaristas estava tornando estúpidas as pessoas. Uma sociedade baseada na ação é, na verdade, fundada na ignorância.

Ele via nos valores e costumes de sua classe decadente como os mais adequados para o desenvolvimento da inteligência. Cultuava a figura do “lagarto preguiçoso”, aquele que só aparece depois das cinco da tarde. No que ele definia como “a importância de não se fazer nada”, Wilde propunha a transformação da sociedade pelo ócio e neste aparente pedantismo reside a condenação do que se estabelecera como padrão através do capitalismo.

O ócio seria importante para que se pudesse desenvolver o pensamento, dedicar-se às coisas belas. Em “The Critic as Artist”, Wilde afirma que o espírito crítico pode tornar possível a (re)descoberta da vida contemplativa, aquela que tem por objetivo não fazer mas ser, e não apenas ser, mas transformar-se. Sua defesa do ócio revela-se bem diferente da atitude da figura quiescente que se lhe atribui. O ócio, na verdade, proporciona o tempo necessário para qualquer atividade espiritual e que estava sendo tomado pela atividade oca e incessante do homem capitalista. O ser humano precisa resgatar sua dignidade perdida no sistema econômico que emperra a transformação e mascara um crescente vazio espiritual. A moral burguesa precisa ser revista pois coaduna e justifica este estado de coisas. O que é considerado vício pelo burguês merece ser reavaliado. Assim, em De Profundis, extensa carta escrita na prisão para Lord Douglas, Wilde afirma que o supremo vício é a estreiteza de espírito.

Mas não só buscou romper com os valores de sua época através de palavras, mas também através de atitudes e é exatamente esse desafio que o levou à ruína. Preso, privado de criar os filhos, com os bens leiloados, obrigado a trabalhos forçados e a uma condição humilhante, Wilde passou a refletir sobre si mesmo, a vida que levar até então, e vê que de onde ele havia chegado não poderia mais voltar à vida em sociedade que vivera antes.

Assim, busca refúgio num lugar isolado na França e lá passa o resto de seus dias. É nesse momento, com essa sensação de culpa e visão da decadência em que vivia a humanidade que Oscar Wilde faz suas principais reflexões sobre si e sobre o homem.


Titulo: O Decandentismo de Oscar Wilde

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Ensaio

Data de publicação: 12 de março de 2004

Resumo:

Um panorama do decadentismo na obra e na vida de um dos grandes escritores do século XIX.

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4 Comentários

  1. Pink Floyd disse:

    we don’t need no education! we don’t need no thought control!

  2. samira disse:

    Trabalho de alto nível! Espero ler mais coisas assim.

  3. PH disse:

    O ócio, na verdade, proporciona o tempo necessário para qualquer atividade espiritual e que estava sendo tomado pela atividade oca e incessante do homem capitalista”. Excelente síntese da atual condição da raça humana, endossada por um excelente ensaio sobre Wilde. Bela contribuição, Tânia.

  4. Marco A. Ribeiro Feitosa disse:

    Muito bom! Digno de uma discípula do Eric! :)

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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